Análise do Id, o Ego e o Superego de Freud presentes no filme Us (Nós).

AS PROTAGONISTAS

 

O ano é 1986, Estados Unidos. Uma criança está assistindo uma propaganda na televisão chamada “Mãos dadas pela América” — uma corrente de seis mil quilômetros de pessoas consideradas bons samaritanos, de mãos dadas através de campos, pelas montanhas, “de um mar a outro” (Us, 2018).

Os pais levam a filha de cinco anos para um parque de diversão. Nos primeiros minutos do filme, há indícios de distanciamento entre os pais da protagonista. É perceptível que há problemas no casamento: não andam de mãos dadas, mantêm uma distância desconfortante entre eles, suas falas sempre são pronunciadas de maneiras inóspitas e impacientes. Em dado momento, quando estão numa barraca de tiro ao alvo, o pai diz “acho que perdi a chance de ser um profissional”, o que nos leva a considerar um sinal de frustração, de metas não realizadas – o que também pode ser motor para a permanência do estado de conflito entre o casal. As cenas que se seguem enfatizam que a criança é um elo frágil da obrigação parental. E os primeiros sinais das consequências dessa família disfuncional pode ser identificado no silêncio prolongado da criança, no olhar perdido, no tom de voz baixo e cauteloso, na forma como anda – um item que excede o espaço dos pais. Não há total acolhimento dessa criança no cenário familiar.

A suposta ausência por parte do pai é apresentada por meio da acusação da mãe, que o responsabiliza pelos indícios da personalidade mais introspectiva da filha. As acusações seguem até uma próxima barraca, onde a mãe deixa sob a responsabilidade do pai a filha, enquanto se dirige ao banheiro. Quando ocorre essa distância relativa entre os pais, a criança se desliga completamente deles e passa a caminhar pelo parque, como sendo induzida a seguir pequenos sinais, até aquele momento não importantes – que futuramente se tornarão pontos referenciais na construção da personalidade de uma das protagonistas.

A protagonista caminha pela praia até um brinquedo mais distante “O labirinto de Espelhos”, apresentado sob o lema “Jornada da descoberta. Encontre a si mesmo”.

“Aqui, a terra e a água, ele dividiu em lugares de onde a vida pudesse surgir. As montanhas e os vales e as águas estavam onde deviam estar. Então, Sotuknang foi até Taiowa e disse: ‘Eu quero que ver o que fiz. E eu fiz bem!’ E Taiowa olhou e disse: ‘É muito bom, mas você ainda não terminou. Agora deve criar vida de todos os tipos e desenvolvê-las de acordo com meu plano.’ Então ele foi para um espaço infinito e juntou substância para criar sua ajudante, a Mulher Aranha. ‘Olhe para você, Mulher Aranha’, disse Sotuknang. ‘Aqui, agora, é um espaço infinito, mas no mundo, não há movimento alegre. O mundo precisa…’ (Us, 2018)

Ao deparar-se com os espelhos, cada um em formato diferente, percebemos a gama de possibilidades que a protagonista do mundo superior tem de ver a si mesma, como se a depender da teoria, de sua natureza, do seu objeto de estudo, essa personalidade poderá ser construída de forma diferente com um resultado distinto de outras. É um ponto indispensável de associação com a ideia das teorias da personalidade terem abordagens que se diferem.

Sob o labirinto há toda uma sociedade de cópias, sombras dos indivíduos do mundo superior. Essas cópias não possuem mecanismos reguladores, conceitos de moralidade, ética, valores. Foram criados por meio de um experimento laboratorial – encontram-se em seu estado mais primitivo. Nesta análise, consideramos os sujeitos do mundo inferior como representantes das pulsões, dos instintos.

Há uma escada rolante que somente desce, jamais sobe. Podemos interpretar essa arbitrariedade do movimento como uma forma de impedir que as pulsões saiam da esfera do inconsciente. A própria escada representa o pré-consciente. Quando a criança do submundo rompe a primeira barreira do pré-consciente, ela se deslumbra com o desconhecido, com aquilo que apenas lhe chegava como uma representação da outra realidade, de um outro mundo. Esse romper não é um ato impulsional, mas um meio pelo qual a pulsão deve passar para alcançar sua meta: a realização de sua libido, o prazer, que neste caso é sair do mundo inferior.

