#carta1: Foi bom te reencontrar.

aviso: Este texto pertence originalmente ao meu romance “As Borboletas Também Choram”.

Foto autoral. Câmera iPhone 8 Plus.

Eu não sinto que minha casa continua vazia. Aos poucos, tenho preenchido os espaços revelados com novos conteúdos. A limpeza emocional abriu mais lugares, afastou alguns móveis, derrubou paredes, escancarou as janelas. Sinto como se a vida entrasse junto com o vento todas as tardes. 

Eu tenho uma nova cama — reforcei suas bases com boas lembranças, assim posso garantir noites tranquilas de sono. Há um diário em cada canto do meu quarto: registro todos os meus sentimentos; catalogo as emoções; faço planilhas; desenho mapas. Estou me sentindo uma desbravadora. Outra noite, aprendi a desenhar minhas próprias estrelas, já não ando caçando as constelações dos outros.  

Estou me arriscando a não trancar mais a porta. Só preciso me manter atenta para todo sentimento ou qualquer pessoa que resolva entrar ou sair. Não preciso mais de nenhuma chave para me esconder do mundo. Há muita vida em mim, embora eu ainda não tenha entendido todo o seu propósito. Acho que é isso o que eles chamam de processo. 

Estou tentando. Torça por mim para que eu seja capaz de expulsar os fantasmas que restaram. 

Ainda me sinto um recipiente, abrigando todas as emoções antes de peneirar e retirar apenas o que reforça a vida em mim. Não tem sido uma tarefa fácil. Se me descuido por algum instante, transbordo. Entretanto, já não me afogo mais com a mesma frequência de antes. Agora, eu luto. 

Hoje foi um bom dia. Eu venci uma parte dolorida em mim. Fui ver você. Acho que o mundo estava me aplaudindo, porque o sol se acalmou, o vento soprou tantos cheiros de flores, corais e mar, que quase me perdi no caminho. Confesso, eu não sabia se conseguiria chegar. É engraçado, não é? Parece que ao mergulhar descobri uma forma para me salvar. Mas não recomendo esse tipo de experiência para ninguém. Eu estava errada. Eu sempre estive. Eu não precisava enfrentar toda a dor sozinha; bastava eu olhar para o lado e me reconhecer no outro e já seria um começo. 

Sei que me atrasei, mas estava colocando ordem na casa. Remexer nas memórias pode causar desequilíbrios, e você bem sabe sobre as minhas quedas. Talvez até as nossas. Eu precisei de tempo para entender que você continua vivo através de mim. Eu quase estraguei tudo isso.

Eu espero que você tenha sentido o fim de tarde, junto comigo. Até as árvores se calaram para te ouvir chegar. Desconfio que você veio entre um raio de sol e outro que banhava a grama. Eu senti você como jamais havia sentido antes. Você estava em todos os lugares, principalmente em mim. Arrisco-me a dizer que seu coração bateu dentro do meu.

Sentada sobre a grama, me permiti relaxar na proteção de sua sombra. Pela primeira vez, observei o mar de longe e de cima. Foi lindo ver as ondas tão brilhantes. Eu senti você segurar a minha mão toda vez que uma nova onda se formava poderosa. Eu não estava mais lá me afogando. Eu não sentia mais medo. Hoje eu entendi que a escuridão não tirou você de mim. 

Obrigada por esperar eu encontrar o caminho de casa. Foi bom sentir o cheiro do lar, reconhecer os móveis e abraçar a vida. Mas também você descobriu minha saudade e os estragos que ela fez. Peço perdão, em algum momento eu fracassei. 

É bom saber que essa história não acaba quando alguém se vai. Os que ficaram têm a responsabilidade de conduzir a vida; embora não tenha se tornado mais fácil, eu fiquei mais forte. 

Eu evitei esse reencontro. Tinha medo de você não me reconhecer por baixo de tantas feridas. Eu sei, foi apenas covardia. Você sempre me acharia, não importa as circunstâncias, o tempo, os acúmulos de saudade. Afinal, você conhece todos os meus esconderijos. Eu sou um livro aberto para você. 

Eu sigo sentindo sua falta. Agora eu sei que isso não passará. 

Estou tentando. Me deseje sorte.

Continuarei escrevendo cartas, agora eu tenho o endereço certo. 

Com amor, …

P.S.: Foi muito bom te reencontrar, pai.

 

 

 

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Faah Bastos
trintona, escritora nas horas tortas, estudante de Psicologia, professora e louca por bichos!🌟
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