Nos espaços rasos há tantas quedas sofridas.

Eu estava pensando em começar este texto dizendo que os dias andam nublados. Não estaria sendo totalmente verdadeira. Tem sido um período muito nebuloso para mim — tenho picos de euforia e entusiasmo (mesmo raros) e quedas monstruosas que me largam num profundo caso de desânimo e tristeza, algumas vezes sinto apenas o vazio se propagar. Sem exageros, sério. 

Algo dentro de mim se calou e não sei quando me dei conta desse silêncio. Talvez eu estivesse protegida demais sob várias camadas de plástico que não notei as partes se deteriorando pela ação do tempo, cansaço emocional, espiritual (…); entrando em colapso… Eu simplesmente não notei essa coisa se aproximando de mim (talvez porque ela sempre me habitou e apenas agora se manifestou com toda a sua força — não sei). 

Eu não tiro mais fotos. Sei que esse vazio propagado será captado pelas lentes. Evito me olhar no espelho, e quando se faz impossível, enumero palavras destrutivas por acreditar que as mereço — e talvez isso também seja verdade. Não queria, além de sentir os desabamentos, também ser capaz de traçar rotas de depressões em meu rosto.

Também pensei em escrever sobre como me desconectei das pessoas nesses últimos meses, e novamente estaria mentindo. Eu não me desconectei, apenas percebi que as supostas ligações que eu tinha eram frágeis ou só existiram quando a outra parte precisou de mim. Entendi que sou esquecível — é uma sensação de apertar o coração, embora eu esteja tão esvaziada que não consigo dar tudo de mim para os poucos que resistiram durante as grandes tempestades de neblina. Também, apenas uma única pessoa ( além de mim, claro) tem consciência de parte dessas minhas tragédias — e mesmo assim, ela não tem dimensão das profundezas que guardo. Quem olha de fora nem imagina que nos espaços rasos há tantas quedas sofridas…

Quem olha de fora nem imagina que nos espaços rasos há tantas quedas sofridas…

Eu não saio mais de casa com a mesma frequência de antes. As paredes brancas e conhecidas servem como proteção ou impedem que o mundo constate o quanto estou destruída. Eu não ando; eu arrasto os pesos. Não adianta ninguém aconselhar largá-los em qualquer canto, irão se amontoar, criarão uma colônia de ressentimento, e serão capazes de me seguir com os olhos o tempo todo. Tenho medo de perceber que ao me livrar dos pesos, desabarei — o que me sustentará? 

Tenho medo de perceber que ao me livrar dos pesos, desabarei (…)

Ando questionando meu propósito em vida: não consigo acreditar em nenhum dos que já pensei ter. Sinto-me como uma farsante, uma criatura fabricada para agradar ou incomodar, nunca para ser quem realmente sou — por que talvez eu nem faça ideia de quem sou, afinal, se um dia eu conseguir me conectar completamente com a parte que esqueci, posso constatar que não sou a mulher forte que muitos pensam, mas uma vítima despedaçada pelas desgraças que sofri. 

 

É a primeira vez, depois de muito tempo, que termino um texto qualquer com algo tão pesado e pessimista. Se fosse antes, iria me desculpar, mas agora não. Não irei me desculpar por sentir o que sinto, é assim, ponto. 

 

 

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Faah Bastos
Resido na casa de Escorpião, 29 fucking anos. Eu não tenho um blog. Eu escrevo em um cafofo virtual. Selfie é uma forma de contar as rugas – eu amo! Escrevo aqui porque ficar calada nunca foi meu forte.
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