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#carta1: Foi bom te reencontrar.

13 de abril de 2020

Eu não sinto que minha casa continua vazia. Aos poucos, tenho preenchido os espaços revelados com novos conteúdos. A limpeza emocional abriu mais lugares, afastou alguns móveis, derrubou paredes, escancarou as janelas. Sinto como se a vida entrasse junto com o vento todas as tardes.

Eu tenho uma nova cama — reforcei suas bases com boas lembranças, assim posso garantir noites tranquilas de sono. Há um diário em cada canto do meu quarto: registro todos os meus sentimentos; catalogo as emoções; faço planilhas; desenho mapas. Estou me sentindo uma desbravadora. Outra noite, aprendi a desenhar minhas próprias estrelas, já não ando caçando as constelações dos outros.

Estou me arriscando a não trancar mais a porta. Só preciso me manter atenta para todo sentimento ou qualquer pessoa que resolva entrar ou sair. Não preciso mais de nenhuma chave para me esconder do mundo. Há muita vida em mim, embora eu ainda não tenha entendido todo o seu propósito. Acho que é isso o que eles chamam de processo.

Estou tentando. Torça por mim para que eu seja capaz de expulsar os fantasmas que restaram.

Ainda me sinto um recipiente, abrigando todas as emoções antes de peneirar e retirar apenas o que reforça a vida em mim. Não tem sido uma tarefa fácil. Se me descuido por algum instante, transbordo. Entretanto, já não me afogo mais com a mesma frequência de antes. Agora, eu luto.

Hoje foi um bom dia. Eu venci uma parte dolorida em mim. Fui ver você. Acho que o mundo estava me aplaudindo, porque o sol se acalmou, o vento soprou tantos cheiros de flores, corais e mar, que quase me perdi no caminho. Confesso, eu não sabia se conseguiria chegar. É engraçado, não é? Parece que ao mergulhar descobri uma forma para me salvar. Mas não recomendo esse tipo de experiência para ninguém. Eu estava errada. Eu sempre estive. Eu não precisava enfrentar toda a dor sozinha; bastava eu olhar para o lado e me reconhecer no outro e já seria um começo.

Sei que me atrasei, mas estava colocando ordem na casa. Remexer nas memórias pode causar desequilíbrios, e você bem sabe sobre as minhas quedas. Talvez até as nossas. Eu precisei de tempo para entender que você continua vivo através de mim. Eu quase estraguei tudo isso.

Eu espero que você tenha sentido o fim de tarde, junto comigo. Até as árvores se calaram para te ouvir chegar. Desconfio que você veio entre um raio de sol e outro que banhava a grama. Eu senti você como jamais havia sentido antes. Você estava em todos os lugares, principalmente em mim. Arrisco-me a dizer que seu coração bateu dentro do meu.

Sentada sobre a grama, me permiti relaxar na proteção de sua sombra. Pela primeira vez, observei o mar de longe e de cima. Foi lindo ver as ondas tão brilhantes. Eu senti você segurar a minha mão toda vez que uma nova onda se formava poderosa. Eu não estava mais lá me afogando. Eu não sentia mais medo. Hoje eu entendi que a escuridão não tirou você de mim.

Obrigada por esperar eu encontrar o caminho de casa. Foi bom sentir o cheiro do lar, reconhecer os móveis e abraçar a vida. Mas também você descobriu minha saudade e os estragos que ela fez. Peço perdão, em algum momento eu fracassei.

É bom saber que essa história não acaba quando alguém se vai. Os que ficaram têm a responsabilidade de conduzir a vida; embora não tenha se tornado mais fácil, eu fiquei mais forte.

Eu evitei esse reencontro. Tinha medo de você não me reconhecer por baixo de tantas feridas. Eu sei, foi apenas covardia. Você sempre me acharia, não importa as circunstâncias, o tempo, os acúmulos de saudade. Afinal, você conhece todos os meus esconderijos. Eu sou um livro aberto para você.

Eu sigo sentindo sua falta. Agora eu sei que isso não passará.

Estou tentando. Me deseje sorte.

Continuarei escrevendo cartas, agora eu tenho o endereço certo.

Com amor, …

P.S.: Foi muito bom te reencontrar, pai.