O momento que ambas se encaram é a pulsão que domina o ego, principalmente porque a protagonista do mundo superior encontrava-se no estágio inicial, sua personalidade, sua moralidade, as convenções sociais, as sanções ainda estavam sendo construídas e aplicadas. E devemos lembrar aqui que a relação parental era conflitante, com indícios de negligência e isolamento infantil. Então, tem-se uma criança fragilizada por um processo inicial de construção das relações que nos torna indivíduos, sujeitos autônomos; e que se depara com uma pulsão movida pela (i) agressividade – inerente ao indivíduo – e a (ii) necessidade de romper o status quo primitivo.

“O id não tolera aumentos de energia, que são experienciados como estados de tensão desconfortáveis. Consequentemente, quando o nível de tensão do organismo aumenta, como resultado ou de estimulação externa ou de excitações internamente produzidas, o id funciona de maneira a descarregar a tensão imediatamente e a fazer o organismo voltar a um nível de energia confortavelmente constante e baixo. Esse princípio da redução de tensão pelo qual o id opera é chamado de princípio do prazer.” (HALL, LINDZEY E CAMPBELL)

Em relação ao filme, verifica-se esse aumento de energia a ponto de criar estados de tensão quando as garotas se encontram no labirinto de espelhos e uma toma o lugar da outra: o reflexo entre o id e o ego são rompidos, estilhaçados, e o prazer passa a ser a constante busca do id, a satisfação de poder dominar o espaço do ego através dessa troca, metaforicamente, de lugar. Esse rompimento é movido pela pulsão, que nesse caso age como o agente impulsionador da mudança e externalização da agressividade. Há, por parte do ego, certa passividade, uma vez que a protagonista encontra-se na fase infantil, ou seja, seu superego ainda está em construção, assim como as matrizes de sustentação do ego. Por se tratar de uma fase substancialmente importante, a infância é o condutor de evidentes traços da personalidade, isso está relacionado com os estágios cruciais que foram desenvolvidos por Freud futuramente. Essa ruptura dos aspectos normativos e centralizados da construção de identidade e pluralidade relacional, assim como também as esferas da personalidade, produz na protagonista efeitos agressivos, traumas, desvio de conduta, confusão e mecanismos de defesa. É preciso lembrar aqui que o id opera através de dois comandos: as ações reflexas, que possuem como característica central serem imediatistas e simples, automáticas; e, os processos primários que, por sua vez, são mais complexos por se tratarem de reações psicológicas responsáveis por construir a imagem do objeto capaz de reduzir a tensão (HALL, LINDZEY e CAMPBELL). Quando as protagonistas se encaram é o plano primário cuja finalidade está no id ter a formação da sua idealização do desejo. Agora a pulsão tem um objeto específico, que considera ser capaz de reduzir a tensão. Destaca-se aqui que essa realização do desejo é a única realidade de fato conhecida pelo id. Em contrapartida, o processo primário não consegue alcançar sozinho a realização dessa redução de energia; faz- se, então, processos secundários para alcançar o objetivo final.

É a partir desses processos secundários que o ego passa a ser construído, moldado. Assim, é possível inferir que quando a troca de mundos é realizada pelas protagonistas, há o início de uma adaptação da realização do desejo ao novo aspecto de realidade, que antes era conhecido apenas pela protagonista Adelaide e não a sua Sombra. Fica a cargo da pulsão se mascarar, agora presente no mundo exterior, para que possa permanecer em constante estado de satisfação, a libido sendo atingida e saciada. Adaptar-se é uma forma necessária, o que também nos leva a considerar um ato de mascarar a verdadeira razão da pulsão – sentido, motivação –, uma vez que encontra-se num mundo que não a pertencia anteriormente. Essa suposta adaptação aos olhos das demais personagens é vista como traumática, quando para a Sombra – representante do id – é um processo de transição e reconhecimento de outras realidades além da realização do desejo. A Sombra passa, dessa forma, a construir uma diferenciação entre o processo primário e o secundário por meio da soma de informações internas (já conhecidas) e as externas (descobertas através de um processo gradual e sistemático). Durante esse processo, percebe-se o chamado teste de realidade, por ser um plano de formular ações que exprimem satisfação para que haja assim a redução das tensões presentes no id até que a libido seja alcançada.

