A Resposta Merecida

Semana passada, resolvi escrever um post comentando um pouco sobre meu gosto musical, decidi separar em dois posts (nacional e internacional) para não ficar extenso. Hoje, enquanto respondia alguns e-mails, recebi uma crítica de uma (intitulada por ela mesma) leitora. Antes de escrever este post procurei a autora do e-mail preocupada em debater melhor seu ponto de vista, entretanto, recusas foram lançadas como se eu não tivesse o direito de argumentar em minha defesa, visto que seu pensamento estava completamente equivocado. Contudo, sinto-me no direito de preservar o nome, mas, claro, publicar o e-mail na íntegra sem corrigir absolutamente nada.

“Vi uma amiga comentando sobre seu post no twitter sobre bandas de rock. Como gosto bastante deo estilo musical fui ler. Fiquei bem decepcionada por não ver nenhuma mulher sendo citada. Me perguntei se você realmente entendia de música porque se entende acho que não. Existe muitas bandas compostas só por mulheres que mereciam estar na sua lista hierarquizada.

Me espanta uma pessoa que eu achava tão eloquente ser uma machista embutida e processada cuja função seja apenas de vender a imagem da mulher que defende os direitos das mulheres enquanto ouve bandas machistas como Iron Maiden.

Caso você não saiba isso não é ser feminista.

Atenciosamente,

Sua ex-leitora.”

Ah, o e-mail acima lembrou-me com detalhes as mesas de debates na faculdade de Direito – cansativas, abarrotadas de pessoas que não sabiam defender seu ponto de vista sem atacar o outro; um vislumbre do que ocorreu recentemente nas eleições presidenciais. Devo confessar que me senti um tanto atacada por ver minha opinião sendo remontada visando dar base para um discurso tão extremista. Quando se pratica a certeza absoluta em uma defensa, todo o sentido e imparcialidade são perdidos. Não deveria, portanto, me preocupar em dar uma resposta respeitosa, e no entanto, vi-me procurando a pessoa para esclarecer o que, obviamente, estava bem distorcido. Como já mencionado, tive minhas tentativas recusadas sob a alegação “nada do que você pode dizer mudará a verdade”, e fiquei questionando o que seria A VERDADE para uma pessoa que não se deu ao trabalho de fazer uma pequena e rápida pesquisa sobre meu respeito antes mesmo de me atacar. Deixando de lado o que é verdade ou como a mesma muda de acordo com o ponto de vista, quero me ater sobre ao que está exposto no e-mail transcrito acima.

O primeiro ponto a ser refutado está na fala de compreensão por parte de minha crítica leitora. Eu não escrevi sobre bandas de rock. O post mencionado como ponto de explosão trata-se da parte I de II de uma série sobre “o meu gosto musical”. Não ter mencionado nenhuma artista mulher não está relacionado ao meu suposto machismo mascarado pelo feminismo “vendido” ou até mesmo porque desconheço bandas e cantoras que influenciaram a música. Posso citar milhares delas, como: Clara Nunes, Aretha Franklin, Adele, Caroline King, Janis Joplin, entre outras. E quem me segue nas redes sociais lembrará que volta e meia posto um vídeo com alguma música delas que me acerta em cheio. No entanto, não fiz questão alguma de mencioná-las porque não achei correto ocupar um item com um artista que não tenho “completa” afinidade. Se ouvi todas as músicas de Janis Joplin? Nem passei perto. Se conheço todas de Clara Nunes? Cheguei mais perto. E se seguir a mesma lógica apresentada, nem sequer deveria chegar perto de alguns nomes, já que boa parte fala da dor de não ter o homem amado ao lado… Mas aí é outra parte dessa loucura toda.

Eu queria entender o que a leva pensar que não ocupar meu iTunes com nomes femininos me furta o direito de ser mulher ou desmerece meu feminismo. Porque confesso não entender qual a lógica usada. Se a mesma ou quem mais, pensa que resido no mundo apenas para defender posições binárias ou extremistas, está muito errado ao meu respeito.

Imaginem, meus caros leitores, se essa tal crítica entrar em minha casa e vasculhar minhas estantes de livros, com certeza, me condenará a forca por supervalorizar a literatura escrita por homens. Eu serei condenada! Cabeça irá rolar!