#faah, #slide, #textos

Acumuladora de Emoções.

21 de janeiro de 2019

2018 foi um ano de incríveis mudanças em minha vida. Não consigo deixar de pensar em quantos passos firmes e positivos foram dados, em como a minha jornada sofreu drásticas mudanças – muitas para melhor – e no quanto me tornei uma pessoa mais decidida e consciente das minhas necessidades.

Dentre tantas mudanças, compreender o que preciso para ser feliz foi fundamental. Eu precisava parar de fazer escolhas e planejar meu futuro com base no que esperavam de mim. Antes de tudo, eu deveria me concentrar no que eu era capaz de construir sozinha com base em minhas necessidades. E foi por ser totalmente tomada por esse pensamento que ao compreender o que me faltava, fui capaz de refletir sobre o que me faz feliz — logo, recalculei a rota.

Ano passado, tomei a decisão de entrar numa nova faculdade. Finalmente cursar o que eu tanto desejei desde muito jovem, mas por medo, influência familiar, acabei adiando por quase 15 anos. Não direi que voltar a estudar foi uma decisão fácil. Meu orgulho e idade pesaram demais, afinal, eu estava numa carreia confortável, estabilidade financeira, a mente cansada de tantos anos de estudo… Mas algo estava faltando e eu não conseguiria me sentir inteira sem isso.

Foto autoral.

Também foi um ano de reconstrução. Percebi, através de muita terapia pessoal, que a origem de muita angústia/ansiedade é bem mais profunda. Eu passei anos construindo uma vida estável em cima de camadas e mais camadas de tristezas silenciadas, de dores eclipsadas. Um dia meu castelo iria ruir, e eu não saberia como lidar com a queda. Retrocedi e enfrentei monstros adormecido; constatei que não adiantaria mudar o hoje sem destruir as lembranças ruins que me fizeram reinventar quem sou. Foram anos de insistentes negações. Embora eu conquistasse significativas vitórias, sentia-me uma impostora — vivendo uma vida que não me pertencia. Num dado momento, deparei-me com uma triste realidade: me dediquei bastante em manter perfeito  a parte de fora da minha casa, e esqueci completamente do caos que estava dentro — as lembranças acumuladas em pilhas de ressentimento, as memórias ruins, os rostos que eu fingi esquecer, as quedas que ainda faziam meus joelhos sangrarem… Tudo ainda continuava amontoado aqui dentro. Eu havia me tornado uma acumuladora de emoções

E somente quando eu entendi o que me faltava, fui capaz reprojetar meu futuro.

A parte mais difícil é se manter consciente do que pode ser melhorado e do que é suficiente para ser feliz. Ter cuidado para saber diferenciar esses pontos é fundamental para deixar a “síndrome do impostor” bem longe. Foram longos anos sem compreender o que a voz distante tentava me dizer. Eu tinha uma vida pela metade. Eu nunca havia dedicado 100% das minhas capacidades em qualquer coisa conquistada até esse momento, porque eu sempre adiei meus verdadeiros sonhos — por medo de fracassar, por não me conhecer, não saber do que sou capaz, por medo do que há após o real sucesso. 

Hoje, depois de tantas quedas e anos de conformismo, estou saboreando a sensação de arriscar. Quando passei a me permitir errar, descobri quem sou. Eu? Bem, eu sou muitas.

Sou grata pela multiplicidade. 

 

#slide, #textos

A linha azul desbotada.

2 de janeiro de 2019

E num dia, um abismo brilhante se abriu diante dos seus olhos. E as mãos que deveriam segurar as suas agora se enfiam em caminhos desconhecidos.

Você olha para o palhaço na parede — a única parcela de cores vibrantes em meio ao quarto branco. Os lençóis foram banhados por ondas amareladas do sol que nos atinge através da janela aberta. Ele não tinha medo de ser visto. Mas você sim.

