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A linha azul desbotada.

2 de janeiro de 2019

E num dia, um abismo brilhante se abriu diante dos seus olhos. E as mãos que deveriam segurar as suas agora se enfiam em caminhos desconhecidos.

Você olha para o palhaço na parede — a única parcela de cores vibrantes em meio ao quarto branco. Os lençóis foram banhados por ondas amareladas do sol que nos atinge através da janela aberta. Ele não tinha medo de ser visto. Mas você sim.

Fita o sorriso macabro cheio de dentes e decide se esconder em algum lugar escuro e solitário, mas não consegue se mover. Está paralisada. Não tem consciência total de sua imobilidade, mas sente medo. Um medo angustiante que faz sua garganta se fechar. Tudo é silêncio dentro de você, então tenta se concentrar em sua respiração baixa e pesada. Você quer sair, não é o seu lugar. Para onde foram todos? Por que te deixaram aqui sozinha? Você é pequena demais. Nova demais. Inocente demais. Eles não acreditariam, você ouve. Eles não acreditariam. É nosso segredo. Mas você odeia segredos. Todos eles. E percebe que odiar também não ajuda, mas canaliza o bolo de sensações para uma única direção. 

Está escuro aqui dentro. La fora não é mais seguro. Mentiram para você. Então você se encolhe — é uma massa indecifrável de dor e angústia. 

Isso não acaba nunca.

Não olhe para o palhaço. 

Feche os olhos.

Você está sozinha aqui dentro. Ninguém te encontrará: nenhuma mão, nenhuma voz, nenhum outro cheiro, nenhuma respiração… Aqueles olhos enxergam apenas seu exterior. Estamos seguras aqui. 

A partir de agora o mundo será apenas um teatro. Finja ser forte. 

Tudo bem. Eu assumo daqui. Você é frágil demais para esse mundo. Tem coração. Sorria mesmo sangrando. Eu sou a única pessoa que entende você, porque eu sou você mesmo distante — uma pintura manchada. 

Você odeia os domingos e eu sou a única que compreende. Eu estava lá com você. Sempre. Todos os domingos. 

O som do relógio de madeira na sala avisa que está perto de acabar. O palhaço ri da marca que deixaram em você. Borracha alguma apagará, mas você só saberá disse no futuro. Por enquanto, feche os olhos. Não emita um só som. Mostre que algo dentro de você acaba de morrer. 

[Ninguém nota]

As paredes giram. 

Não. Não giram. É você ficando tonta. Está machucada. Está despedaçada. O som da televisão na sala te puxa de volta da queda. Mas você quer cair. Você prefere cair a voltar. Quedas: sua nova realidade.

Mas você não quis isso!

Uma linha azul desponta de sua camisa preferida. Você puxa a linha como se tentasse descosturar sua vida do mundo. Mas só abre um buraco. E tudo o que você consegue pensar é que não adiantou evitar os estranhos, nunca atravessar a rua sem soltar a mão dos mais velhos, olhar embaixo da cama — os monstros têm nome e conhecem você.

A linha azul desbotada é apenas uma desculpa. Você ainda não sabe disso.

De agora em diante, os abismos não te darão mais medo. Você já conheceu o inferno várias vezes. Não foi a noite que trouxe consigo os fantasmas. Eles sempre estiveram vagando na frente de todos. Eles sorriem. E quando você se jogar no chão aos berros não querendo visitá-los, não te entenderão. A mão que deveria te proteger do sol e costurar a linha azul é a mesma que te espanca em repressão. Você se morderá, dessa forma já estará machucada. Podem tirar seus domingos, puxar sua fita de proteção, mas quando voltarem a invadir sua casa não encontrarão nada no lugar, você já estará uma bagunça. 

Eles são monstros. Você se sente assim também. 

“Deixe. Eu assumo daqui”, mas você já tinha desistido muito tempo antes. Você ainda não sabe, mas eu nasci da sua dor. Fui forjada no ódio, na raiva reprimida, em todos os gritos que eles nunca entenderam. Eu sou o NÃO que você não sabia como dizer e nem se podia. Eu sou a parte podre que vai insistir em te empurrar todos os dias. Você me odiará, mas precisará de mim. Eu mantenho você viva, ainda resistindo. 

A linha azul desbotada agora sou eu — o trincar de dentes, as unhas afundando contra a pele, as dores absurdas de cabeça, a angústia instalada na garganta, o suor frio, a voz que nunca te deixa esquecer ou relaxar. Eu sou os olhos que te observam, o espectro que caminha ao seu lado todos os dias. 

Você não me manda embora com medo que eu descosture sua vida. Tem medo de ficar sozinha e enfrentar o mundo sem minha fúria. Você não sabe quem é bom ou inimigo.

Não há castelos, nem muralhas, nem armadura suficiente para te proteger. Seu corpo é seu império. Eu te ensinei a marcar suas fronteiras. Sem mais invasões. Repleta de esquecimentos. 

Não olhe. O palhaço ainda sorri. 

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