Minha Normalidade Diferenciada

487141_343791575718811_471994877_nEu criei um hábito, assim que saí de casa, de acordar mais cedo que o normal com a intenção de desfrutar do início da manhã, quando a maioria de nós ainda se espalha pela cama, se prendem aos últimos minutos de sonhos estranhos ou realizações de uma vida que somente existe em suas fracas mentes. Gosto da hora quando os chinelos gastos daqueles com mais de setenta anos se arrastam de uma ponta a outra de pequenas casas, equilibrando em suas mãos enrugadas e extenuadas da correria dos dias, uma xícara com café preto. O silêncio da casa incomum entre tantos condomínios e muros altos. O som delicioso e calmo dos pássaros que somente ecoam seus chiados e cantos quando a cidade permanece com suas ruas vazias – destaque para os calados, aqueles que não gostam da movimentação comum, das buzinas dos automóveis, das pessoas gritando uma com as outras, até mesmo através de aparelhos telefônicos. Eu aprecio esse silêncio denso, quebrado apenas pelo som do ventilador lutando para esfriar o ambiente, expulsar as ondas de calor que ultrapassam as paredes grossas da minha casa. Parece que o sol anda mais quente, no entanto, me acostumei. São nessas horas que costumo escrever, pensar sozinha sobre os meus sentimentos amontoados, criando pilhas de comiserações nem sempre compreendidas na correria do dia, quando o som da cidade completamente dispersa é mais alto do que o sussurrar em minha mente. Agora, quando todos ainda lutam para levantar, reavalio as minhas projeções e costumo, por mera deficiência, me afastar de tudo que me causa desgosto. Porém, nesse silêncio percebo que somente estico as tragédias, retirando as partes ásperas e enfiando dentro da minha corrente sanguínea as consequências e a péssima estima como verdade das dores aglutinadas. Soma-se aos meus desgostos frases ditas por baixo da nuvem densa de ar quente, do resultado de um raciocínio medíocre de alguma pessoa desprovida de tantos méritos invisíveis, de corações machucados por escolhas erradas. Tenho assim, reavaliado as minhas projeções – não astrais –, reorganizado minha cautelosa tabela de atividades futuras e passos necessários. De alguma forma, assim como o início tranquilo da manhã, tudo volta ao seu eixo, é preciso seguir a sequência natural da vida. Andar trilhando novas rotas e bater de frente com o costumeiro para a maioria é desgastante, quase insuficiente. Se houvesse algum poder em meus dedos, redesenharia as horas e prolongaria os momentos de silêncio, quando o mundo como desaprovo continuaria adormecido, e ganharia minhas somas de tempo de paz para desfrutar de tudo que há válido em mim.

Caminhar em passos aéreos é como viver em uma colônia de estranhos, mal vistos pelo resto da vida programada. Há críticas profundas sobre meu comportamento, “uma apaixonada por mentiras”, já disseram. Outros foram mais prolixos, “ela vive com a cabeça na lua, vai acabar não sendo ninguém”, mas eu sou alguém, apenas abri mão das obrigações terrenas que não acrescentam felicidade em meu peito, tampouco das relações sociais compartilhadas pelos motivos errados. Será que se todos acordassem antes do resto do mundo, do costumeiro, e em silêncio ficassem, teriam a mesma visão que alimento? Talvez os mais velhos, que compartilham das minhas ideias, acreditem em tal possibilidade.

Nem tudo são graças recebidas pela coragem de ser contrária. Na maioria das vezes, os tropeços “pelo tentar” machucam mais do que os xingamentos por ter, de fato, tentado. Questiono-me, quase que diariamente, sobre o papel real da nossa existência. Estamos apenas existindo? Um dia somando. Comprando ditaduras falsificadas, assumindo como veracidade projeções de um novo futuro, um novo ano, quando na verdade tudo é apenas a continuidade de um início, de um princípio? Será que são tão poucos os que acreditam que a mudança de um calendário em nada altera a nossa existência? É só o contar cronológico da vida. E se a vida em sua grandeza realmente for muito mais do que o somar do tempo? Os anos nada são em relação ao que deveríamos ser?

n2Eu sinto muito se divaguei, acho que tropecei em um pote de vidro abarrotado de questionamentos. Posso culpar o silêncio e a leveza da tranquilidade do início do dia? Os pequenos ruídos em meu quarto não são suficientes para me prender na órbita programada do mundo. Até mesmo o som baixo expelido pelos lábios rosados do meu marido não me transportam de volta para a rota da normalidade artificial, posso usar da minha audácia adquirida ao longo do tempo natural, que grande parte dessa minha facilidade em flutuar acima do provável deve-se a existência de um coração tão imenso que me acolhe. Talvez por ele, somente por ele, eu ainda teime a levar a vida um pouco nos trilhos do esperado, dando “bom dia” a um mundo que nem deveria ter acordado. Foi em uma manhã dessas quando o sol batia em uma das janelas de vidro e nos saudava, enquanto eu arrumava as xícaras sobre a mesa e o cheiro do café se espalhava pela casa (e que fique claro da minha devoção escandalosa por café forte, desses que amargam a ponta da língua depois do último gole), que meu marido me olhou como se eu fosse um espécime inédita, improvável, e a minha ausência de normalidade o atraía, como se ele apenas atendesse a um chamado. De alguma forma, ele traduziu perfeitamente que a minha capacidade de sofrer tormentas e colecioná-las visando transportá-las para as palavras, fosse como ter ao lado uma mágica, uma ilusionista de sensações. Orgulho-me, não nego, de ser assim tão afastada, como um sopro suave de algo desconhecido, um cheiro diferente, um farfalhar calmo em folhas de carvalho, ou a arrepiar um salgueiro quase triste.