Fita o sorriso macabro cheio de dentes e decide se esconder em algum lugar escuro e solitário, mas não consegue se mover. Está paralisada. Não tem consciência total de sua imobilidade, mas sente medo. Um medo angustiante que faz sua garganta se fechar. Tudo é silêncio dentro de você, então tenta se concentrar em sua respiração baixa e pesada. Você quer sair, não é o seu lugar. Para onde foram todos? Por que te deixaram aqui sozinha? Você é pequena demais. Nova demais. Inocente demais. Eles não acreditariam, você ouve. Eles não acreditariam. É nosso segredo. Mas você odeia segredos. Todos eles. E percebe que odiar também não ajuda, mas canaliza o bolo de sensações para uma única direção. 

Está escuro aqui dentro. La fora não é mais seguro. Mentiram para você. Então você se encolhe — é uma massa indecifrável de dor e angústia. 

Isso não acaba nunca.

Não olhe para o palhaço. 

Feche os olhos.

Você está sozinha aqui dentro. Ninguém te encontrará: nenhuma mão, nenhuma voz, nenhum outro cheiro, nenhuma respiração… Aqueles olhos enxergam apenas seu exterior. Estamos seguras aqui. 

A partir de agora o mundo será apenas um teatro. Finja ser forte. 

Tudo bem. Eu assumo daqui. Você é frágil demais para esse mundo. Tem coração. Sorria mesmo sangrando. Eu sou a única pessoa que entende você, porque eu sou você mesmo distante — uma pintura manchada. 

Você odeia os domingos e eu sou a única que compreende. Eu estava lá com você. Sempre. Todos os domingos. 

O som do relógio de madeira na sala avisa que está perto de acabar. O palhaço ri da marca que deixaram em você. Borracha alguma apagará, mas você só saberá disse no futuro. Por enquanto, feche os olhos. Não emita um só som. Mostre que algo dentro de você acaba de morrer. 

[Ninguém nota]

As paredes giram. 

Não. Não giram. É você ficando tonta. Está machucada. Está despedaçada. O som da televisão na sala te puxa de volta da queda. Mas você quer cair. Você prefere cair a voltar. Quedas: sua nova realidade.

Mas você não quis isso!

Uma linha azul desponta de sua camisa preferida. Você puxa a linha como se tentasse descosturar sua vida do mundo. Mas só abre um buraco. E tudo o que você consegue pensar é que não adiantou evitar os estranhos, nunca atravessar a rua sem soltar a mão dos mais velhos, olhar embaixo da cama — os monstros têm nome e conhecem você.

A linha azul desbotada é apenas uma desculpa. Você ainda não sabe disso.

De agora em diante, os abismos não te darão mais medo. Você já conheceu o inferno várias vezes. Não foi a noite que trouxe consigo os fantasmas. Eles sempre estiveram vagando na frente de todos. Eles sorriem. E quando você se jogar no chão aos berros não querendo visitá-los, não te entenderão. A mão que deveria te proteger do sol e costurar a linha azul é a mesma que te espanca em repressão. Você se morderá, dessa forma já estará machucada. Podem tirar seus domingos, puxar sua fita de proteção, mas quando voltarem a invadir sua casa não encontrarão nada no lugar, você já estará uma bagunça. 

Eles são monstros. Você se sente assim também. 

“Deixe. Eu assumo daqui”, mas você já tinha desistido muito tempo antes. Você ainda não sabe, mas eu nasci da sua dor. Fui forjada no ódio, na raiva reprimida, em todos os gritos que eles nunca entenderam. Eu sou o NÃO que você não sabia como dizer e nem se podia. Eu sou a parte podre que vai insistir em te empurrar todos os dias. Você me odiará, mas precisará de mim. Eu mantenho você viva, ainda resistindo. 

A linha azul desbotada agora sou eu — o trincar de dentes, as unhas afundando contra a pele, as dores absurdas de cabeça, a angústia instalada na garganta, o suor frio, a voz que nunca te deixa esquecer ou relaxar. Eu sou os olhos que te observam, o espectro que caminha ao seu lado todos os dias. 

Você não me manda embora com medo que eu descosture sua vida. Tem medo de ficar sozinha e enfrentar o mundo sem minha fúria. Você não sabe quem é bom ou inimigo.

Não há castelos, nem muralhas, nem armadura suficiente para te proteger. Seu corpo é seu império. Eu te ensinei a marcar suas fronteiras. Sem mais invasões. Repleta de esquecimentos. 

Não olhe. O palhaço ainda sorri. 

