Esses fantasmas da escrita.

tumblr_mqkt03NtAD1sreen9o1_500

Creio que todos os escritores guardam um livro específico a ser escrito, algo tão íntimo que requer um preparo mais cauteloso e desgastante. Tentativas o antecedem como uma forma de preparo e amadurecimento, principalmente literário. Alguns demoram um punhado de anos, somam livros, acumulam prêmios, e nunca atingem a tranquilidade necessária para dar vida ao único livro que realmente precisa sair do anonimato. E tantos outros iniciam sua carreira escrevendo com maestria o livro – a obra que selaria seu talento ou cumpriria sua sentença/papel na vida terrena. “Aquela pessoa nasceu exclusivamente para escrever tal obra”.
Eu percebi que tenho uma determinada obra que anseia por liberdade, e tive consciência de sua existência bem antes de escrever meu primeiro romance. Costumo pensar que tudo escrito até hoje são partes de um processo demorado, delicado banhado por absurdas doses de sentimentalismo confuso (apto a escapar entre os dedos e se perder em uma cena ou outra). Desconheço a razão de minha demora. Estou beirando os trinta anos e ainda não dei vida a obra que tanto preciso libertar. Talvez por medo de fracassar ou incapacidade sentimental de suportar revisar trechos sobre mim, tenho adiado a tarefa. Escrever tem quase um Q de sobrenatural, e, às vezes, tenho medo do desconhecido. Vivo assombrada por fantasmas – caminham de um lado a outro da casa, importunam meus pensamentos, bagunçam as anotações, incomodam meu pequeno refúgio.
Curiosamente, desconfio alimentar alguma falta, uma ausência. Vejo-me entrelaçada em uma teia de dúvidas, e me questiono se tenho realmente talento. Apavorada pelos fantasmas, recuso-me a escrever. Calo meus pensamentos, perco a paciência, e deixo tudo desviar minha atenção. Não escrevo. Enterro as ideias, os sentimentos, as sensações e os olhos famigerados das personagens que não nascem. Em seguida, discuto minhas prioridades, reviso, e tento aparentar sabedoria e certeza, volto a escrever alegando que com ou sem talento, escrever me tranquiliza, proporciona algum tipo de estabilidade.
Eu apenas escrevo. Duvido muito que um dia ainda preencherei prateleiras com meus títulos, serei citada em artigos literários ou conquistarei algum tipo de respeito. Falta-me tanto… Talvez só escrever não seja suficiente para alcançar o que qualquer escritor anseia “ser lido, consumido até a última linha”.
Enquanto não encontro meu caminho, percorro todo o labirinto sem saída de emergência, sem um atalho. Tenho consciência que carrego em minhas palavras algo cru, áspero, ossudo, esquisito, devasso e impróprio. Minha literatura assusta ou nada desperta – é possível. É realmente possível.
O futuro permanece incerto. Um dia, acordarei em uma manhã comum, e notarei que devo parar de escrever. Não serei questionada porque “do que vale uma palavra não lida?”
É, eu sei. Triste. Um tanto lamentável.

Gostou? Compartilhe!
Faah Bastos
Resido na casa de Escorpião, 29 fucking anos. Eu não tenho um blog. Eu escrevo em um cafofo virtual. Selfie é uma forma de contar as rugas – eu amo! Escrevo aqui porque ficar calada nunca foi meu forte.
Post criado 233

Um comentário sobre “Esses fantasmas da escrita.

Deixe uma resposta

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.

De volta ao topo