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Aquele breve resumo sobre nós

25 de outubro de 2014

(O texto abaixo faz parte do meu novo romance.)

Com o tempo, percebi que boa parte de minhas memórias rodeavam as tardes no velho casebre. Como Daniel passava a maior parte da noite escrevendo enquanto eu assistia filmes ou lia, criávamos uma linha de separação – mesmo invisível a respeitávamos. Eu não andava pela casa como uma distração, tampouco pronunciava seu nome em sussurros. Respeitávamos os espaços e de alguma forma não nos ofendíamos quando precisávamos nos separar para voltarmos a ser mais úteis em nossas atividades. Quase não tomávamos café juntos, exceto quando o trabalho era estendido até as primeiras horas de sol, então nos acomodávamos e comíamos trocando poucas palavras – ainda estávamos anestesiados pela pausa amorosa. Os dedos de Daniel tremiam devido a atividade constante durante a madrugada, enquanto eu estava cansada e sonolenta pela leitura, pesada de pensamentos.

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Mas eram durante as tardes que regressávamos para a essência do motivo de estarmos juntos: sabíamos nos amar. O sexo era uma montanha. Eu adorava tê-lo sobre mim e sentir os fiapos macios do tapete felpudo que compramos na primeira semana juntos, em contato com as minhas costas. Minhas mãos sempre corriam livres por toda a extensão do tecido, outrora agarrava com fúria antes de algum orgasmo. Naquele pequeno pedaço éramos irremediavelmente felizes. De todas as memórias que cultivo, as tardes são as mais nítidas. Éramos literatura, puramente poesia. Recordo-me como se escrevesse um verso, eu deitada sobre o tapete, os braços espalhados sobre o corpo que ardia, o peito erguendo a cada arfada profunda, a boca seca rachada em alguns pontos, ainda dormente devido a força dos beijos. E ali, inebriada, satisfeita e nua, lançava meus olhos para os pés dele caminhando sobre o piso de madeira, aos poucos seu corpo inteiro ia se enquadrando em meus olhos. Os tons de vermelho e laranja se misturavam pelo chão da casa, esticavam as mãos pelos móveis e iluminavam o corpo inteiro de Daniel. Como ele era lindo nu. As gotas de amarelo ouro se perdendo em seu pênis, o vermelho salpicando cor na densa barba preta que carregava no rosto, e o laranja contornando suas pernas, passando por toda a espinha até se unir gloriosamente com a escuridão daquele cabelo baço.

Daniel era majestosamente lindo, não como um modelo másculo e escultural – pelo contrário. Daniel era um resultado inexato de beleza, um conjunto inexplicável de diversos pontos que o transformava em uma figura completamente linda aos meus olhos. E eu estava satisfeita em senti-lo dentro de mim. Ele jamais soube, mas nunca gozei enquanto ele gozava, estava mais interessada em admirar como seu corpo reagia, seus olhos fechavam em sinal de vulnerabilidade, e naquele instante, ele passava a ter um calcanhar de Aquiles. Eu poderia atingi-lo com qualquer objeto ao nosso redor, até com os malditos porta-retratos que ele tanto amava, até um beijo inesperado em sua barriga o destruiria.

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Ele acreditava que fazíamos parte de um seleto grupo que não combinava com nada. Personagens de alguma obra jamais publicada, e aparentemente toda essa ideia de ineditismo o estimulava. Não o culpava. Era a sua forma de confessar que não passávamos de um casal comum querendo construir algo enquanto estávamos juntos.

Não alimentávamos fortes convicções sobre a vida. Entendíamos pouco sobre o Universo, suas galáxias e explosões de supernova. Estávamos mais interessados em viver sem muitas expectativas, quase uma fuga invisível para um além do mundo. Não falávamos sobre política, religião, direitos, fome, Constituição ou casamento. Éramos figuras incapazes de serem monopolizadas pelo sistema sócio-político-cultural – ou o que isso pudesse significar.

Com os dias somando meses, criamos uma porta que afastava o mundo de nosso casebre; permanecia trancada com receio que a mínima interferência nos causasse um profundo desequilíbrio amoroso.

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