Eu sobrevivi a ruína.

Eu cresci. Quando alcancei o ponto máximo de meu limite, de alguma forma eu continuei crescendo – chegando atrasada nos momentos importantes, nas festividades; antecedendo as quedas; revolucionando o desmerecido. Hoje, tenho a impressão que meus desmoronamentos foram propositais.

Aos 11 anos, eu era diferente.

Descobri que seria diferente e isso me incomodava. Eu queria ser igual, porque diferente me envergonhava. Passei todo o período escolar odiando ser quem eu supostamente estava me tornando. Durante os anos, me apaguei e acendi incontáveis vezes – momentos de completa escuridão. Cansada de dançar o minueto e nunca entrar no ritmo, apaguei; desliguei a fonte de luz e água, aceitei a parte opaca da vida e prossegui. Quem sabe não fora nesse momento que descobri que ser assim era meu destino?

(Vocês acreditam em destino? Ainda não tenho uma opinião formada.)

Aos 18 anos, perdi meu pai.

O castelo de segurança se desfez. Entendi que a vida se iniciara naquele instante, enquanto eu socava a parede branca e limpa daquele hospital. Eu socava porque estava sozinha; socava porque queria mais tempo; porque achava injusto; porque eu merecia mais lembranças com meu herói. Eu lutei contra a solidão. Apanhei, apanhei mais um pouco, e durante todas as surras, deixei de acreditar em mim mesma, ser diferente já não era mais a questão: eu precisava sobreviver. Somei anos, dores, feridas – que somente agora compreendo que não precisavam ser curadas para dar continuidade a minha caminhada, eu apenas precisava saber lidar com cada uma delas –, decepções, mágoas, sonhos perdidos. Os anos que mais me odiei, me perdi acreditando que era a única forma de prosseguir.

Aos 22, ruína.

O mundo construído através de muitos sonhos pisoteados chegou a completa ruína. Aceitar a mim mesma já não era uma tarefa tão fácil quanto na infância. Dessa vez era preciso mergulhar fundo, identificar os verdadeiros medos, admitir que cometi falhas que causaram dor, repartir a culpa, e entender que mesmo destroçada, a vida ainda mantinha seu curso, e aquela pessoa que eu havia me tornado era apenas uma pequena pedra lançada ao rio – causava um transtorno inesperado, mas não mudava a rota da água.

Entreguei-me ao amor e rezei para ser o suficiente. Eu tinha uma única moeda para a fonte de desejos e gastaria com o amor. Talvez amando seria capaz de reerguer meu império particular. E mais uma vez estava errada, porque acreditava que era preciso manter um castelo ao meu redor responsável por impedir que as frustrações da vida me alcançasse. Eu evitava viver, assim não acumularia mais desgraças. O amor não deveria ser uma fuga. Era preciso ficar, confiscar uma pequena faixa de terra, fazer moradia em mim e em meu amor.

Aos 26, revolução.

Eu era uma catedral em ruínas, com segredos tão bem escondidos que eu mesma esquecera o caminho para encontrá-los. Eu havia limitado meus passos mesmo quando se tratava da minha vida e meus sonhos. Para alguns foi o somatório exato para a morte, deixar esse mundo e encontrar algo além, enquanto para mim, fora o momento de renascer, compreender que minhas diferenças não eram qualidades ou defeitos. Eu precisei me aceitar para ser capaz de lidar com a vida, determinar a estrada a ser seguida, responsável por inovar quando tudo parecer estranho ou difícil demais.

As desgraças sofridas, as ações do tempo, a erosão das sensações, o trabalho do sal das lágrimas – a junção de tudo que poderia me destruir, na bem verdade, apenas causou danos reparáveis em minha estrutura. O templo se manteve protegido em algum lugar dentro de mim, sob o olhar nocivo da escuridão que tenho, pulando de um ponto estranho à outro, mas inevitavelmente, eu redescobri o caminho de casa, iluminei minha trilha e reencontrei a essência de quem sou.

Eu passei a me amar, valorizar todos os pontos que me formam. Eu renasci de dentro para fora. Sofri um período imenso de transformação para ser capaz de respeitar quem realmente sou e jamais voltar a me negligenciar. Eu sou a única responsável pelas quedas ou vitórias, dona da ordem cronológica das minhas vivências.

(E talvez eu não acredite mesmo em destino. Ou conseguir passar por todas essas tragédias fazia parte do meu destino para aprender a valorizar as riquezas que residem em mim.)

Hoje, ultrapassei.

Respeito meus limites, minhas qualidades, e não tento me adequar ao padrão estabelecido por terceiros. Eu traço e venço minhas próprias exigências. Foram anos e anos de medo, vivendo à margem das grandes revoluções. Momentos que passaram sem registro porque sentia medo de olhar para trás e não me reconhecer. Agora me reconheço em tudo, me sinto mesmo quando meus passos desejam me guiar para quilômetros de distância. Meus medos não se tornaram maiores que os sonhos, logo, me tornei maior que meus próprios desejos.

Talvez, através da perda, a necessidade tenha espancado minhas crenças, e com a violência cresci. A partida de tudo que me dava segurança obrigou-me a ser meu próprio suporte e escudo. E mesmo em meio as tempestades, eu sobrevivi.

Aos 28, descobri minha particular coleção de holocaustos.

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Faah Bastos
trintona, escritora nas horas tortas, estudante de Psicologia, professora e louca por bichos!🌟
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