Eu fui aluna de uma estrela!

Passei alguns dias sem logar em minha conta no facebook, estava doente e não tinha cabeça alguma para ver o que andam falando sobre o mundo. Hoje, ao me sentir melhor, optei por verificar as notificações e marcações recebidas. Deparei-me com um manifesto de orgulho de minha última professora de Português que tive antes de entrar na faculdade, Irana Pacheco. Dentre os variados agradecimentos em retorno que ela recebeu dos demais ex-alunos, resolvi comentar, e desatei o nós dos dedos e acionei, compulsivamente, as teclas do computador. Fim da história? Escrevi mais do que deveria e fiquei sem caracteres. Como sou chata, me recusei a selecionar quais palavras mereciam evidências e as que iriam cair no esquecimento, afinal, sou uma escritora e abdicar de qualquer palavra é como abandonar um filho. Não sou capaz de tal feito, assim, resolvi postar em meu canto, sítio, baú, todas as palavras que estavam apertadas naquele pequeno espaço, quase sufocadas pedindo evidência. Era o mínimo que poderia fazer não apenas para as minhas palavras, e sim em homenagem (mesmo pequena) para a professora que foi capaz de bater de frente com os meus fantasmas. Sem ela, não sei se estaria aqui hoje. Hum, talvez eu estivesse, no entanto, a bagagem seria bem mais leve, menor, mais compacta, e quem sabe a minha imaginação nem teria florido como uma carvalho antigo, correto?

Então, vejamos…

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Quando me tornei aluna de Irana Pacheco entrei num colapso existencial e uma busca incansável por quem eu queria ser e quem eu realmente era. Foram batalhas travadas diariamente, afinal, esquadrinhar a si mesmo nunca foi uma jornada fácil. Fui pressionada, rebatida, incentivada, questionada e parabenizada por ela em diversos momentos do meu caminhar, e contrariando o esperado, continuei caminhando. Quando os pés ficaram cansados, Irana me pressionava; e se tantas outras pessoas continuavam caminhando, por que eu, logo eu, iria parar? Lembro-me de suas palavras “seu problema é achar que a vitória é certa”. Verdade, meu maior problema era idealizar a vitória e me cansar da luta antes mesmo de iniciá-la. Olhe só, eu lutei. Eu luto. Eu continuarei lutando. Quero somar vitórias porque preciso me sentir útil, mostrar que os anos somados me fizeram mais capaz, e ser capaz não me torna vitoriosa, mas sim apta para a luta. E obrigada, eu sou capaz e apta.

Precisei de muito tempo para assumir os meus erros de forma que fosse possível mudá-los, superá-los. Não precisei de nenhum terapeuta para saber que a única terapia que eu precisava estava na Literatura. Me graduei em duas especialidades, optei por aquela capaz de presentear meu coração com a possibilidade de prolongar os ensinamentos que tive. Hoje, sou capaz porque ensino. Sou capaz porque sou escritora (de peito aberto e cheia de orgulho). Sou capaz porque acredito. Sou capaz porque tento. Inevitavelmente, sou capaz porque você soube me pressionar no momento exato, sem transbordar meu cálice (parafraseando Chico Buarque).

Quando jovens, acreditamos que o mundo não vai além do nosso quintal ou círculo social, queremos o imediato, porque o tempo nos sufoca. Desfiz os laços do espaço temporal, não me prendo aos dizeres arbitrários de um relógio. O tempo, inimigo de muitos, se tornou meu aliado, e juntos somamos conhecimento. Levei um tempo para entender, e você soube compreender o meu tempo. Bem acho, eu estava sempre um passo a frente da maioria ou uma tristeza a mais – perdi meu pai e isso abalou as minhas estruturas, e mesmo assim, me senti mais firme para encarar, porque você tirou a poeira dos meus vidros particulares abarrotados de defeitos e qualidades, e me mostrou que eu tinha força suficiente, como uma rocha, para vencer a minha dor e não torná-la uma aliada em minha vida. Eu cresci porque aprendi contigo a superar meus fantasmas. Hoje, não os abandonei, tenho até demônios aprisionados no canto da minha sala, no entanto, eles se tornaram figuras livrescas e poéticas e não mais parte de quem sou, e sim, quem fui. Agradecer por ter aprendido a ser “humana” é absurdamente pouco diante a imensidão de obrigada que habita meu coração. Você estende sua mão para os alunos, e os sábios, os espertos, os necessitados que compreendem sua realidade, agarram e são levados para fora da sala, para o mundo que irão enfrentar um dia. Você me ensinou além das regras gramaticais. Ensinou-me a criar uma armadura branca para lutar contra a escuridão. Obrigada. Realmente obrigada.

Eu fui aluna de uma estrela.

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Faah Bastos
Resido na casa de Escorpião, 29 fucking anos. Eu não tenho um blog. Eu escrevo em um cafofo virtual. Selfie é uma forma de contar as rugas – eu amo! Escrevo aqui porque ficar calada nunca foi meu forte.
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Um comentário sobre “Eu fui aluna de uma estrela!

  1. Own, mas que amorzinho. Professor de verdade é aquele que vai bem além dos livros didáticos e da pedagogia de alguma escola. Parabéns, professora! E parabéns, Faah. ♥

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