Deveríamos viver uma história de amor

Ela inclina a cabeça para o lado como se dessa forma pudesse ler melhor o título do livro sem precisar retirá-lo da prateleira. Desliza seus dedos com cuidado pelas capas duras, iniciando uma relação mais íntima com cada um. É o primeiro sinal de um caso de amor. Seus olhos não desviam, nem mesmo por um segundo, das prateleiras abarrotadas, dispensando a presença de todos ao seu redor, até mesmo de mim, escondido atrás de um balcão de mogno antigo, fingindo que estou preocupado com algo muito além das paredes desbotadas do sebo. Munido de uma camisa velha da banda Queen, um par de tênis gasto, talvez com algum rasgo cretino, uma barba sem fazer, e um cabelo revoltado sob um boné desbotado, antes preto, hoje cinza. Mas ainda bem aperfeiçoado, se você gostar de caras que lavam as próprias cuecas, não malham por mera preguiça, e passa os finais de semana lendo Javíer Marias, Alan Pauls e assistindo filmes europeus que não consegue indicar a ninguém.

E então ela sorri, não para mim, e sim para um livro em especial, o sortudo que fora agraciado com a liberdade ocasionada pelos dedos finos e exatos daquela criatura mítica. As páginas são passadas sem pressa, tampouco seguem um fluxo ordenado. Tenho a impressão de que ela lê algumas passagens, e o sorriso volta a brotar. Desconfio que cultiva milagres naqueles lábios, e arrisco declarar a existência de um desperdício desnecessário já que os direciona para páginas silenciosas. Ela poderia sorrir para mim, mas não encontro nenhum motivo digno para convencê-la.

Ela é meio que um tipo feérico de garota que te fará falar mesmo quando a ordem natural lhe ensinou a manter a boca fechada, mas quando se der conta disso será tarde demais, compartilhou metade dos seus pensamentos com ela. E assim que ela avisar que precisará ir, você planejará uma forma de conseguir o seu telefone para dar continuidade a conversa, falará sobre os seus discos velhos empilhados no canto do seu apartamento pequeno no fim de uma rua sem muito movimento, com uma única janela; trocará informações sobre livros, e irá compará-la com alguma heroína que arrancou grandes convicções literárias de sua vida; falará sobre os filmes em cartazes e tecerá críticas profundas sobre os gêneros e atuações de cada um deles –quem sabe até emendar um convite idiota sem outras intenções para curtir um dos clássicos do cinema dividindo uma pipoca de micro-ondas e refrigerante gelado.

O tipo de garota que você bate os olhos e pensa “lá vem encrenca”, e quase sempre ela estará certa sobre as suas próprias opiniões, sem precisar enumerar argumentos fortes para lhe convencer do contrário. O tipo de garota que mesmo errada lhe fará acreditar em suas loucuras, porque falará com certeza, com o coração – e todo o seu sentimentalismo exacerbado que os outros não gostam será a melhor parte que você encontrará nela.

Ela dançará descalça pelo meio da rua, enquanto você continuará com as mãos enfiadas nos bolsos da calça jeans, sustentando um sorriso controlado, porque a sua grande vontade será dançar junto com ela, e esquecer que o mundo ao redor tem obrigações a sua espera.

Irá te ligar às três da manhã só para falar que recebeu a sms de um ficante, e você ouvirá todo o seu monólogo esperando pacientemente a hora que dirá que ela deveria largá-lo de uma vez e compreender que você sempre esteve ali. Mas você não dirá, e acabará enumerando todos os seus defeitos, as suas incapacidades e os mais variados motivos que a farão duvidar da possibilidade de um dia chegar a te amar. Trocarão opiniões, mas no fim, ela dormirá do outro lado da linha enquanto você escreve um poema baseado na agonia dela ou uma canção de ninar para quando a madrugada inquietante voltar a incomodá-la. E quando ela sorrir, você se sentirá na obrigação de sorrir também, só que bem mais simples, como se colasse um desenho em seus lábios, porque na verdade está mais preocupado em captar o brilho do milagre em forma de sorriso. Saberá com detalhes todos os seriados de sua preferência e os livros de menininha que você odeia, mas irá ler também só para ter assunto com ela. Não mentirá, mesmo que a verdade venha a doer.

