Esses tais infernos astrais.

Ano passado, após publicar o meu primeiro romance e terminar de escrever o segundo (com o título provisório de “O Doce Veneno da Ambrósia”), acredito que me esbarrei (para não dizer que fui brutalmente atingida e machucada) por uma época de total reclusão literária.

A verdade é que os últimos meses têm sido diferentes, como sair de um coma prolongado, cheio de altos e baixos, e perguntar para aquele mais perto se já é primavera ou se o meu time favorito ganhou o campeonato. Tomei decisões importantes, fiz escolhas que me levaram para estradas diferentes, afinal, não se pode continuar aceitando migalhas quando, no mínimo, você acredita que merece uma refeição completa. Mudei de casa, e isso implica que mudei bastante! Revirar os papéis que por tantos anos prosseguiram trancafiados em gavetas empoeiradas, contas antigas, documentos espalhados, até fotos de épocas passadas, quando ainda tinha cachinhos e era conhecida por Difran. Essa disposição em remexer na herança colecionada em 26 anos de vida, despertou o meu lado mais cansado. Eu sempre acabo transbordando a taça. E entre todo esse circo de mudança, caixas com meu nome e memórias remexidas, entrei em uma crise existencial com altas doses de insegurança e complexo de inferioridade. Cheguei ao ponto de questionar o porquê de alguém ler meus textos, meus romances… Digam o que for, mas sou uma escritora que nunca se sentirá completa e pronta. Por mais que os meus romances passem por uma leitura crítica, uma análise profunda, sempre acho que algo pode mudar. E nas últimas semanas para cá, os sintomas ganharam proporções escandalosas, ao ponto de me afastar de quase todos que me procuram. Por um lado, me aproximei mais dos que me rodeiam, daqueles que deixam seus cheiros espalhados por minha casa, e em contrapartida, optei (mesmo sem ter total consciência do meu ato) pela distância de tantos outros. Ressalto, claro, que deparar-me com a felicidade tão pintada e a normalidade do resto do mundo, penso que sou, no mínimo, estranha.

Recentemente, me peguei elaborando um novo romance, mas acabei adiando essa tarefa. Há algo faltando dentro de mim, e por ainda não saber exatamente o que venha a ser, prefiro não exigir demais de mim mesma, não obrigar minha mente a bater na porta da casa do coração e exigir que bata cartão. Não funciono assim, e tenho pena dos escritores que se submetem a tal tratamento. Eu gosto de alforria. Respeito as minhas confusões, e se o silêncio é o único que deseja reinar em minhas linhas, que continuem vazias, e não maquiadas. Eu vivo rodeada por um mercado literário nada justo e bem desrespeitoso, mundos de escritores usando do spam para divulgar um amor incondicional por páginas escritas, combatendo os sentimentos com a quantidade de livros que andam vendendo. É para esse mesmo mercado que mostrei o dedo rebelde (aquele que sua mãe um dia disse que ficaria duro para sempre), porque não estou disposta a trabalhar pela literatura, e sim para respirá-la quando achar que a mereço. É tanta opinião, competição, gente dando parecer sem ser chamado, outros bem despreparados, que não me assusta entrar em colapso e mandar todos para a puta que os pariu!

Não estou dando escusas sobre as minhas ausências em tantos sentidos diferentes. Estou apenas saltando de uma justificativa para outra, enumerando-as por aqui para ver se eu mesma me convenço – nem todas me atraem. Costumo pensar que estou sendo somente estranha e distante, vivendo em um mundo com preguiça de mundo, sem querer saber a opinião do outro que deseja discutir sobre reality show, ou aquela sua amiga de longa data que lhe procura somente para compartilhar as depredações românticas do seu casamento. Não quero ser vista como egoísta ou falsa demais, e é exatamente por isso que me afasto! Eu sou um pouco! Eu tenho minhas ranhuras, no entanto não as compartilho, e por isso as escrevo dando outros nomes. Mas que pensem de mim, tenho que guardar um tanto de energia para me encontrar, afinal, me perco com uma facilidade que assusta, e ninguém escreve perdido.

