Chuva de domingo.

tumblr_m0w22g263r1qbg05yo1_500

O dia amanheceu banhado por um sol quente e revigorante, após longos dias de intensa chuva, cobrindo as calçadas de lama, a procissão de guarda-chuvas coloridos – alguns quebrados, outros compartilhados –, xingamentos dos transeuntes para os motoristas egoístas que não paravam ao ver um aglomerado tentando atravessar a rua. Eis que assim, quando menos esperava, o sol se expandiu nesse céu de domingo, fez as flores gracejarem com os toques quentes, os vestidos finos e soltos a brincar com o vento pelas ruas, crianças correndo pelas calçadas munidas de bolas coloridas, boné protegendo a cabeça dos anciões, o som estridente de uma música popular ecoando de um carro estacionado perto de um bar… É domingo aqui na Bahia, e faz sol.

Mas o tempo, meu bom amigo, anda similar ao meu coração, faz sol, faz chuva, e assim, como quem não espera o fim do verão, nuvens carregadas se empilham no céu, cobrem boa parte do meu sol (ele era meu, acredite), e traz de volta a chuva cinza, esvaziando as ruas, apressando os passos e calando o mundo. Ouço apenas o som sinfônico das gotas de água moribundas e infelizes a bater no vidro das janelas, escorregando pelas paredes recém-pintadas da minha nova casa. Noto uma infiltração em um dos cômodos e amaldiçoou essa solidão molhada. É domingo aqui na Bahia, e chove.

Eu posso encontrar as minhas próprias lágrimas recolhidas e tardias em cada gota de chuva que banha a rua. É como ver a minha coleção de dores se transformar em choro de nuvem. Eu tenho medo de morrer em dia de chuva, meu grande amigo. Medo de morrer sozinha, olhando uma goteira insistente no canto da sala, o ar frio que ousa quebrar as barreiras da janela e rodopiar para dentro da minha casa, escorregar pelas prateleiras abarrotadas de livros, sacudir as páginas do meu Baudelaire. A chuva me pratica, e eu pratico a solidão. Outrora já implorei por inquietações a viver na ausência de confusões sentimentais como as minhas poucas amigas. Mas eis que me sobra apenas o vazio, o silêncio, os efeitos naturais das desgraças, e nada mais. Talvez, um coração cheio de malas carregadas de memórias tristonhas, ou até felizes, e faltando coragem em mim para desbravar cada uma delas em dias como hoje, onde a chuva se lança do céu como anunciando a verdade que ouso esconder ou empilhar em cartas jamais enviadas: eu ando só. Só demais.

É domingo aqui na Bahia, meu doce amigo, e sou chuva em mim.

Gostou? Compartilhe!
Faah Bastos
trintona, escritora nas horas tortas, estudante de Psicologia, professora e louca por bichos!🌟
Post criado 163

2 comentários em “Chuva de domingo.

  1. Talvez todos nós sejamos um pouco como o domingo na Bahia. Após dias de chuva, de céu nublado, nos aparece o sol, clareando e esquentando tudo que já foi frio. E ás vezes, ao contrário… dias e dias de sol, até que de repente, a gente ouve pequenas gotas caindo e a chuva começa, deixando tudo escuro, frio, mas ás vezes, confortante. É muito melhor viver de sol e chuva, de luz e escuridão, do que não sentir nada e viver numa eterna inércia. Hoje chove em mim. Talvez, amanhã cedo, volte a fazer sol.

    1. Que belo, minha adorável!
      Você pegou o sentido da crônica, meus parabéns! É ótimo ler comentários, porém, melhor ainda quando há um encontro de entendimento entre o escritor e o leitor. Me senti tão feliz agora… Mais uma vez, obrigada.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.

De volta ao topo