#textos

Não estou pronta para a chuva.

28 de dezembro de 2018

Eu não lembro quando foi a última vez que fui honesta comigo mesma. Talvez, completamente jamais tenha sido. Talvez eu tenha medo de descobrir o que restou de mim após 32 anos confusos que passaram voando — sem pausas, esperas ou grandes mudanças de rumo. Eu acho que sempre ocupei o mesmo espaço esquisito na vida, a parte estranha da família. Não estranha de esquisita — apenas alheia ao comum, aos demais; como se tudo em mim fosse incerto e diferente que dificultasse o trabalho dos outros em tentar me classificar.

Eu acho que sempre andei pela mesma estrada insegura, duvidosa, porém conhecida. Talvez, novamente, eu tenha feito escolhas com medo das revelações/descobertas.

Isso explicaria tantos projetos inacabados? Por isso me condeno tanto todo o temo como se dentro de mim houvesse uma inimiga sempre pronta para me parar?

Gostaria de ter aprendido a ser mais forte que meus medos. Quem sabe eu teria me escondido menos ao longo dos anos e teria sido mais protagonista da minha vida? Como saber?

Eu acho que saltei algumas fases da vida e vivo repetindo outras.

Mas tudo isso ainda não é olhar para dentro. Ando, desde sempre, evitando olhar para a outra. E se ela demonstrar toda a sua força? Eu posso acabar sendo engolida por sua fúria.

Não posso desaparecer. E, no entanto, acho que tenho feito isso suavemente durante a vida, como se me apagar da história amenizasse as feridas. Uma pena que na prática isso não funcione. É só mais um instrumento silenciando meus gritos.

Se eu morrer hoje terei vivido apenas um terço do que deveria.

No fim das contas, evito encarar a outra — ser realmente honesta — por medo de reviver o resto do passado que tentei esquecer, e perceber que todas as feridas somadas até então eram o princípio da tempestade.

Eu não estou pronta para a chuva.

#equilíbrio, #faah, #slide

Ter depressão é um misto de ‘altos voos e quedas livres’. 

22 de setembro de 2018

Eu não venci a depressão. Aprendi a conviver com outra estranha em mim, como se eu passasse a caminhar carregando um outro ser alojado em algum lugar em meu estômago. A jornada é uma luta diária. 

A depressão está aqui dentro de mim, mas não sou ela. É uma coisa a parte passando uma temporada em meu interior, um inquilino que não consigo expulsar. Eu posso não vê-la, mas sinto-a me observar de longe, vasculhar minhas memórias, remexer em meus baús de fragilidades. Não há como se esconder. Ela está em todos os lugares, até nos detalhes – naquele sorriso sem brilho, no olhar distante, no silêncio prolongado, na angústia, no tremor das mãos, no revirar do estômago. Se me perguntarem quando ela chegou, não saberei responder. Quando percebi, o monstro silencioso já estava em mim. É traiçoeira. Seus grandes olhos tudo capta. Ela me conhece, infelizmente, porque me costura, me remenda todos os dias – sua linha é a amargura. Ela ri do meu desespero. E é na solidão, na ausência de ruídos, que mais nos tornamos conscientes de sua existência, porque a depressão se torna imensa. 

É no silêncio que a ela – a depressão – sussurra. 

Eu tento rir o mais alto que posso, aumento o volume da música, grito até não ter mais voz, abro todas as janelas de casa – qualquer caos sonoro é melhor que sua calmaria de palavras. No dias em que estou mais vulnerável, saio da cama com receio de falhar. Eu conheço a sensação de flutuar sobre os dias ou cair de montanhas. Ter depressão é um misto de ‘altos voos e quedas livres’.

Foto autoral retirada com iPhone 8 Plus e processada no VSCO.

Mascaro o máximo que posso. Limpo a casa, passo maquiagem sobre as marcas da depressão, programo sorrisos e respostas – tudo minimamente calculado. Por sorte, fazemos parte de uma sociedade líquida. Não temos tempo para olhar nos olhos do outro, investigar as emoções, usar uma pá para alcançar o âmago da vida. Estamos com pressa. Sobrevivemos os dias. Então, eu apenas passo e ninguém nota. 

