Eu cheguei atrasada em todas as revoluções do mundo.

Eu tenho a sensação de sempre ter chegado atrasada nas estações, nos grandes momentos marcantes da vida, como se toda a minha mente juntamente com o meu corpo fizesse o caminho contrário do tempo marcado no calendário, nos livros de História. A data no artigo indica que eu estive na passeata revolucionária e inédita exigindo o afastamento de um presidente, talvez eu até conhecesse alguém que também tivesse marcado o rosto com tinta e gritasse com todas as suas forças que era preciso mudar. No entanto, não me lembro. Não me recordo com clareza que presenciei a Copa do Mundo na qual a seleção brasileira de futebol usou azul. Todas essas lembranças parecem distantes, como se fizessem parte de uma mente que não é minha, de um baú de reminiscências sem o meu nome. Eu estive lá, mas não me senti lá. Talvez eu ainda buscasse algodão doce nas nuvens, corresse pelas ruas da vizinhança munida de um estilingue e um saco com bolinhas de gude. No entanto, eu consigo me lembrar do gosto do caramelo, do quebra-queixo que sempre ganhava na padaria da esquina, quando ia comprar pão ao fim da tarde com a mão entrelaçada a mão da minha irmã. A sensação de ter alguém maior e mais velho me protegendo, o pequeno pavor de atravessar a rua ao cair do crepúsculo, olhando direto para os faróis dos carros, me apaixonando pelo fusca amarelo de alguém.

faahpequenaLembro-me da escola e suas carteiras duplas, de madeira, e o desejo de ter aquele garotinho loiro e sardento ao meu lado, mas ele nunca sentou. Faz muito tempo e o seu nome nem mais aparece em minha mente. Ou então das festas juninas, principalmente da última, usando aquele par de sapatos apertados, fazendo bolhas em meus pés, o vestido vermelho com botões brancos, costurado às pressas por minha mãe. “Estamos indo embora, Franca, por que ela deveria ir para essa festa?”, perguntava a minha mãe enquanto equilibrava um pote de agulhas em uma das mãos, forçando paciência para passar horas debruçada sobre a máquina de costura, dando vida ao meu pequeno desejo. É curioso, mas lembro com clareza do nome da minha primeira melhor amiga, Sara, não sei se era com H no final ou se tinha uma grafia diferente, mas da pronúncia lembro-me muito bem. Sara. Cabelos longos, ondulados e negros, bem diferente dos meus, eram encaracolados, nunca soube a minha verdadeira cor. Davam trabalho, isso é verdade, mas eram naturais, selvagens, como dizia painho. Ele gostava, acho que era o único que gostava. Eu usava short com suspensório e minha mãe odiava, mas com o tempo deixou de se importar, percebeu que havia algo de diferente em mim, mas achou que era apenas fase, uma fase pueril que deixaria de existir quando os peitinhos aparecessem. Bem, apareceram, mas a estranheza somente aumentou. É curioso, mas ao pensar nessa minha melhor amiga (amizade que durou apenas um ou dois anos) voltei ao passado, nos dias de aula – estudava pela tarde, meus pais achavam maldade me mandar tão cedo para as obrigações estudantis. Era um dia de verão ou só era um dia quente de sol. Houve um festival da piscina. Todos deveriam ir com roupa de banho, eu não gostava, achava íntimo demais ficar de maiô na frente dos meninos, mas eu creio que fiquei. Não era uma piscina, era só uma banheira instalada no pátio da escola, mas foi divertido. Estranho, achávamos aquilo a última maravilha do mundo.

Nesse tempo infantil a inflação era imensa, eu andava com notas de mil cruzeiros que não serviam para comprar bicicletas, mas me davam o direito de levar para casa aqueles chicletes absurdamente doces com dentes de vampiro. Eu os usava o dia inteiro. Só tirava sob decreto oficial dos meus pais, seguido de ameaças que ficaria sem a minha mamadeira. Verdade, tomei mamadeira até os meus sete anos, e só perdi essa mania porque fui, mais uma vez, obrigada. A perda da minha mamadeira surtiu a primeira decepção da minha vida, quando percebi que crescer significava, em amplo entendimento, perder as coisas boas da infância. Era ficar uma hora a mais na rua, poder usar batom, botinha da Xuxa e olhar para os meninos, mas na verdade, eu usava sandália do Seninha, aquelas que tinham luzes vermelhas no solado – eram demais! –, e ficava de cara fechada quando mainha fazia cachinhos em mim. Ela dizia que eu ficava linda, mas eu só queria era me sentir selvagem e sem aqueles puxões horríveis na cabeça.

