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SUAVIZANDO MUNDOS

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Completamente nua, com o corpo ainda molhado do banho demorado, usado como instrumento de afastamento das dores carnais, tanto assim quase que sentimentais sem necessidade de abrigo… Assim, deitada sobre a cama desfeita, entre os lençóis que recusara trocar desde a partida do seu ente amado, vasculhando com os olhos o teto do seu quarto, o único céu que a absolvia, engolindo-a de uma única vez, transportando-a para uma imensidão acinzentada com gosto de poeira. Perdida entre o concreto da certeza e as paredes que aprisionavam seu corpo, mas ainda permitiam a liberdade sublime da sua alma. Nesse monólogo sem palavras, reduzido ao som da respiração, dos seios que se erguiam e caíam como loucos suicidas, derradeiros, infames, medrosos, que se jogam em mares revoltosos, ali ela prosseguia seu ritual íntimo de remodelagem das suas mágoas, arrumando-as, etiquetando-as por datas, separando-as por peso: uma nova civilização de amarguras que não desciam por sua garganta seca, levemente congestionada pelas palavras que não disse, pelas declarações que não arriscou declamar. Um corpo perfeitamente enciumado e revoltado pela fraqueza da alma, pela não prática da vida, destinado ao pó viril de uma existência altamente esquecida. Assim como um testamento em branco, ela se fazia virgem diante a pena que não mais escrevia sonetos nostálgicos em tua carne, atualmente sombria pelas marcas sintetizadas desde a sua face até seu âmago de saudade.

Suavizando mundos… – repetia a si mesma como uma oração a um santo desconhecido, responsável pela cura das almas desprendidas dos corpos, afastadas do poviléu sentimento que concerne o mundo em “às” sortidos.

Suas mãos tentavam prender a gota de esperança que escorria das fotografias, ao passo que seu corpo mergulhava ainda mais nas profundezas do incerto, ligeiramente duvidoso, de um voo que não tem fim, de uma queda para lugar algum, nem dentro, nem fora, nem norte, nem sul. Destarte, um suposto suicídio aguardando o crepúsculo perfeito dos olhos que ainda observavam o intacto céu do seu quarto, misturando com o néctar dos beijos guardados em lembranças que teimam em ser chegada quando deveriam ser apenas partidas, porque lembranças possuem carga valorativa e advém de uma alma um dia felizarda, hoje, desprovida. O peso da embriaguez dos apaixonados lhe traçavam o rosto delicado daquela menina que não chorava, somente morria; mortes tão violentas que na remota ideia do suicídio pareceu brotar no canto dos lábios um beijo escondido – o beijo certo para a morte incerta, atrasada, demorada, quase tardia. Tecia formosura nas costas das mãos que ainda acariciavam a face ruborizada ante a despedida do sol – ousado esse que não sumia –, materializando seus tormentos em fulguras comemorativas que caminhavam entre os polos norte e sul do seu coração, como garimpeiros, escravos e viajantes, algumas vezes caixeiros ofertando pedaços que não lhe cabiam mais as vivências.

No júbilo asseverado pela corrente ainda presa em seu corpo, recontorcia na tentativa de ser livre, virar vento e apenas fugir – e que fuga perfeita seria… E ao fim do dia, no ápice do crepúsculo, moça que antes estava caída, sumiu em um sopro do prelúdio noturno, se desfazendo em feitiçaria de coração poeta que ousa correr do mundo para guardar em si as promessas que se tornaram alimento de alma que se emancipou do corpo aprisionado. E ali prosseguiu sua luta pela libertação dos grilhões que mantinham presas as suas asas de borboletas, desenhadas em papel de seda com a ponta do lápis da saudade.

 

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Faah Bastos
Resido na casa de Escorpião, 29 fucking anos. Eu não tenho um blog. Eu escrevo em um cafofo virtual. Selfie é uma forma de contar as rugas – eu amo! Escrevo aqui porque ficar calada nunca foi meu forte.
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