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Dias cinzentos me representam.

13 de março de 2014

Camaçari, 13 de março de 2014. 

Era para ser somente um dia demasiadamente simples, sem festejos, sem novidades que cortassem em minha boca algum sorrido amigável. Um dia de folga, de descanso para todas as obrigações diárias que pagam as minhas contas. Um dia em que me despeço das personagens que habitam em mim, e liberto a louca e selvagem, inconstante e desgastada mulher, para desfazer-se das atrocidades costumeiras, resplandecer a pele pálida com traços desajustados de sol, pintada por tatuagens que expressam uma jornada de contínua dor. Fora então, para surpresa das batidas constantes do instrumento mais danificado em funcionamento dentro de mim (meu coração), o dia habitado por uma preguiça extrema, não favorecendo o descanso; desqualificado para a despreocupação. Fora um dia cinza e intranquilo, como uma poça d’água sendo pisoteada por sapatos abarrotados de lama. Nuvens estranhas que cobriram o meu céu, e das janelas imensas que cortam em retângulo as paredes brancas do meu apartamento no centro da cidade, observei um cortejo de passarinhos a bater suas asas em sintonia, lançando-se em quedas estranhas – uma imagem inquietante em meio aos prédios manchados, transeuntes ocupados, o barulho incessante das músicas cortadas de propagandas diversas, e a massa de calor desnorteando qualquer pensamento poético. Eu, na minha condição de mera desbravadora de um dia distante do mundo, dediquei-me a descansar a mente de turbilhões poéticos ou crises existenciais. Eu somente habitei um espaço limitado pelos metros conquistados com esforços em conjunto, que, hoje, chamamos de lar.

Após o almoço, deitei ao lado de meu marido, e movida pela segurança que somente o seu cheiro incontestável exerce sobre mim, adormeci com os olhos pregados nas imagens coloridas que cortavam a tela da televisão. Eu não sonhei. Despertei assustada com os latidos estrondosos de meu pequenino cachorro enfurecido. A tarde havia passado e o crepúsculo banhava o céu com suas ondas de cores fortes – minhas favoritas. O dia estava chegando ao fim, e fui transportada para a inquietação que eu estivera tanto tempo alimentando: eu favoreço dias assim. Opto pelo afastamento da transitoriedade de sentimentos, pessoas e conflitos que não me representam; bolas de problemas imersos em uma ignorância sem sentido; pessoas contabilizando horas e as horas escravizando corações. Dei-me conta que dias cinzentos, finalmente, me representam.

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