Que fique claro! Bem claro! Não é uma aposentadoria dos meus sentimentos, é somente uma pausa, uma quebra da imagem que todos usam, porque nunca dancei o mesmo minueto do mundo, e sou feliz assim. Estou reinventando as minhas necessidades e limpando o meu novo caminho, sendo ousada muitas vezes, e bem “braba” tantas outras. Gosto dessa minha rebeldia com sabor de amor, satisfaz a minha alma inquieta.

Por fim, não se desesperem (se é que alguém sente minha falta!) quando perceberem que o tempo para mim não passou. Eu gosto dos retardos, do fim da festa, das ausências. Acima de tudo, eu me gosto, e por isso, muitas vezes, me preservo do mundo.

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Faah Bastos
Resido na casa de Escorpião, 29 fucking anos. Eu não tenho um blog. Eu escrevo em um cafofo virtual. Selfie é uma forma de contar as rugas – eu amo! Escrevo aqui porque ficar calada nunca foi meu forte.
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8 comentários em “Esses tais infernos astrais.

  1. Um texto assim dispensa muitos comentários. Não posso dizer que sei o que é isso tudo que disse, mas posso dizer que consigo imaginar e sentir uma fração, aquela que diz que algo tá errado, e que não sabemos o que é, ao menos é assim que me sinto as vezes.

    Grande abraço.

  2. Concordo com o comentário acima falando que o que escrevestes dispensa muitos comentários. E é a pura verdade. “Afinal, não se pode continuar aceitando migalhas quando, no mínimo, você acredita que merece uma refeição completa”. Admito que você passou (e está passando) por muita coisa que eu ainda não tenho capacidade de sentir, entretanto, também está recebendo bençãos da vida, e fico feliz por isso. Eu te desejo forças, minha linda Faah. Forças e mais forças. Eu sinto tua ausência, e sinto muita falta. Porém, respeito e concordo com o fato de você “se preservar do mundo” e fico feliz por se sentir bem assim. E eu estou aqui, linda, te esperando no fim da festa.
    Força, patroa!

    1. KKKK, adorei o “”força, patroa!”
      Pois é, acho que todas as pessoas que realmente se dão bastante durante o processo de criação de romances acaba entrando, ou fazendo uma breve visita, a esse dito “inferno astral”. Não acredito muito no termo anterior, mas é o que todo mundo usa, e por falta de um termo melhor, uso esse mesmo.
      Aos pouquinhos vou realinhando os meus planetas.
      Beijos.

  3. É, eu conheço esses desencontros… São tão profundos que me faltaram palavras… de longe tento de acompanhar e esperar.. calmamente, pois sei o que se tem guardado..

    Só quero que saiba que estarei aqui, sempre pronta.

    Mas confesso que senti uma ponta de tristeza que hoje se divide com a saudade.

  4. Preserve-se do mundo o quanto achar necessário, Faah. É infinitamente prazeroso saber que há pelo menos um(a) escritor(a) no mundo que escreve não somente por escrever livros e ganhar dinheiro com isso. Acho linda a forma com que você se entrega a você mesma.

    Continue sempre sendo você mesma. Isso faz seus leitores felizes.

    1. Eu costumo dizer que ando idosa demais para o mundo, e isso ajuda bastante na hora de me manter afastada daquilo que poderia me causar inquietações. Eu gosto de ser assim e não ando disposta a mudar. Não quero ser uma escritora que passa horas e horas em uma ou várias redes sociais enfiando o seu trabalho goela abaixo dos demais. Isso é quase uma agressão. Gosto do meu canto, dos poucos que tenho, das minhas palavras… Isso é reconfortante, ainda mais quando algumas pessoas nos compreendem. Talvez eles estejam certos, talvez eu seja idiota… Mas eu não quero fama, eu quero escrever para que alguém me leia, e isso eu já consegui. Sou realizada.

      Obrigada pelas palavras gentis.

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