Como a Sombra é transferida para o mundo externo já com determinada idade, alguns estágios freudianos foram negligenciados, logo, ela parte de uma premissa já incompleta, o que favorece disfunções nas construções da cognição e do intelecto, uma vez que ambas partiram de experiências, a priori, semelhantes, mas distintas na forma como foram executadas, em quais ambientes e pela supervisão de outros indivíduos, neste caso, o controle parental consciente. Não é improvável que possamos concluir que se os processos anteriores sofreram modificações drásticas em seus funcionamentos, por mais que o ego esteja sendo construído à medida de novas interações com o mundo exterior pela Sombra, esses processos mentais superiores não atingirão seu propósito normal danificando o serviço do processo secundário, isto é, sempre haverá um alcance tardio e uma lacuna nas fases de construção da personalidade do sujeito.

“Afirmamos que o ego é o executivo da personalidade porque ele controla o acesso à ação, seleciona as características do ambiente às quais irá responder e decide que instintos serão satisfeitos e de que maneira. Ao realizar essas funções executivas imensamente importantes, o ego precisa tentar integrar as demandas muitas vezes conflitantes do id, do superego e do mundo externo. Essa não é uma tarefa fácil e em geral coloca grande tensão sobre o ego.” (HALL, LINDZEY E CAMPBELL)

Então vejamos, se a Sombra conhecia apenas as pulsões como realidade, passou a ter contato com o mundo externo já em idade avançada, tendo uma construção de ego tardia e de um superego que, até determinado ponto não é possível detectá-lo devido a ausência de mecanismos normatizadores e reguladores e suas instâncias do indivíduo; é possível afirmar que essa integração de comandar as demandas de energias necessárias para as realizações dos desejos, da construção eficaz da realidade, da adaptação ao mundo externo sem olvidar as associações mnemônicas com o submundo, trará traumas e marcas profundas nas formas como a Sombra, agora então no posto de Adelaide, construirá sua visão tanto Biossocial quanto Biofísica (ALLPORT apud HALL, LINDZEY E CAMPBELL).

Em contrapartida, verifica-se: o ego é o setor organizado do id – parte esta bem desenvolvida na Sombra – e “todo o seu poder deriva do id” (HALL, LINDZEY e CAMPBELL), leva-nos a conclusão que a Sombra procurará adaptar-se da melhor maneira possível ao novo mundo, aqui considerado real, para que as exigências pulsionais continuem sendo satisfeitas à medida que aprende e adequa-se ao mundo circundante.

Convenhamos então, como Freud afirma, que os objetivos de assegurar a vida do indivíduo e reproduzir estão dentro dessas adaptações, o que de fato ocorre ao longo do filme. A Sombra cria um relacionamento amoroso com outra pessoa e juntos têm dois filhos. Atenção aqui para um ponto de extrema importância: uma vez que a Sombra tenha passado por um processo traumático de mudança entre os mundos (que podemos considerar ambos reais, de acordo com o ponto de vista de cada personagem), somado às lacunas dos estágios freudianos, é bem provável que essas falhas na construção da personalidade da Sombra acabem sendo repassadas para seus filhos através do seu histórico conturbado e tardio desenvolvimento das estruturas e dinâmica da personalidade. Uma vez que o processo de introjeção da Sombra fora quase nulo até o momento da mudança entre os mundos, essa ausência tende a ser transmitida aos seus filhos. Não houve, por assim considerar, uma relação parental anterior para essa Sombra, que proporcionasse instrumentos de construção dos dois subsistemas do superego: a consciência e o ideal do ego — sendo o primeiro como o reservatório de todo comportamento que é considerado impróprio e recebe sanções dos pais ou representantes que ocupem esse papel, moldando o sujeito para que possa agir em conformidade com os padrões morais permitidos pela sociedade; e, o segundo, um aglomerado de aprovações, também oriundas das relações parentais, movido por recompensas e reconhecimento de tudo que consideram correto.