O seu mundo irá se renovar cada vez que ela falar inexpressivamente que sente sua falta, e você perceberá, que, de alguma forma, ela precisa da presença de um sujeito estranho como você, porque servirá de escudo, almofada ou alicerce para os dias de chuva, quando ela estiver pensativa demais para explicar como se sente, pois já sabe que você é um dos poucos capaz de perguntar mais do que opinar.

No fim do dia ela saberá que você sempre será o melhor amigo estranho que ela poderia ter, e isso lhe soará suficiente já que conhece como é viver sem ela, e se acostumou as migalhas diárias. Irão se despedir com um beijo estranho e atrapalhado no rosto, você partirá com a vontade de ficar, enquanto ela continuará parada na soleira da porta do edifício esperando uma atitude sua, uma faísca de coragem, uma ação de voltar e resumir todas as esperanças em um beijo doentio e quente, sugando a língua com uma urgência que transparecerá toda a espera por trás daquela troca deliciosa de saliva. Ela o convidará para subir, e em silêncio vencerão os andares, degrau por degrau, iluminados somente pela luz fraca do seu aparelho telefônico. Ela contará sobre a construção, o nome bucólico de Jardim das Flores, construído na década de 50, e ainda ocupado pelos mais variados tipos de indivíduos estranhos da cidade de Salvador. Revelaria que não era mentira a intenção da prefeitura em tombar o edifício, mas até que a desgraça fosse pregada nas portas de cada apartamento, ela continuaria ali, subindo as escadas, sem questionar o motivo do elevador não funcionar.

E lá para o quinto andar, trovejaria pornografias explícitas ao senhorio, e você se manterá firme ao seu lado, sorrindo estranhamente a cada palavrão expelido, ainda achando beleza nas depravações que escorreriam por lábios tão carnudos. A saudade da língua daquela jovem em sua boca, se mostrará presente, inquietante, forçando seu corpo a se excitar sem o pudor que deveria manter. E com a aproximação do apartamento dela, seria mais complicado controlar as emoções animalescas que acionarão as partes mais sacanas do seu corpo. O molho de chaves irá tamborilar em seus dedos angelicais, antes de tentar uma, duas, três vezes, enfiar a chave gasta com cuidado no buraco da fechadura. O som de Seu Jorge se esgueirará pelas paredes – sinal que o vizinho ao fim do corredor, estava mais uma vez chorando as mágoas surgidas após a rompimento com a ex-mulher que o traíra com o dono da barraca de frutas do outro lado da rua. Forçará a porta com o peso frágil do corpo, sem pensar, explodiria a porta com a mão para que finalmente se encontrassem dentro do apartamento pouco decorado, com algumas calcinhas espalhadas pelo sofá velho, livros largados sobre a única mesa perto da copa. Voltará a repousar os olhos no rosto inexpressivo dela, como se esperasse um pouco mais daquele novo você, um você que assumia a responsabilidade de arriscar e sentir o gosto delicioso do pecado a escorrer por entre os seus lábios.

Com violência, o beijo recomeçaria no meio da sala, ainda sendo possível ouvir distante a voz do cantor a recitar uma melodia de amor. Ela irá gemer baixo como se tentasse dizer algo, mas você assustado com a possibilidade da recusa, irá impedi-la, aumentando a intensidade que a sua língua acariciará a dela, enquanto suas mãos tocarão sinfonias completas nas curvas epiteliais daquela mulher. Abocanhará o lóbulo de sua orelha, em saltos ornamentais e apressados, pulará para um dos seios, enfiando, com sutiã e tudo, para dentro da boca, arranhando-o com os dentes enfurecidos, evidenciando que não foram poucas as noites que passou a imaginar aquele momento – cada passo minuciosamente calculado para que ela se arrependesse de ter, por tanto tempo, desprezado as suas destrezas masculinas, e a foderia. Não de uma forma casual, a lançará na cama apenas de calcinha, ela empinará a bunda com marca de biquíni, e foderia puxando o laço da calcinha, desesperado para que se rompesse a qualquer instante, afirmando que era quem quem ali mandava. Mas antes mesmo que algo fosse penetrado e ela gemesse, seu rosto será tocado pelos dedos trêmulos, e inevitavelmente sentirá a obrigação de esbarrar com o olhar taciturno e assustado dela.