São constantes dias de luta, e confesso que nem sempre eu venço.

Há noites em que a insônia me faz companhia. A depressão precisa me manter acordada revivendo dores, sentimentos de culpa, até cansar meu corpo ao máximo. A ansiedade é uma convidada, e juntas, elas rodopiam os cômodos da casa e me seguem para todos os lugares. Não há água suficiente capaz de retirar o ontem dos meus cabelos. Não consigo desatar esse nó. 

Nem sempre consigo gritar. O fato é que a depressão se incumbiu de vedar cada ponte que eu usava para me conectar com o mundo exterior. Ela me quer presa dentro de mim, sem uso, sob uma camada densa de poeira. Eu envelheço como um móvel quebrado que insistimos em manter em casa não por ser necessário, mas pelo mísero laço familiar que nos une. Eu entendi: é no isolamento que ela se faz mais forte; na ausência do amor, somos derrotados. 

Por um tempo, estive perambulando pela vida como uma sonâmbula. Meus olhos não percebiam as nuances no rosto, no corpo, nos tons de voz, na diminuição do repertório de palavras. É triste, eu sei. Fui adormecida pela dor para não enxergar todos os sinais que estava perdendo a autonomia da minha própria vida. Quando despertei, já era tarde. Eu havia sido invadida.  

“E por que não pediu ajuda?”, questionam. Nem sempre conseguimos romper a densidade violenta da depressão com gritos de socorro.

Eu já nem sei mais quantas vezes rasguei meu peito e cavei até as vísceras para me resgatar. Tudo dentro de mim é um labirinto sem fim. Eu jamais encontrei a saída. 

Vocês já sentiram a força de uma onda quebrando contra o seu corpo? Sabe essa sensação de leveza e vulnerabilidade, que em algum momento seu corpo pode ser arrebatado pela turbulência das águas? Isso é o resultado do esvaziamento. Eu tento preencher os espaços vazios; engolir o infinito para ver se a dor desaparece. 

Eu achava que não sentir nada era melhor que ser atingida por todos os lados. Eu estava errada. Permanecer anestesiada é como chegar atrasada nas grandes festividades de sua própria vida. É ficar do lado de fora e apenas ouvir a mistura de sons, ver os cômodos iluminados e centenas de estranhos ocupando sua casa. Estar do lado de fora, me fez questionar se sou suficiente, se mereço ser amada. E levei um tempo – um tempo sombrio – para compreender que se tratava de um dos tantos efeitos da depressão: manter uma distância segura do amor e, principalmente, de si mesma, era a maneira mais rápida de deteriorar sua alma.  

Mesmo sendo esperta, eu não a venci. Convivemos. Há dias em que desmorono. No entanto, ao me agarrar em qualquer pedaço de estrutura, percebo que não sou esse inseto. 

Eu não sei como ainda estou de pé. Ora olho tudo de cima, ora apenas vejo o mundo sobre minha cabeça. O fato é: mesmo chegando atrasada na estação da vida, não é o fim. Nunca foi. Enquanto o trem não volta para a minha estação, escolhi sentar no chão, abrir todas as malas e remexer nas dores. Encará-las têm causado certo alívio e abalo, tudo na mesma proporção.

Essa espera me transformou em alguém mais paciente. Afinal, o tempo é essa substância incontrolável – e não se tem muito a fazer sobre isso. Alguns levam uma vida inteira para se desfazer de tanta tralha emocional desnecessária. Como desconheço o final, aproveito o agora. Esse é o começo da minha felicidade.  É na tragédia que, também, temos a oportunidade de descobrir nossa força.

Quando sinto que estou prestes a ruir, respiro. Sim. Apenas respiro. O que mais posso fazer além de permitir a vida entrar e preencher meus pulmões e depois me esvaziar até retomar o ciclo? É vida entrando e dor saindo, simples assim. 

Eu não estou sozinha. Sempre terei minha alma como companhia. Carrego dentro de mim tantas outras que sou. Sou imensa. Estou cheia. Não sou minhas dores. Posso está quebrada, mas nos remendos me refaço, mudo, me enlaço. Através das minhas rachaduras a vida continua a brilhar. 

Eu V-I-V-O!