O pai (Gabe), companheiro da Sombra no mundo externo, entra como mediador desse desequilíbrio. Sua presença é fundamental para que haja uma construção dessas relações com os filhos mais próximas possíveis das exigências sociais subentendidas. O que, em determinadas situações, não são suficientes. Segue como exemplo o apego do filho mais novo a máscara, que a princípio nos parece ou irracional ou inocente, na verdade é uma representação simbólica de um laço mais forte com o id, a construção da personalidade desse indivíduo ainda está em fase inicial, ou seja, torna-o mais passivo às pulsões e dos próprios instintos.

Mas antes de aprofundarmos nas questões acerca as pulsões e instintos, é de fundamental importância destacar uma síntese conceitual de cada uma delas, para evitar confusões cometidas ainda por algumas traduções. Enquanto as pulsões, segundo o professor/psicólogo clínico/psicanalista José Antônio Pereira da Silva, reside numa fronteira entre o biológico e a linguagem; o instinto, por sua vez, é mais orgânico, neural, hormonal.

“O instinto é definido como uma representação psicológica inata de uma fonte somática interna de excitação. A representação psicológica é chamada de desejo, e a excitação corporal da qual se origina é chamada de necessidade. (…) O desejo age como um motivo para o comportamento. (…) Por isso, os instintos são considerados os fatores propulsores da personalidade. Eles não só impulsionam o comportamento, mas também determinam a direção que o comportamento tomará.” (HAAL, LINDZEY E CAMPBELL).

Logo, é possível afirmar que a protagonista Sombra motivada pelo desejo de autopreservação e eliminação de sua, segundo ela, rival, produz uma necessidade de proteção, respondida através da agressividade. Dessa forma, a Sombra é mais suscetível ao estímulo de proteger a posição conquistada naquela nova realidade construída a partir da mudança de lugares entre as duas mulheres, enquanto a Adelaide, antes pertencente ao mundo externo e trocada na casa dos espelhos, tem como motivação recuperar seu lugar anterior de controle eliminando a Sombra, a impostora, que neste caso é o objeto que satisfará a pulsão. “Sempre podemos fugir de um estímulo externo, mas é impossível fugir de uma necessidade.” (HALL, LINDZEY E CAMPBELL).

O ego é capaz de distinguir as coisas da mente das coisas do mundo externo, o que justifica a atitude obsessiva da protagonista ao ser trancafiada no submundo, e passa a construir sua realidade dentro de uma única fonte de satisfação: voltar para o mundo exterior.

Como a protagonista Adelaide fica aprisionada no submundo, seu objeto torna-se inalcançável imediatamente. Dessa forma, mesmo que a meta e a fonte continuem constantes e focadas, Adelaide encontra formas de construir novas pontes de acesso ao seu objeto inicial, e durante esse processo constrói uma sub-sociedade regida por um único propósito: elevar-se ao nível superior, sair do mundo das sombras e repetições, e viver de forma autônoma. Contudo, vale uma ressalva neste ponto: Adelaide é a única que conhece as duas realidades e as simbologias e linguagens de cada mundo. Logo, não se espera que as demais Sombras tenham consciência de seus atos, pois, fica claro em várias cenas que eles são unicamente movidos por pulsões, instintos, repetições e comandos básicos. O que nos leva ao próximo ponto: Adelaide e sua Sombra são as únicas que conseguem se comunicar através da língua, mesmo que uma delas tenha determinada dificuldade de manter um uso mais adequado da língua, uma vez que a maior parte de sua existência foi deslocada para uma realidade distorcida, onde existia linguagem, mas não um sistema de símbolos fonéticos capazes de produzir significante e significados.

A existência das duas protagonistas ao mesmo tempo, não havendo a anulação de uma ou outra, mesmo estando em dimensões distintas exemplifica uma característica fundamental dos sistemas que operam a personalidade: “raramente um sistema opera com a exclusão dos outros dois” (HALL, LINDZEY E CAMPBELL).