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É evidente que ela jamais se deu conta que não separo as pessoas por gêneros, tampouco uso o sexo como requisito de eliminação. Atenho-me apenas ao talento, a escrita que me toca de alguma forma, a música que envolve meus sentimentos. Porque ainda levando em consideração a abordagem crítica recebida, sou praticamente vista como uma oprimida pelo regime patriarcal, uma coitada iludida que fora cega pelo sistema dominado por homens, cuja maior fantasia da minha vida é acreditar que sou feminista quando tenho gostos pessoais produzidos por homens. Sendo assim, não posso ter um vilão preferido, somente e só se for mulher. Da mesma forma que torcer por um time de futebol, assistir UFC deve me tornar ainda menos mulher e mais ainda uma partidária masculina, correto? Então, o que essa mesma pessoa deve pensar das mulheres que se vestem com roupas que, segundo a moda, são destinadas a ala masculina? Elas estão desmerecendo a si mesmas como mulheres para se tornarem o objeto de crítica – os homens?

Não vivo para ter meus gostos definidos unilateralmente, como se apenas existisse duas correntes em todo o mundo “aqueles que são machistas” e “aquelas feministas”. Não vejo o mundo com olhos de quem separa tudo em dois gêneros bem definidos e adeus. E acredito que a raiz de todo o problema é querer sempre ver os gêneros antes dos talentos, das opiniões e relevâncias. É reduzir o indivíduo a seleção natural.

Para apimentar ainda mais toda essa discursão, devo ser mesmo uma machista produzida pelo sistema, porque AMO dormir com meu marido e não abro mão disso – provavelmente, um escândalo para a sociedade.

Contudo, em nenhum momento disse que o machismo não existe. Existe sim e o desprezo. Ele permeia quase todas as relações sociais e políticas de nossa sociedade, mas há uma imensa disparidade no que a minha crítica escreveu e o que ela queria supostamente defender. Entretanto, não estou aqui para criticar “o que ela quis dizer”, e sim o que está bem claro em seu e-mail. Somos parcialmente culpados por aquilo que o outro entende sobre nossos pontos de vistas, porque é de nossa responsabilidade apresentar as ideias da forma mais clara e objetiva possível – o que obviamente ela não o fez. Fui atacada, comparada a um peito de frango desfiado e “embutido” apenas porque não mencionei uma mulher em minha lista pessoal de artistas. Como também tive todo o meu árduo trabalho de conscientizar as pessoas ao meu redor sobre as falcatruas machistas, somente porque não me enquadro no estereótipo de o que vem a ser uma feminista de verdade. Surpreendentemente, fui a vítima e o carrasco ao mesmo tempo.

Discursos como os do e-mail golpeiam tragicamente a base do movimento feminista. Porque ao pensar que somos “mulheres x homens” estamos aplicando a mesma arma do dito “inimigo”. Eu acredito em um movimento feminista voltado aos direitos iguais, o respeito na equidade salarial (E quero abrir um parêntese bem aqui para voltar ao ponto já mencionado – caso não tenha ficado claro –, pois se levar em consideração a lógica apresentada que é uma vergonha eu ter preferência por artistas masculinos quando me julgo feminina, essa mesma pessoa, conquistando algum poder, deve então defender que homens passariam a ganhar menos por serem homens, correto?), nas mídias, nas propagandas, na forma como somos abordadas tanto pelos meios de comunicação quanto nas ruas…

Algumas pessoas repetem discursos medíocres e incompletos de terceiros, sem ter o mínimo de cuidado. É o resultado de uma esfera de repetidores de opiniões e não formadores.

Termino por aqui com um pensamento bastante curioso que me acertou pela manhã ao terminar de ler o tal e-mail:

Nem sempre a visão que temos de UM TODO engloba O TUDO.

