E, suficientemente covardes, evitamos o beijo.

Trecho retirado do romance “Sobre Todas as Coisas que Deixamos em Branco”, Faah Bastos. 

(…)

Naquele dia, saí pesado da casa de Rubens como quem se dá conta dos pesos desnecessários que carrega diariamente. Tomado pela mesma perspectiva de analisar minha bagagem sentimental, percebi que o amor havia me envelhecido. Amar me causava um desgaste físico e sentimental. Moribundo e quase raquítico, eu ainda lutava vergonhosamente uma batalha sem inimigos, buscando conquistar territórios já conquistados, ou até mesmo invadidos. E, no entanto, ao invés de me assustar com a constatação, tracei uma linha temporal acompanhando a evolução desse envelhecimento. Não apenas meu coração sofrera mutação após a soma de quantas vezes fora partido, como também meu rosto – a maior vítima de todo o processo. Meus olhos não abrigavam aquele brilho constante, havia perdido em alguma parte da vida, e não sabia como reavê-lo. A barba apenas crescia, e sem podá-la, parcialmente escondia as marcas espalhadas pelo rosto. Eu fui um soldado sentimental por toda a minha vida até aquele momento, um refugiado, escravo e vencido. O ritmo diminuiu, retornou ao seu curso normal, no entanto, os vestígios da passada desordenada das tragédias amorosas não somente criou espaços em brancos em minha história, mais também um covarde.

Uma balsa atracou e fui recepcionado pela figura estranha de Eleonor lançada à amurada – usava um vestido gasto, quase transparente. Seus braços eram frágeis suportes para o busto, mergulhados em alças finas e delicadas recaídas sobre os ombros marcados. Pobre, ar de desajeitada, magricela e ruiva. O que eu estava pensando?

Embarquei sem pensar nas consequências. Deixei por conta do rio os ressentimentos. Embarquei sozinho, desfazendo da armadura – não haveria lutas para onde eu iria. Ficaram na beira do rio as hipóteses. E ao relembrar aquele dia, percebo que fora o primeiro de minha vida. Passei a viver sem medo das tentativas e quedas, não seria mais um espectador da própria vida, ocupando um lugar na plateia para o espetáculo contínuo. Eu fui a ação e a desordem de mim mesmo. Talvez tenha sido o ruivo de Eleonor a tingir toda a cena, responsável por espantar as incertezas. Era a única cor da qual realmente me lembro. Não me recordo de mim. Não sei qual era a minha aparência, se vestia jeans, se tremi quando ela se aproximou. Todavia, como se não houvesse um espaço de anos entre os dois pontos da memória, lembro-me da despedia do sol, o esvair da tarde se escondendo nas margens que aos poucos se distanciava. O rio parecia chegar ao horizonte, silencioso e contínuo, uma correnteza lenta. Nenhum vento caminhando sobre a água. O único som era do motor desengonçado da balsa. De tempos em tempos, ouviam-se vozes, cantoria e chiados selvagens. Além da bruma, quem sabe, uivos dos cães.

casaedit

Disseram-me que sua beleza era inesperada, como um tapa que o desperta após um desmaio. Disseram-me também que a infância mergulhada na miséria a proporcionara uma beleza cruel e única. Eu não acreditei. Eleonor não era bela devido o passado, tampouco pelo conjunto de seus cabelos e sardas, ou a palidez anormal. Alcançou sua verdadeira beleza com o passar do tempo, ao conquistar as primeiras rugas secas e profundas, a pele sulcada e envelhecida, sem decair como a maioria dos rostos, se manteve jovem mesmo com as ações diretas do tempo. O contorno esteve ali durante todo o processo – quando ela sorria, chorava ou se mantinha calada nas tardes chuvosas, andando pela casa arrastando os chinelos sobre o assoalho, ou absorta nas cantigas do tempo em que era jovem, debruçada sobre a amurada da balsa – fora no curso dessa viagem que a imagem teria sido subtraída do conjunto de todas as memórias e separada em uma cápsula. O tempo e suas ações não a transformariam. “Não há nada parecido assim em São Paulo. Vivemos protegidos por uma densa camada de concreto. Eu não vejo estrelas”.

“Ser protegido é bom, ninguém invade ninguém”. – E sua voz saiu estranha, pesarosa. Seus olhos correram sombrios pelo rio.

“Está certa, não há nada de errado em ser protegido. Ninguém merece ser invadido. Não somos territórios esperando alguém hastear uma bandeira. Ninguém tem esse direito, Eleonor. Ninguém”.