Uma nova era se iniciava, dizia as pessoas que apresentavam o Jornal Nacional. Meu pai dava “boa noite” quando chegava ao fim, nunca obteve uma resposta, entretanto quando ele falava, por mais estranho que fosse, ninguém ria. Mainha ficava séria, aceitando que painho tinha poder e direito para fazer o que fazia. Quem sabe não era algum vestígio infantil que ainda surtia efeito sobre o patrono da nossa família? E enquanto as pessoas se reuniam nas calçadas das ruas, largadas em suas cadeiras de balanço ou poltronas reclináveis de baixo preço, discutiam sobre planos políticos e defendiam calorosamente a proposta do “levanta a mão” de algum presidente que se candidatava. Eu não sabia o que significava levantar a mão e dizer que teríamos direito a cinco necessidades, dentre elas saúde, educação, moradia e alimentação. Eu tinha todas elas, e quando parava ao lado do meu pai conversando com os vizinhos, não conseguia imaginar o mundo que eles julgavam existir, onde pessoas precisavam que políticos assumissem posições na televisão dizendo que dariam tudo aquilo que eu tinha. Eu achava, de certa forma, que todos deveriam ter comida, ir para a escola, ter saúde, não entendia que era preciso marcar em um papel o nome da pessoa que iria dar ao povo o que eu já tinha.

Dessas tardes lembro com mais nitidez dos afagos deliciosos da minha mãe, época em que ainda cabia em seu colo e ela acariciava minhas costas, cantava músicas infantis, enquanto os meus dedos pequenos corriam pelas madeixas lisas do seu cabelo, enrolava-os em meus dedos e cheirava-os, absorvendo o máximo que podia daquela calmaria. Era assim que eu tomava a última mamadeira do dia. Não importava se o país precisava de um novo presidente que eu não sabia para que servia, se no dia seguinte teria prova de ciências e eu precisava decorar quais eram as três partes em que o corpo se dividia: “cabeça, tronco e membros, tia!” Segunda, quarta, sexta, domingo, não importava o dia, todas as noites se iniciavam assim, depois da escola, das brincadeiras na rua, do pega-pega, das bolinhas de sabão tendo como canudo caule de mamão, das saladas de frutas que nunca participei (não naquela idade), das histórias de terror que só as crianças mais velhas contavam. Ah, eles sim eram corajosos! Aguentavam todas aquelas histórias, falavam de espíritos que vagavam pelas ruas do cemitério, e ainda voltavam para suas casas e dormiam. Eu? Eu não! Eu corria para casa segurando o choro, apertando meu estilingue e pensava “se um fantasma aparecer, vou usar minhas gudes”, na prática não tinha tanta confiança, e sempre acabava correndo para o segundo andar da nossa casa e me lançava ao peitoril da janela da sala ampla, e olhava com curiosidade para o cemitério ao longe, lá no alto de algum morro, acima do restante da cidade. Só descobri que naquele ponto era um cemitério porque alguém me contou, hoje não lembro quem, mas eu tinha medo. Minha imaginação corria pela casa, se lançava sobre as almofadas e deixava dormente os meus braços redondinhos de tanto tempo que eu passava largada na janela, criando figuras esbranquiçadas, puxando correntes, olhos profundos e gemidos estranhos. “Fantasmas não existem”, dizia minha mãe, “mas painho acredita neles”, eu retrucava, decidida a ir até o fim para provar a minha teoria que eram pessoas do além que viviam pela nossa casa, nos vultos escuros, nos borrões que se esbarraram com os meus olhos curiosos. “Seu pai acredita em espíritos, não em fantasmas”, devolvia mamãe, cortando alguma verdura sobre a bancada da cozinha. Eu não sabia a diferença, mas questionar não mudaria nada, eu nunca entenderia mesmo, pelo menos não com sete anos ou seis ou cinco, tanto faz.

São essas as minhas lembranças e tantos outros punhadinhos, momentos que não importam para a História do país, como quando recebi a minha primeira injeção grande. Eu estava em pânico! Todos da escola estavam no posto de saúde, a espera fora imensa, crianças, da mesma idade que eu, berravam, os mais valentões definharam na presença daquelas enfermeiras; tinha uma grandona, dessas bem gordas e com cara de poucas amizades. Meus colegas pareciam com imperadores sendo vencidos por uma legião de indignados. Eu enrolava um dos meus cachinhos, era a forma que tinha para aliviar a tensão. “Senta aqui, não vale chorar, não vai doer nada”, disse a enfermeira estranha. “Relaxe”, e eu apenas contraí o máximo que pude o meu braço direito. Ia doer, eu sabia. A agulha grande, o cheiro de hospital… A agulha entrou e tudo ao meu redor se desfez, as luzes explodiram violentamente e sentia que estava cega ou só fraca, mas não chorei. “Boa menina. Essa aguenta dor”, elogiou a diretora da escola, enquanto dava tapinhas em minhas costas e eu segurava um pedacinho de algodão no braço dolorido, danificado e violado. Até uma gotinha de sangue saiu e todos olhavam para aquele pedaço de algodão como se fosse um troféu, uma marca da minha força. “Essa aguenta dor” e parece que o mundo gostou de ouvir isso, pois selecionou as piores dores para a minha lista de futuras emoções. Bem, eles estavam certos, eu aguentei cada uma delas, é bem capaz, digo, que hoje eu tenha assumido uma graduação experimental no quesito dor, aprendi e até escrevo capítulos e mais capítulos desse meu prático manual sobre o sofrimento, mas isso é assunto para outro livro, texto ou páginas, vamos nos centralizar.