A maioria das mentes não compreendem, quase sempre somam verdades mentirosas sobre essa forma estranha de levar a vida. Uns, posso dizer os menos desprovidos de raciocínio, lançam para baixo, como a largar um balde de opiniões em um penhasco, que todo esse teatro, essa forma de ser é apenas uma necessidade em ser meramente “metida”, como se fosse possível sentir-se especial só por gostar do silêncio, por querer questionar o que o mundo leva como verdade, padrão, base. Eu sou uma partícula de areia que saiu do programa-chave, não quero sorrir para os carnavais, as ruas amontoadas de pessoas pulando ao som frenético de letras que não entendem, mas somadas com o ritmo certo, levam multidões por horas. Não quero me vestir de branco para saudar o somatório de um ano em minha lista; branco é apenas branco. E se eu alegasse que o preto poderia servir como barreira? Estaria errada? Não quero reavaliar as minhas escolhas, meus erros, somente porque estamos deslizando como gado sem cabeça para a mesma repetição de todos os anos. Por que não posso avaliar meu punhado de notícias em manhãs assim? Por que ter tanto medo de conversar com nosso interior, com essa voz que dita as palavras que escrevo? O que há de errado em ser só o que acreditamos ser? Por que é necessário ser o que projetaram que deveria ser? E se sou apenas o que sinto? E se sentir é ser da forma mais sublime? E se o existir é um ser somente ser sem restrições ou determinações obrigacionais? E se os tais laços invisíveis que prendem a maioria de nós em pastos, mastigando informações, nos alimentando de promessas, repetindo atitudes e comprando mentiras enfeitadas, existirem apenas por que temos medo de ser o que deveríamos sentir no tempo certo de cada um?

Os carros já desapontam pela rua central. Posso ouvir o som dos instrumentos musicais que juntos formam músicas que somente afirmam o quanto levam a mediocridade a sério. Daqui a pouco as ruas ficarão lotadas de pessoas suadas e preocupadas com a roupa que vestirá nas festas de fim de ano, no tempo curto para fazer tudo e ainda correr para o salão. Pessoas passando por pessoas, segurando suas sacolas, sendo apenas apertadores de parafusos, galinhas sem cabeça, consumidores, pedestres, transeuntes, estudantes, futuros médicos, advogados, professores, faxineiros ou presidiários. Pessoas sendo o mínimo que podem ser: pessoas.

Eu vou arrumando meus pensamentos, recolocando-os em potinhos de vidro etiquetados, aguardando o próximo dia, ou a hora que um blecaute cairá sobre nós, e no silêncio, na ausência de luz ou sons exagerados, eu voltar a ser o que sou, sem precisar lutar para ser respeitada pela minha normalidade diferenciada.

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Faah Bastos
trintona, escritora nas horas tortas, estudante de Psicologia, professora e louca por bichos!🌟
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4 comentários em “Minha Normalidade Diferenciada

  1. Belíssima crônica. De repente vem aquela pergunta que sempre persiste em nossa mente. Por que estamos aqui? Estamos apenas existindo, ocupando lugar no espaço? Há algum motivo de força maior que nos faça permanecer aqui? Hoje em dia nos deparamos com pessoas iguais. Pessoas andando na mesma fila, tendo os mesmos pensamentos, os mesmos desejos. E isso, será que é vida? Ser comum, seguir o padrão? Desculpe-me, mas essa vida artificial nunca me interessou. Se o que nos diferencia dos outros animais é a racionalidade, o que nos diferencias de outros seres humanos? O desejo de ser diferente, talvez. A dificuldade de se encaixar nos padrões, o desejo de escapar dessa vida artificial e comum é o que nos move, pelo menos, é o que me move.
    Beijos, Faah.
    (E essas fotos estão uma coisa linda)

    1. Eu salpico pretensões, Vitória. Eu não me importo se há uma multidão como eu ou não. Eu gosto dessa minha estranheza e aversão ao coloquial. Sou impaciente quando o assunto é conhecer novas pessoas, discutir com tanto entusiasmo sobre possíveis verdades. Eu aprendi a me descobrir no silêncio, e tenho praticado arduamente essa qualidade.
      Obrigada pelo comentário, sempre construtivo e afirmando a certeza que tens uma ótima mente.

      Abraços.

  2. Eu, Faah, gosto do barulho. Sem querer discordar de você, muito pelo contrário, mas o silêncio muitas vezes me incomoda. Nele eu encontro me rondando todos os monstros que vivem na minha cabeça. No barulho eu posso ser eu mesma sem incomodar nem despertar ninguém.

    1. Você tem todo o direito de discordar, Flávia, com certeza. Eu acho muito válido e bacana da sua parte mostrar a sua opinião. Você está certíssima!

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