Às vésperas dos meus vinte e um anos, saí de casa.

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Às vésperas dos meus vinte e um anos, saí de casa.

(Não, meus caros, não irei relatar desgraças acumuladas com a intenção de ganhar piedade, muito pelo contrário. Tenham calma e leiam até o fim!)

Como eu dizia, às vésperas dos meus vinte e um anos, saí de casa. Sim, foi por mera escolha. Sim, foi após uma briga. Creio que os meus leitores mais fiéis devem saber que aos dezessete anos perdi o meu pai, meses depois descobri o que era a vida, assim ganhei experiência suficiente para criar “Sol em minha Noite”, mas não é sobre isso que quero escrever, é sobre como consegui andar, entre tropeços, quedas e arranhões, sem ter medo. Eu acreditava em sonhos, colecionava desejos – típico de uma garota naquela minha idade –, do outro lado, havia minha mãe, uma mulher mais firme, cheia de rachaduras da vida, crente que a vida de uma mulher era conseguir um bom partido, estudar, casar, ter um trabalho e depois cuidar das proles provenientes do matrimônio. Não foram poucos os momentos que tentei compreender como funcionava a sua mente, e o que a motivava a pensar de tal forma, mas fracassei. Fracassei porque, talvez, em minha adolescência não fui rebelde, não descumpri promessas, não saí da linha, e isso me causou um retardo de rebeldia, acumulando em meu sistema até aqueles meus vinte e um anos. Eu queria realizar sonhos, ela queria que eu planejasse futuros prováveis. Eu queria saltar pelas nuvens, ela ansiava por normalidade.

E por isso, brigávamos. Eram tórridas brigas, acaloradas pelas paixões distintas: eu defendia minhas paixões, ela as suas certezas. Habitávamos o mesmo espaço, e era minha responsabilidade manter a doçura em casa, mas como sempre ocorreu, eu era o oposto do que imaginavam – ou esperavam. Eu não podia viver podada, sendo regada diariamente e florescer apenas quando me fosse permitido. Eu queria ser um jardim, cultivar as mais variadas espécies de flores, colecionando fragrâncias. Eu precisava libertar as asas invisíveis tecidas com sonhos.

E parti! Parti porque precisava provar ao meu coração que podia viver de paixões, mesmo com as quedas, vertigens e decepções. Eu precisava me provar e provar do mundo. Parti me atrelando a certeza que era de liberdade que deveria viver. Algum tempo se passou, e quando finalmente tive em mãos o meu sonho literário, busquei-a para compartilhar da vitória, enfatizando que ali cabia um pedaço da nossa história, e simbolizava uma barreira (ou várias) vencidas. E do outro lado da linha, ela gargalhou. “Acha mesmo que se tornará escritora? Vai passar fome e nem lançará outro.” E eu jamais pensei que seria possível ter um coração quebrado pelo som sinfônico de uma gargalhada…

Hoje, eu a entendo. Era medo. Sim, era medo que ela sentia, a insegurança de me ver apostando as esperanças em um sonho, porque ela havia sonhado, planejado, tentado, e no fim, acumulou malas e malas de tentativas em sua mente, ao longo da vida. E como mãe, sentia medo que a sua filha sentisse a dor do fracasso a consumir. Naquele instante, não pensei assim, confesso que chorei, e tive as lágrimas enxugadas pelo meu marido, que, dono de uma positividade inacreditável, me deu o apoio necessário, hoje, tenho meu segundo romance. Mas agora, enquanto escrevo sobre as milhares de dores e sortes que me abateram ao longo dos meus vinte e seis anos, compreendo que aquela risada fora um pedido de “não tente, não sofra, não corra o risco”. Mas é de risco que a minha vida é feita. Muitos não entendem, se glorificam por suas vitórias opostas as minhas, e olham estranho quando digo que sou feliz com a parte antagônica. E foi ela, juntamente com a força e bravura do meu pai, quem me ensinou a tentar sem pensar se serei vista como diferente.

Às vésperas dos meus vinte e um anos, saí de casa. Nunca mais voltei. Hoje tenho o meu lar, e nele cabe a minha outra casa.

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Faah Bastos
Resido na casa de Escorpião, 29 fucking anos. Eu não tenho um blog. Eu escrevo em um cafofo virtual. Selfie é uma forma de contar as rugas – eu amo! Escrevo aqui porque ficar calada nunca foi meu forte.
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