– Mas nós somos amigos…

Balançará a cabeça na intenção de amenizar a ereção entre suas pernas, e dirá, entre uma arfada e outra o único pensamento que viera a tona:

– Eu preciso fazer amor com você.

E os mesmos olhos conhecidos por você, agora vitimados pelo seu novo eu, continuarão observando as nuances em seu rosto.

– E o que faremos amanhã? – insistirá ela, deixando escapulir no tom da sua voz o medo de ser esquecida.

– Transaremos de novo e de novo…

***

– Olá? Ei? Será que pode, por favor, me atender? Estou com pressa.

Pisquei compulsivamente os meus olhos desfazendo a nuvem de pensamentos que pairavam sobre a minha cabeça, detalhando cada penetração sacana que estava prestes a fazer, quando me dei a entender que regressava ao sebo, parado do outro lado do balcão, com o livro que ela escolhera em uma das mãos, paralisado diante os olhos caramelizados e impacientes da jovem que me aguardava em pensamentos completamente nua.

– O quê?

– Eu pedi para, por favor, me atender. – Apontou para o livro em uma das minhas mãos.

Me desculpei como um idiota que acabara de ser flagrado batendo uma punheta e mal sabe para onde olhar enquanto se limpa. Cobrei o livro apenas para prolongar a estadia dela perto de mim. Ela agradeceu, fazendo um esforço importante e evidente para não tocar em mim, com certeza, estava irritada com a minha demora. Olhou para o relógio em seu pulso e partiu como se levasse consigo todos os meus planos futuros, os passos certos do meu amanhã planejado. Era o momento, o instante esperado, os vinte segundos que mudariam a minha vida ou foderiam a minha existência. Deixei para trás as inquietações e a mente prática, e saltei pelo balcão, correndo desesperado para a porta do sebo, parei bruscamente na soleira da porta e soltei a voz de um homem aflito:

– E se eu falar que sonho contigo todos os dias? – gritei.

Ela parou. Meu corpo se encheu de uma energia desconhecida, talvez convicção, prelúdio de felicidade – não sei explicar. Seus cabelos encaracolados foram soprados por uma rajada de vento, ela girou o seu corpo como uma bailarina a dar um rodopio incompleto. E lá estavam os olhos curiosos.

– Eu responderia que os sonhos reverberam imagens e acontecimentos acionados durante o dia. Ou seja, seria apenas uma repetição.

Eu estava perdendo a minha oportunidade. Dei passos largos em sua direção; pensei em correr, mas tive medo de assustá-la. Parado ali, diante aqueles lábios, tremi como uma criança frente ao pai, tentando explicar quem quebrou o vaso chinês caro comprado em uma viagem qualquer.

– E se eu falar que eu estava acordado?

O silêncio fora a única resposta que obtive dela, sinal que a sua curiosidade tinha sido ativada, as barreiras que poderiam impedir a minha continuidade se desfizeram, e eu precisava tomar mais uma dose de euforia e coragem. Foram as minhas mãos que desencadearam os acontecimentos futuros, correram soltas pelos braços desnudos, parando nas alças finas do vestido florido.

– E se eu falar que acredito que deveríamos viver uma história de amor? – insisti, antes de ser recepcionado pelo mesmo sorriso que habitara minutos atrás, os meus pensamentos.

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Faah Bastos
trintona, escritora nas horas tortas, estudante de Psicologia, professora e louca por bichos!🌟
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