#slide, #textos

Você me descobriu em uma dessas últimas noites de abril…

30 de junho de 2018

Você me descobriu em uma dessas últimas noites de abril, quando o mês insiste em se prolongar um tanto a mais, sem pretensão de ser esquecido, de usar até o último segundo para se transformar em incrível. Ainda lembro de seus olhos afastando toda a escuridão da noite, criando uma camada de proteção contra os pingos tristes de uma chuva tímida. Daquele dia em diante fui incapaz de piscar os olhos e perder qualquer detalhe de sua íris. Eu bebo de teu olhar e num instante depois retorno ao seu passado. Eu acho que ainda dormia quando você chegou, não senti o turbilhão de emoções, estava castigada pela incapacidade de sentir, e no entanto, meu abandono e desastre não assustaram você. É como se, de alguma forma, você já estivesse preparado para compreender meus demônios.

Você aprendeu a enumerar minhas manias que insisto em carregar entre os hemisférios de nossa vida; os sorrisos, e até mesmo criou um manual comentado detalhando cada olhar. Você sabe que posso recitar meus melhores poemas apenas encontrando teus olhos. Você é como meus versos não escritos. Eu, por outro lado, sou desmedida, aflita e sufocada, me pego tentando recontar os dias que somamos juntos, as datas importantes, as viagens acumuladas, as vitórias conquistadas, como se a cada remexer em nosso museu de reminiscências fôssemos capazes de redefinir novos pontos essenciais para justificar o amor. Para mim, você já foi tantos sonhos, cobiças, flores e frutos, e não sei mais em qual livro antigo realmente te conheci. Suspeito que você já fazia parte de minha vida antes mesmo de nascer.

Foto tirada com iPhone 8 Plus e editada no VSCO.

Mas você bem sabe, meu amor, nos conhecemos em uma ruína de sentimentos e medos, e você se mostrou um menino que brincava de romance. Até hoje não entendo aquela tal cumplicidade que existia entre você e as estações. Admito que, por muitas vezes, desconfiei de sua natureza, meu querido, quem sabe você em tantas outras vidas tenha sido o Sol…, o que justificaria essa sua doce mania de insistir em iluminar meu caminho durante a noite. Você tem essa coisa inquieta que podemos chamar de: ingenuidade sentimental.

Já disse inúmeras vezes ao Tempo que devore as horas. Eu quero viver essa imortalidade que os loucos dizem, somente contigo; tecer a linha da minha vida na sua, sem pressa, sem medo, sem remendos. Unir em uma única linha meus pesadelos com seus sonhos.

O mundo já sabe que você me redescobre mesmo quando me sinto perdida. E mesmo eu não tendo dessas belezas leves que agradam ao mundo, teus olhos me encontram como se em mim existisse toda a beleza que você procurou. Esse seu dom natural de transformar o caos em poesia tem desequilibrado a minha lógica todos os dias nas últimas dez estrelas do amor. Daqui a pouco serão onze.

Sua alma me incendeia com a mesma alegria que a última festa de aniversário que tive: o desequilibrar dos passos na sapatilha nova, as rendas do vestido cobrindo meu corpo, o calor das bochechas, e o vento balouçando os enfeites e as cortinas. Hoje, não me recordo de nada além daquela vontade de tocar as nuvens e rasgar os céus. É bem assim que me sinto quando estou contigo, todos os dias. Quando você nasceu, eu já esperava por você, talvez tenha sido no mesmo instante que aprendi a contar as estrelas – eu já buscava por você em tantos outros mundos.

Eu demorei um pouco mais de vinte anos para esbarrar em seu brilho. Desculpa a delonga, precisei afundar e quebrar meu coração algumas vezes ao longo da jornada. Foi difícil. Pensei que não resistiria, mas bastou você surgir para que todas as feridas desaparecessem, como se nada antes de você tivesse qualquer importância ou força. Você se tornou meu soldado, reino e muralha. Tornou-se impossível eu perder alguma batalha. Todas as minhas vitórias têm o mesmo sabor que teus beijos. E mesmo assim, perdoe-me a ausência de vestígios de minha existência ao longo de seus anos antes de mim, foram tempos difíceis para almas solitárias como nós dois. