“Eu sou eu; você é você” – uma simples lição para o amor.

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Uma das maravilhas que descobri ao me tornar escritora foi a capacidade de observar o mundo sob prismas distintos. Eu passei a falar menos e ouvir bem mais possibilitando um amadurecimento muito mais significativo nos últimos anos. Ao escrever sobre relacionamentos, precisei desvendar alguns mitos, burlar métodos e criar convicções próprias – favorecendo minhas relações reais, afetando diretamente a minha forma de encarar as pessoas e suas necessidades. Segundo a oração da Gestalt, “você é você”, parece bem óbvio, e no entanto, vivemos tentando transformar o outro em alguém como nós – as mesmas perspectivas, gostos musicais, opções sexuais e religiosas –, qualquer um que fuja dessa cápsula de padrões estabelecidos, torna-se um perigo ao império da mesmice, obediência cega, quase como um atentado direto ao imenso e complexo sistema de opressão e submissão.
É comum esquecermos que antes de tudo, somos pessoas inteiras e completas, quando unidas não sofremos nenhuma mutação para nos tornarmos um só ser compartilhando as mesmas prioridades e vontades. Não obstante, nada impede que em um dado momento os quereres se igualem.
Partindo desse pressuposto, é possível compreender que a premissa para se conquistar um relacionamento saudável reside em assumir sua cota de responsabilidade (e culpa) por tudo o que faz e, obviamente, as consequências de cada ato diante o outro e dentro da relação. Acredito piamente que associado a responsabilidade N outros aspectos se tornam fundamentais, como conhecer a si mesmo, ter consciência de seu papel dentro e fora dessa cápsula, suas qualidades, defeitos e limites. Assumir que somos seres com limites distintos pode ser a resposta que muitos procuram. Pense nos mais variados tipos de relações que desbravamos ao longo de nossa vida: as frustrações, decepções e alguns sucessos. Agora reflita como tudo poderia ser diferente e tal saldo ser mais positivo, se nos atentássemos para um conceito muito simples “Eu sou eu; você é você”.
Vivemos tropeçando nos detalhes capazes de tornar a vida muito mais aceitável, como perceber que o outro não faz parte de mim (tampouco o contrário); é um sujeito alheio às minhas necessidades, dono de suas vontades, experiências e sentimentos – um caldeirão a parte, um país independente que não está necessariamente buscando ser dominado. Entretanto, movidos por egoísmo, egocentrismo, édipos… criamos uma lista interminável de expectativas que o outro deve alcançar, e no entanto, não queremos aplicar nenhuma dessas impossíveis e fantasiosas listas a nós mesmos, porque temos consciência (direta ou indireta) que não estamos sendo justos, muito menos realistas. Queremos apenas criar um campo com tarefas a serem cumpridas com louvor.
Ao aplicarmos os fatores supracitados nas analogias amorosas, tudo se evidencia quase como se uma luz misteriosa iluminasse os cantos mais remotos do nosso pensamento. Não há relação quando nos fundimos à outra pessoa, a bem verdade é que apenas um sobrepõe-se ao outro – uma batalha entre forças. Eu não quero ser o espelho de quem amo, e sim, formar com ele uma interseção, convergir para encontrarmos o ponto máximo da vida. A comunhão de valores nasce exatamente no instante que respeitamos os espaços individuais, as particularidades, preferências, opções, sentimentos, sensações e verdades. (Sim, eu escrevi verdades, afinal, nenhuma verdade é absoluta. Tudo muda de acordo com o paradigma que escolhemos para observar o mundo ao nosso redor.)
Todavia, é preciso impedir que a comunhão evolua para uma necessidade de satisfazer as expectativas projetadas sobre nós. Não estamos na Terra para obedecer ninguém, se toda e qualquer obediência abnegar minha própria personalidade e vontade. Se deixo de ser quem sou para ser o que esperam de mim, jamais o produto final será a felicidade. Provavelmente, somaremos anos sobrevivendo ao pular de uma ditadura emocional para outra. O resultado será muitos eus e nenhum deles se parecerá com quem sou hoje. O equilíbrio não será a pauta fundamental para a relação, sempre haverá um desfalque, uma ausência significativa de reciprocidade.
“Não estou neste mundo para viver de acordo com as suas expectativas. E nem você o está para viver de acordo com as minhas.”
Somos entidades inteiras e devemos continuar assim com o passar da vida. Ser divisível ou doador de suas emoções, é negar sua própria existência. Tratar o amor como a força que transformará todos em um só ser é trair a si mesmo; é transfigurar felicidade em tristeza.
“Se por acaso nos encontrarmos, é lindo”, caso contrário, você ainda será unicamente você.

E não, meus caros leitores, não prego o individualismo e sim o respeito a si mesmo. 

“Eu sou eu; você é você.
Eu faço as minhas coisas e você faz as suas.
Não estou neste mundo para viver de acordo com as suas expectativas.
E nem você o está para viver de acordo com as minhas.
Eu sou eu; você é você.
Se por acaso nos encontrarmos, é lindo. Se não, não há o que fazer”

Frederick Perls

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Faah Bastos
trintona, escritora nas horas tortas, estudante de Psicologia, professora e louca por bichos!🌟
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