Ficamos calados, nervosos e cúmplices de algum acordo silencioso. Ela escorregou para o meu ombro, e seus dedos pontiagudos deslizaram pela palma de minha mão – a primeira vez que nos mantivemos de mãos dadas. A água corria lenta para desaparecer nas cavidades dos oceanos, como se a terra estivesse inclinada. Pássaros mortos, iscas, dendezais, restos de incêndio – tudo era recolhido pelo rio e seu tapete vermelho.

tumblr_n0bimfQ0211tp1qkzo1_400

tumblr_n0bimfQ0211tp1qkzo2_400

O barqueiro sorri para Eleonor, pergunta sobre dona Socorro, quer notícias daquela senhora que alguns anos atrás promovia jantares em sua pensão. Ela conta que andou um pouco atarefada, aponta para mim e diz que sou o novo hóspede que veio de São Paulo, somos apresentados. Ele manda lembranças para dona Socorro e a voz cede ao peso das memórias – foram amantes, treparam nas margens daquele mesmo rio inúmeras vezes. Sente saudade, recomeço. Ainda guarda o relógio que ela lhe deu. Remexe no passado e joga as lembranças e estabilidade no rio.

O vale aos poucos se formava, luzes amareladas piscando ao longe, os primeiros sinais de vozes, com um pouco de concentração alcançaria os alto-falantes da praça, o sino da igreja. Estávamos de volta, e sentíamos que algo fora deixado para trás. Jamais nos arrependeríamos.

Ela me contou que nunca se apaixonara, “não há muita beleza na vida que valha a pena ser dividida”, disse ela. Seus pais se separaram quando ela acabara de entrar na pré-adolescência, pouco tempo depois, descobriu que o amor, no caso de sua mãe, poderia ser substituído por um homem fracassado, sem paixões na vida, dono de uma ignorância similar a um selvagem, desprovido de qualquer caráter, assustador e incapaz de respeitar a inocência. Deixou de acreditar na felicidade no dia que seu mais novo padrasto a visitou em seu quarto pela primeira vez. Não se lembrava de como tudo aconteceu, mas ainda sentia o peso daquele corpo suado sobre o seu. Tentou se matar, mas descobriu-se covarde demais, pelo menos naquela época, segundo ela, entendeu que optara por vencer e superar, e covardia fora uma palavra erroneamente utilizada para descrever um ato de bravura. Ao perceber que os monstros que ela tanto temia quando criança, não habitavam a escuridão de seu guarda-roupa e sim a alma de seu padrasto, fugiu de casa. “Me restava ser mulher da vida”, confessou, e em seu rosto não havia nenhum traço infantil. Sofríamos de espaços vazios.

Recordara repentinamente de um jovem rapaz em sua cadeira de rodas, no quintal da casa ao lado, era filho de dona Araci e Seu Eliseu. Não se lembrava com detalhes de sua deficiência. No entanto, alimentava com clareza a lembrança dos olhos baços do garoto, lançados ao mundo, observando cada detalhe com eficiência – um espectador apaixonado e consciente do tempo que duraria o filme. Nunca trocaram uma palavra durante o pouco tempo em que foram vizinhos; ela passava as tardes a observá-lo da janela de seu quarto, enquanto ele empurrava as rodas da cadeira pelo pequeno espaço de quintal que seus pais o ofertaram; e mesmo limitado pelas barreiras físicas, encontrava no observar silencioso de um passarinho a fazer o seu ninho na copa de uma árvore, a aventura mais hilariante do mundo. Egoísta, Eleonor não o visitara nenhuma vez, tinha receio de dizer algo que o machucasse. Correr eles dois não podiam, não saberia explicar como era sentir o peso da lama nos pés. Um dia, assistiu a um filme que contava a história de dois amigos, um deles cadeirante; pensou em assistir com ele, provavelmente poderiam se aventurar pelas ruas, segundos depois, repensou a ideia e deixou-a de lado. “Ele não tinha olhos de aventureiro”, confessou ela tentando justificar sua inércia. Perguntei o que acontecera com o rapaz:

“Morreu de repente. Não chorei” – disse com um sorriso amargo nos lábios. – “No céu ele tem pernas que funcionam”.

Absorto naquele rosto infantil, irrompeu em mim a certeza que seria capaz de queimar toda a minha vida para ver brilhar os olhos suaves de Eleonor. Ficamos ali, trocando arfadas melancólicas. E, suficientemente covardes, evitamos o beijo.

Gostou? Compartilhe!
Faah Bastos
trintona, escritora nas horas tortas, estudante de Psicologia, professora e louca por bichos!🌟
Post criado 162

2 comentários em “E, suficientemente covardes, evitamos o beijo.

  1. Estou aqui procurando palavras para descrever o que esse texto causou em mim, mas não encontro. Só sei que foi intenso, verdadeiro. E me deixou com um gosto de quero mais. Sua escrita é incrível, e tem algo nela que me prende e me conquista mais a cada linha. Você tem talento, moça. Parabéns!
    Beijo

    1. Uau! Faz um tempo que não recebo um comentário que tenha me deixado tão empolgada.
      Muito obrigada por ter gostado da minha escrita, de ter sido acertada pelas palavras, e claro, por deixar sua marca registrada por aqui. É muito importante pra mim.
      E já que gostou tanto, vai ter mais hoje.
      Beijos!

Deixe uma resposta

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.

De volta ao topo