Quando a personagem Adelaide mata a sua Sombra, ela sorri histericamente após emitir sons guturais. Esse sorriso de completa satisfação que se inicia após a certeza que não haveria mais a “outra”, ou seja, o objeto havia sido alcançado, o desejo desaparece assim como a necessidade, para dar lugar ao caráter regressivo da meta de um instinto, neste caso, consideramos o termo pulsão. Outro momento que isso ocorre é no final, o sujeito retorna ao estado de tranquilidade/repouso.

A FAMÍLIA

Adelaide e sua Sombra jamais perdem a conexão, pois assim como o inconsciente e o consciente operam em conjunto, não há como evitar o surgimento das pulsões. É claro que as pulsões podem se mascarar para atingir o nível do consciente, no entanto, mesmo com essa mudança de estágio e camuflagem, sua natureza não deixa de ser pulsional.

“Eu quero ir embora. Quando estou aqui parece que há uma nuvem negra sobre mim. Eu não me sinto eu mesma. Durante toda a minha vida, senti como se ela ainda viesse atrás de mim. Sabe quando as coisas se alinham?” (Us, 2018)

Essa conexão direta tanto com o id em consonância com os traumas vivenciados quando estava no mundo inferior, originou emoções e sentimentos em Adelaide que foram transferidos para as relações com seus filhos, marido e amigos. Segundo Freud, ele considera a Transferência um fenômeno, observado nos primórdios da psicanálise, cujo propósito é transportar o passado para o presente: padrões de relacionamentos antigos, sentimentos e emoções primitivas, traumas (…), teríamos a tendência a repeti-los, de se tornar justamente padrões de relacionamentos pela vida a fora.

Quando ampliamos as observações construídas acerca a personagem Adelaide e sua Sombra, alcançamos as personagens secundárias do filme. O primeiro destaque está no filho mais novo, Jason, que devido sua idade, encontra-se nos estágios freudianos inicias, está mais conectado com seu id, suas pulsões. Existe uma relação entre certo e errado ainda muito frágil, sendo construída à medida que desenvolve novas relações e soma experiências. Por isso, há uma evidente conexão maior entre Adelaide e Jason, já que ambos sentem suas pulsões. Em contrapartida, apenas Adelaide tem consciência da existência dessa força pulsional que no filme é caracterizada como Sombra.

Nos estágios iniciais de apresentação da família e a dinâmica que a cerca, percebe-se que Jason mantém um relacionamento repetitivo e compulsivo com um isqueiro que, segundo ele, em algum momento se transformará em mágica. Para Jason não há um propósito real para aquele ato repetitivo e mecânico, ele apenas executa a tarefa como se estivesse numa prática compulsiva sem finalidade predeterminada.

Ainda focando na intrínseca relação entre mãe e filho, Adelaide entra em desespero quando Jason se afasta por alguns instantes, quando a família está na praia em companhia de amigos. Automaticamente, a reação de Adelaide é exacerbada e imediatista, pois aciona a parte mnemônica do que aconteceu com ela anos atrás, e por Jason ter todas as características supracitadas, ele é o mais passivo de ser dominado pelo id, a sua Sombra.

Outro ponto interessante sobre a personagem Jason é seu uso contínuo de uma máscara sobre a cabeça. Raramente ele a usa, mas a porta como parte de sua constituição. Lembremos que a personalidade deriva-se da palavra persona, que significa máscara. Neste caso, podemos considerar a máscara não um objeto qualquer, mas uma ponte que conecta o ego de Jason ou seu id.

“— Seu irmão é tão estranho.
— Ele só tem problemas para se concentrar.” (Us, 2018)

Quando a família de Adelaide busca ajuda na casa de seus vizinhos e os encontram mortos, Jason agarra um objeto de decoração para usar como arma e abaixa a máscara — instinto de defesa e preservação. A mudança é visual e explícita.

 AS MÁSCARAS DAS PULSÕES

Sabemos que o inconsciente não encontra-se num estado de dormência. As forças que ocupam o inconsciente – pulsões, instintos – estão em constante luta para se tornarem conscientes e terem a libido satisfeita. Mas para que isso seja possível, como explicamos anteriormente, as pulsões se mascaram para conseguir transpor do inconsciente para o consciente. Não é raro que essa máscara se torne um disfarce do material inconsciente com a finalidade de enganar o seu portador, ou não chegará ao nível consciente. Dessa forma, a pulsão assume a forma oposta do sentimento original, quase sempre de maneira exagerada e exibicionista, o que Freud considera como formação reativa.