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Faah Bastos
Resido na casa de Escorpião, 29 fucking anos. Eu não tenho um blog. Eu escrevo em um cafofo virtual. Selfie é uma forma de contar as rugas – eu amo! Escrevo aqui porque ficar calada nunca foi meu forte.
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2 comentários em “A Resposta Merecida

  1. Nossa, véi.
    Faah, acho que você me conhece bem. Até porque eu sou sua pestinha de opiniões fortes, certo? Eu admito que nunca me aproximei do feminismo por pessoas do tipo essa garota aí, sua ex-leitora. Não sei, acho que vou deixar tudo o que eu penso meio que solto por aqui. Só espero que não entenda mal, pelo contrário. Se tem alguém que respeito MUITO e admiro mesmo com opiniões diferentes da minha, sem dúvidas é você. E aliás, que respeita demais quem pensa diferente. Eu costumo pensar que ás vezes o verdadeiro feminismo foi deturpado. Não sei se posso afirmar isso já que não o conheço bem, é apenas um pensamento particular que nunca falei em voz alta. É que… eu vejo pessoas pregando igualdade, mas as mesmas pessoas afirmam: “eu não quero me igualar ao meu opressor” e acabam mostrando algo completamente diferente do que defendem. É aquela coisa de supremacia, de mulheres dominando tudo porque um macho não é mais necessário. Poxa, eu acho isso surreal! Novamente eu digo, eu sou leiga no que falo, não me interprete mal. Estou só deixando fluir o que eu penso aqui. Claro que eu falando isso para pessoas como essa sua ex-leitora, eu seria chamada (aliás, já fui) de oprimida pelo patriarcado, machista, reacionária, coxinha, e etc, etc, etc. Mas ás vezes elas vivem como se morassem num país árabe, com leis muçulmanas, em que a mulher não pode nem olhar direito no rosto de alguém, não pode trabalhar ou assistir um jogo de futebol. Ainda temos MUITO o que mudar, mas eu fico vendo que hoje temos mulheres na presidência tanto do país como num time de futebol ou numa empresa grande como Petrobras, mulheres na política (que aliás os dados disseram que esse ano diminuíram, mas eu penso “poxa, não é o fato delas se desinteressarem com isso também?), mulheres nas escolas (uma professor gostosa e tatuada como você é uma sedução), nos hospitais, nas lojas, ruas, em todos os lugares. Não estamos cem por cento, isso eu admito. Sempre haverá um preconceito ou uma ideia que “não somos capazes” em alguma pessoa, e ás vezes até mulheres pensam isso! Mas vamos caminhando em frente, porque se tem uma raça PUTAMENTE FORTE é a nossa, viu? E tenho dito. E você é uma prova disso. É alguém que eu sinto admiração e orgulho de ser mulher.
    Eu lamento muito por essa menina aí que está perdendo a chance de ler coisas incríveis nesse blog. Lamento o pensamento fechado de alguém que “deseja se livrar” de um mundo desigual por ser dominado por homens tornando-se “igual” se dominado apenas por mulheres. Deveríamos conviver em harmonia, não? No fundo, todo mundo perde nessa terrível mania de fazer luta, seja luta de classes, gêneros, e por aí vai. Adorei sua resposta, Faah. Beijos!

    1. Há muito a se lutar pela presença igualitária da mulher em todos os setores, isso é um fato. Estamos em pleno século 21 e ainda lutando contra o ranço do século anterior. Temos muito sim a conquistar. Eu acredito na luta feminista sim, sou partidária, entretanto, não vou praticar o extremismo em minha vida porque não há lógica, não irá me representar. Quero sim ver mulheres sendo respeitadas e não acusadas de terem provocado a violência sexual, social… Quero leis que respeitem a mulher como membro integrante da sociedade e não unicamente como uma parte que é sustentada pelo homem. Fazemos parte diretamente da economia tanto contribuindo, servindo ou consumindo. Apenas acho que alegar que sou machista porque meu gosto musical não representa um movimento que defendo, sendo que o mesmo não se resume minha vida, é um tanto idiota.
      Eu não quero ser classificada como A ou B, sou apenas uma pessoa com opiniões que não está no mundo querendo dividir o mar ao meio. Eu pratico a comunhão e igualdade, e claro, acima de tudo o respeito, mas julgar e condenar alguém sem nem ao menos lhe dar o direito de explicação é abusivo, autoritário e são pontos que jamais serei tolerante.
      Como sempre, amo seus comentários.

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