smal12

OS NAMOROS NÃO DEVERIAM ACABAR NA MADRUGADA

 

 

Ele me disse por telefone, que a vida tinha assumido um papel que o forçava a prosseguir. Eu concordei, ainda tonta, sem entender o porquê de ele achar o processo forçado se andávamos na mesma sintonia, prosseguindo um pouco de cada vez. Mas resolvi deixá-lo falar, dando a entender que compreendia suas palavras agoniadas apenas com murmúrios afirmativos, sempre incentivando a continuidade do seu discurso pré-fabricado.
Ele contou que andava confuso, cheio de questões que não conseguia resolver. Eu pensei em problemas matemáticos, cálculos químicos, bombas atômicas, mas sabia que ele se referia a uma bomba sem nêutrons. Contou que sua ausência durante a semana era culpa desses problemas que não se resolviam, acumulavam no canto da sala. Eu pensei em corrigi-lo, mas continuei calada.
“O problema sou seu, meu bem, entende isso?” – surgiu a pergunta do outro lado da linha, fazendo meu corpo despertar de um mergulho imprevisto. De certa forma, o “meu bem” foi a única parte quem compreendi perfeitamente. Eu era seu bem.
Contou-me sobre os momentos que passou ao lado de uma pessoa desconhecida, e sentia em seu relato que pairava sobre nós uma necessidade em nomear essa tal pessoa, o indivíduo que servira como alicerce para as confusões dele. Mas eu era seu bem, era meu ônus ouvir seus relatos. Não era?
Ele me disse ainda mais, entre pequenas pausas de hesitação, sempre seguidas de um pedido razoável de desculpa por estar nervoso.
Eu acreditava.
“Talvez eu precise de um tempo”, disse com certo receio. Eu concordei – pelo menos mentalmente –, afinal o tempo serviria de bom grado para solucionar seus impasses pessoais. O tempo causava mudanças nas pessoas, ou necessariamente as pessoas ao mudar, mudavam o tempo – ainda não tinha certeza dessa parte.
Eu estava começando a entender? Pois ele riu, e no instante que sua risada ultrapassou a distância telefônica, toda a casa se silenciou. Não havia mais o som da noite, as buzinas dos carros, os passos do inquilino do apartamento de cima, as campainhas tocando, o bolero no fim do corredor. Havia apenas a sinfonia da sua risada em mim.
Ele disse que precisava ver pessoas. 
Argumentei que elas estavam em toda a parte, nas ruas, nos museus, nas filas do supermercado, nos observando…
Ele se adiantou e disse que não.
Eu me calei.
“Novas pessoas – corrigiu ele. – Preciso me relacionar com novas pessoas.”
Perguntei se fazia parte do seu plano para solucionar seus problemas. Ele disse que não, que essa fase viria depois de apagar algumas coisas. Eu imaginei um livro imenso escrito a lápis, cheio de nós, dos momentos, dos beijos, das horas tiquetaqueando no relógio antigo da sala de estar; e a borracha imensa passando com cuidado em cada memória que nos pertencia.
Seu discurso do quanto não servia para mim, prosseguiu. Afirmou centenas de vezes que o problema não era comigo, que eu ficaria bem e merecia alguém melhor. Como ele saberia disso? Se o problema não era comigo, então por que seria eu a perder alguém?
Eu desliguei.
Ele ligou novamente.
Disse que eu não podia evitar, mas dessa parte eu tinha certeza, as dores sempre me encontrariam. Perguntei se estava terminando comigo, e ele não foi capaz de responder, falou sobre estrelas, destino, beijos e combinações que não existiam mais. Vieram as lágrimas, os prelúdios de dor, a falta de ar que sempre intensifica a agonia. Eram sinais menores do que estava por vir: a tempestade.
Agradeceu pelos momentos juntos, porém meu coração só entendia “obrigado pelos anos de uso”. Eu queria pedir que ele não partisse, todavia meus olhos indicavam enquanto caminhavam pela casa, que ele já havia partido. Quis saber o que seria de nós, e ele apenas disse com certa impaciência, “não há mais um nós, meu bem”. Como eu poderia continuar sendo seu bem se estaria daquele dia em diante sozinha? Não se deixa um bem. Deixa?
Dessa vez, ele desligou, dizendo um adeus sem sentimento, quase como um alívio. Eu continuei sentada no sofá, as pernas trêmulas, os dedos apertando o fone com força, os olhos esbugalhados em meio a escuridão da madrugada. Era tão tarde para dizer adeus. Os namoros não deveriam acabar na madrugada. Eu queria chorar, mas faltava força. Ele partiu, mas por que eu era a única a sentir a ausência. E o cheiro? E a risada? Tudo se foi?
Ainda ouvia o som da linha ocupada do outro lado, sinal que ninguém me ouviria.
“Você não deveria ter partido, meu amor”. E minha voz se calou, mergulhando na densa mácula da escuridão.

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Faah Bastos
trintona, escritora nas horas tortas, estudante de Psicologia, professora e louca por bichos!🌟
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2 comentários em “OS NAMOROS NÃO DEVERIAM ACABAR NA MADRUGADA

  1. “Pois ele riu, e no instante que sua risada ultrapassou a distância telefônica, toda a casa se silenciou. Não havia mais o som da noite, as buzinas dos carros, os passos do inquilino do apartamento de cima, as campainhas tocando, o bolero no fim do corredor. Havia apenas a sinfonia da sua risada em mim.” Posso dizer que é exatamente assim que me sinto? Esse texto está total e completamente lindo! Me vi, em algumas horas, sentada, segurando o telefone e o ouvindo falar; mas também me vi sendo ele quando disse “O problema sou eu, meu bem, entende isso?”, porque eu sou assim, não sei explicar. É como se eu priorizasse e me importasse somente com os outros, e não comigo. Eu realmente não sei explicar. Esse texto realmente está muito lindo!

    1. Eu compreendo perfeitamente, mas preciso dizer que quando ele disse que o problema era ele e não ela, infelizmente, ele não acreditava nisso, estava apenas usando a desculpas mais usada, clichê demais. Ele nem sequer se deu ao trabalho de ser honesto naquele momento e citar motivos reais. Eu espero que você se torne aquela que irá desligar o telefone bem na carinha dele.

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