Colecionei assim as minhas marcas importantes, e por mais que os demais acusem que deveria ter prestado mais atenção nas evoluções científicas, nas mudanças políticas e climáticas, precisei recorrer aos livros de História, escritos por pessoas que nunca vi, uns nem sequer estiveram em nosso país na época dos acontecimentos, mas relataram com tanta falsa imparcialidade, para aprender o que eu não achava e nem acho importante sobre a História do mundo, da humanidade em si. Eu conheço a minha história, sou da época que as pessoas trocavam cartas e a internet era um monstro, uma sinal do fim dos tempos e a palavra globalização era assunto de prova. Hoje, estou inserida ainda nesse mundo que continua girando e mudando a cada piscar de olhos, e volto a colecionar os detalhes, os pedacinhos desinteressantes da minha vida, das emoções que me rodeiam, porque nenhum os grandes momentos do mundo foram meus. Eu gosto de acreditar que a primeira vez que andei de bicicleta sem as rodinhas foi a maior revolução da minha vida, sentir o vento bagunçar meus cachos, o barulho das continhas coloridas nas rodas, do meu pai gritando “sem as rodinhas, filha, sem as rodinhas!”

Eu cheguei atrasada em todas as revoluções do mundo, mas estive presente em cada revolução unicamente minha.

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Faah Bastos
trintona, escritora nas horas tortas, estudante de Psicologia, professora e louca por bichos!🌟
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9 comentários em “Eu cheguei atrasada em todas as revoluções do mundo.

  1. A essência da vida está nos detalhes… Os momentos marcantes sempre ficam despercebidos. As maiores revoluções da nossa vida, só nós sentimentos e comemoramos – ou sofremos. Chegamos atrasadas em todas as revoluções do mundo, mas, foi presente em cada revolução que ocorreu no em Nosso mundo, e isso é mais importante que qualquer coisa. O mundo continuará mudando, continuará passando por revoluções, entretanto, as mais marcantes são as Revoluções sentimentais, aquelas que acontecessem silenciosamente dentro da gente, ninguém percebe, ninguém vê, mas explodem como bombas atômicas dentro da gente. Posso dizer que me emocionei com essa crônica. Que lembrei de cada revolução que passei até agora, nos meus poucos quinze anos e imaginei as revoluções que sentirei futuramente. Só espero que em cada uma, eu consiga ouvir lá no fundo “Essa aguenta a dor”.
    Beijos, super Faah.

  2. É tão bom desligar-se do que tem a nossa volta, do que as pessoas chamam de importante, hoje o mundo exige tanto de nós, somos obrigados a nascer e estar preparados para o que há de vir, devemos ter 5 anos e saber que é perigoso ficar sozinho na rua não importa que hora, nos ensinam duramente o que é preciso valorizar e o que não é desde de pequeninos, nunca podemos entender as coisas simples, temos que saber que a vida é complicada desde sempre. Se ter 15 anos como eu tenho, em um mundo como hoje, e ter que entender a vida complexa como ela é nos confunde, e as vezes dói. Tento sempre me concentrar no que a de bom para poder viver, não existe revolução no mundo tão importante quanto a nossa vida.
    Beijoos Faah Bastos

    1. Um dos melhores comentários que li recentemente, sem dúvida. Gostei bastante da forma como posicionou o mundo de acordo com a sua perspectiva bem mais nova que a minha. É bom saber que há jovens pensando mais. Destaque para “não existe revolução no mundo tão importante quanto a nossa vida.”
      Obrigada pelo comentário e fico realmente contente por saber que tem visitado meu espaço.
      Abraços.

      1. A muito obrigada, fiquei feliz :). Certamente estou me tornando uma viciada em ler o seu site. Eu adoro poesias, e o modo como você escreve é tão intrigante, com palavras que nós fazem pensar, você não passa diretamente a ideia, como : ” A vida é isso, é aquilo . . . “, como uma poesia. Passa um sentimento tão forte, pelo menos pra mim. Só não lhe desejo sucesso, por que já chegou nele. 🙂

        1. Fico realmente contente ao saber que desperto tantas coisas boas. Está certa ao dizer que não sou direta, eu gosto das metáforas, de dar voltas poéticas suaves para desembarcar em uma ideia, acho que dessa forma até as dores são recebidas mais suavemente.
          Obrigada pelo comentário.
          Abraços. *-*

  3. Que crônica linda, céus! Seu filmemos passando na minha cabeça durante cada palavra que eu lia. Esteve certa você, Faah, guardando em si cada pedacinho de memória que você tem. De que importa o resto do mundo e suas revoluções quando se tem um mundo inteiro dentro de si, evoluindo um pouco mais a cada dia?

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