#slide, #work

“Eu a envelheci; eu a despedacei”.

3 de abril de 2016

Trecho retirado do romance “Sobre Todas as Coisas que Deixamos em Branco”, Faah Bastos.

(…)

Precisei de alguns minutos segurando a soleira da porta, antes de avançar pela calçada. Seria uma jornada longa e cansativa para quem estava começando a ver tudo duplicado. Um passo de cada vez, pensava. Os pés buscando rotas variadas, sem conseguir se manter em uma linha reta. Senti no peito um buraco negro e gelado ganhar vida. Um desvario. Uma fraqueza. E a rua tentava correr de mim. Não sentia falta de equilíbrio, o que me acertava era a ausência de tempo – capaz de amenizar as ações de Sofia; suficiente para equilibrar minhas emoções ao ponto de não sofrer holocaustos a cada descoberta de um novo espaço em branco. E num segundo que não consigo determinar, entre a Rua das Almas e a esquina do bar, fui resgatado pelo braço de Eleonor – com certo esforço, tentou me equilibrar.

“Eu sabia que o senhor estava enchendo a cara” – resmungou.

“Não estou assim tão bêbado” – aleguei em minha defesa. E em partes era verdade, visto que cambaleava de um ponto a outro por culpa do peso das inquietações. Um homem poderia sofrer os infortúnios da incerteza, eu era prova real das ações diretas causadas pela crise de não saber se o que sentia era mesmo verdade.

Na rua apenas silêncio. Ouviam-se os ruídos dos chinelos de Eleonor rasgando a calçada. As luzes dos postes iluminavam faixas de rua. Nossas sombras se fundiam nas paredes rachadas. Pedi um segundo, precisava de fôlego, ela acatou meu pedido, escorou-me na parede. Dois segundos e eu ainda concentrando o ar em meus pulmões. Cinco segundos, minhas mãos avançaram trêmulas nos braços de Eleonor, e sem pensar se haviam espectadores para a minha façanha, aninhei-a contra a parede. Lábios próximos, respirações se fundindo. Olhos que buscavam respostas – os meus faziam perguntas.

“Eu não tenho certeza” – confessei inseguro.

Ela sorriu como quem se divertia com a minha aflição. Seus lábios encostaram-se aos meus, e todo o mundo se dissipou.

“Um homem na sua idade não deveria acumular incertezas”.

Uma provocação. Um sim dito em outras palavras. E a sensação trôpega se instalara novamente no centro de meu estômago – era o tempo massacrando as entranhas.

Corremos ladeira acima, entre risos e provocações – uma infantilidade perdoada aos amantes. Pulamos a portinhola da entrada da pensão. Caminhamos entre o jardim alertando um ao outro sobre o silêncio. Ela disparou em minha frente, mexendo os cabelos – inquieta e perfeita ­–, saltando de uma trepidação a outra, sem pisar nas flores de dona Socorro, ao contrário de mim que ia chutando a terra sem propósito. Ela mesma empurrou a porta e dominou toda a sala com seu perfume, me limitei apenas a segui-la ao se espalhar no sofá. Apoiou sua face na palma de uma das mãos e me encarou com um sorriso estranho.

“Eu odeio solidão, e antes de você chegar, estava quase enlouquecendo”. – Ela mordeu o lábio inferior como quem evitava alguma confissão, voltou a sorrir e desfez o laço das pernas. – “Você me confunde”.

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Suas mãos dominaram meu corpo num abraço. Um segundo depois e eu já estava vulnerável aos seus ataques: a boca buscando meus lábios, os dedos desfazendo os botões da camisa, o vestido sendo erguido a altura da cintura revelando a calcinha infantil com flores bordadas à luz pálida de uma abajur no canto da sala, o arfar confuso sendo expelido pelos lábios rosados, quando não estavam determinados a beijar meu pescoço, corriam livres pela barba falha, minhas mãos trépidas a abaixar as alças do vestido rodado, e puxar para meu colo o corpo macio. A paixão transformada em sexo sem sentido, meio atrapalhado, dedos se encaixando, línguas se embaraçando, e as respirações descompassadas como notas musicais de uma sinfonia desconhecida.

Uma invasão e um sopro de susto e volição romperam os lábios de Eleonor. Enquanto saboreava o banquete servido, descobria que o meu prazer em passar a língua por sua barriga, deixava-a com a penugem eriçada. Seus dedos se espalharam pelos meus cabelos – algumas vezes formando bolos de fios e puxando-os para cima a cada lambida que sentia em seu circuito sexual. Suas pernas se moviam com a destreza de uma mulher experiente, acionando a minha excitação, e unida aos gemidos que produzíamos, descobríamos que estávamos fadados ao ato sexual.

Seu corpo é magro, quase mirrado, os seios pequenos como frutas ainda maduras se evidenciando entre os galhos. Tenho medo de tocá-la completamente e manchar a pintura inteira. Ela abocanha a minha boca com suavidade e percorre meu sexo com uma ingenuidade estranha. Sinto que perco alguns anos enquanto sou tocado, regressando ao pequeno e sujo apartamento que dividi com um colega de faculdade assim que conheci Sofia. Mas ali eu sentia novas sensações. Eu queria conquistar Eleonor como estava acostumado, e mesmo sussurrando em meu ouvido que desejava que eu a fodesse como fodia as outras mulheres, recusei. Mergulhei em uma atroz e silenciosa figura marmórea.

Eu a xingo e minhas mãos fazem as ações opostas aos meus xingamentos. É o que acontece quando deixamos o corpo prevalecer: o desejo nasce, toma controle e tudo se perde entre penetrações e arrependimentos. Não há restos, sobras a serem questionadas. É sexo, apenas isso, temos consciência da frieza ao lidar com tudo. Os restos, nas transas futuras, se manifestarão a serem descobertos, deixarão sinais claro do amor e perderemos a linha tênue. Não será apenas sexo. Seremos arrastados pela corrente, pela força do desejo sentimental.

Tropeçamos um no corpo do outro, favorecidos pela força da gravidade impulsionando nossos corações para a eterna cumplicidade. Desafiamos a cada gemido de prazer, espasmos e gozos expelidos de forma selvagem – outras carinhosas –, a morte insólita das conveniências sociais.

Fizemos amor durante todo o resto da noite. Após o sexo, percebo que Eleonor envelheceu, ou simplesmente eu a envelheci. Digo que está cansada e ela sorri tristemente. Eu a despedacei.

“Eu cresci” – ela diz e sinto que não está mentindo. – “Eu esperava por isso, como se todas as ameaças de vergonha de minha mãe tivessem me levado para sua cama”. – Sinto que o chão irá se abrir, mas me mantenho sentado ao seu lado, ainda segurando aqueles dedos ossudos. – “Eu estava destinada a isso. Não adiantou muito evitar, pelo menos não doeu”.

E eu sentia que a dor referida não era física, mas apenas sentimental.

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