Maio, meu bom amigo, aquele abraço!

Maio se despede com um gosto estranho no canto da boca, como quem acaba de despertar de uma ressaca longa e degradante. Demorou a passar, penso comigo e meus escritos. E no entanto, ao contabilizar as memórias colecionadas ao longo dos trinta e um dias, me deparo com a realidade que andei adormecida durante alguns dias, somados à algumas semanas perdidas. Em minha breve análise medíocre, posso destacar os dias de trabalho corrido que me fizeram fechar os olhos às oito ou nove da noite, largada sobre os lençóis amassados, a boca aberta soprando desgraças, as janelas do apartamento escancaradas permitindo que os chiados noturnos se postassem pela minha sala e a louça suja sobre a mesa desarrumada. Admito que não caminhei pelos dias, atravessei-os com uma fúria quase que desnecessária, riscando as datas no calendário velho grudado na geladeira. Orgulho-me apenas das fotografias tiradas, registrando momentos que desejo rever mais a frente, quando os dias silenciosos se fizerem presentes, a sala do apartamento for pequena demais para os meus pensamentos, ou apenas quando sentir saudade do que se foi, entristecida pelas ausências acumuladas. No entanto, sinto um pesar melancólico de quem perdera um filho: minha literatura anda muda, envergonhada de se banhar ao sol, a velha história da crise de sentir e não conseguir escrever assolada pelo cansaço diário, as buzinas constantes nas ruas entupidas de apressados, ou o calor absurdo esquentando meus sentimentos a ponto de derretê-los.

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Maio chega ao fim sem deixar muitas saudades, exceto as pessoas que não mais verei. No entanto, posso dizer em minha defesa, que aprendi a colecionar sorrisos – o som das risadas que ecoaram tantas vezes entre quatro paredes pálidas, protegendo algumas mentes dispostas a aprender. Os dias sopraram algumas belas surpresas, e deixei as especulações das possibilidades de lado. Assumi a posição de coragem, larguei as defesas em um canto sujo da casa e resolvi tentar, já que os dias correm, que então aproveitemos a corrida.

Trinta e um dia de espera. Angustiada pela demora, me peguei quase desistindo, me arrastando de um ponto a outro, como uma peça sem valor em um tabuleiro. Sem tempo para sentar e ter uma refeição digna, sem atropelar a comida, querendo saber como vai você, seus problemas, seus medos… Maio chegou ao fim, e constatei que sou capaz de pular muros, erguer tantos outros, revolucionar pequenos espaços e algumas mentes. As semanas passaram pesadas, e me tornei a soma.

Que junho traga os números, para encontrar em mim a conta perfeita.

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Faah Bastos
trintona, escritora nas horas tortas, estudante de Psicologia, professora e louca por bichos!🌟
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