Um exemplo dessa formação reativa encontra-se na personagem amiga de Adelaide, que num dado momento durante um fim de tarde na praia de Santa Cruz, ela faz um comentário sobre seu pequeno procedimento estético, e em seguida vira-se para Adelaide elogiando que para ela isso é totalmente dispensável. A princípio, pode ser um elogio, mas os demais sinais, como o olhar, tom de voz, tensão corporal, deixam claro a inveja que verbera da personagem em relação a outra. Essa teoria se confirma na cena na casa desses amigos, quando Adelaide é presa à beirada da cama, e a Sombra da sua amiga começa a se maquiar (repetindo o excesso de futilidade presente na personagem), e há um momento que ela investe a tesoura contra Adelaide, quase cortando o seu rosto, mas não consegue e começa a cortar a si mesma. A pulsão rompeu os estágios da mente, se disfarçando de outra emoção: a inveja é disfarçada como admiração forçada e dissimulada.

A teoria que se segue é que essa família é a única, aparentemente, a sobreviver porque Adelaide reconhece suas pulsões, tem plena consciência da existência do seu id e os instintos armazenados, sabe o real motivo das sombras estarem ali. Eles estão conectados de todas as formas, porque eles são “nós”, não “outros”.

“Como deve ter sido bom crescer podendo ver o céu. Sentir o sol, o vento, as árvores. Mas sua gente não dá valor. Também somos humanos, sabia? Olhos, dentes, mãos, sangue. Assim como vocês. E ainda assim foram os humanos que construíram esse lugar. Creio que descobriram como fazer uma cópia do corpo, mas não da alma. A alma continua uma, dividida por dois. Eles criaram os Amarrados para controlar os que vivem em cima, como marionetes. Mas eles falharam e abandonam os Amarrados. Por gerações, eles seguiram sem direção (anomia). Todos enlouqueceram aqui. E então, só havia nós. Lembra? Nós nascemos especiais. Deus reuniu nós duas naquela noite. Nunca parei de pensar em você. Como as coisas teriam sido. Como podia ter me levado com você. Anos após termos nos conhecido… o milagre aconteceu. Foi quando eu vi Deus, e ele me mostrou meu caminho. Você também sentiu. Ao final da nossa dança, os Amarrados viram que eu era diferente. Que eu os tiraria desse sofrimento. Encontrei minha fé e comecei a me preparar. Levei anos para planejar. Tudo tinha que ser perfeito. Eu não tinha que só te matar. Precisava deixar uma mensagem para o mundo todo ver. É nossa hora agora. Nossa hora de viver lá em cima. E pensar que se não fosse por você eu nunca teria dançado.” (Us, 2018)

CONCLUSÃO

Do ponto de vista de vista psicológico, o filme “Nós” (Us) proporcionou a experiência de aproximar de uma realidade distorcida do paciente, distanciar do que considera-se verdade, e interpretar os símbolos narrativos desses personagens, considerando-os reais. Detalhes apresentados através da fala, dos olhares, de determinados gestos, nos leva a entender o quanto o profissional de psicologia precisa ser observador e considerar o sujeito como um todo, não somente uma parte. Caso tivéssemos cometido esse erro de reduzir o paciente a mera descrição de uma sensação, seria impossível evidenciar o conflito existente entre as pulsões, a agressividade, o desejo de preservação, a camuflagem do material inconsciente.

Outro ponto de suma importância encontra-se na contemporaneidade das teorias freudianas, e como sua teoria de estrutura da personalidade – id, ego e superego – são fundamentais para compreender dualidades do paciente, aflições, neuroses e origens de alguns mecanismos de defesa. Considerar que ações atípicas são meras casualidades é negar todo o trabalho genial de Sigmund Freud.

 

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Faah Bastos
trintona, escritora nas horas tortas, estudante de Psicologia, professora e louca por bichos!🌟
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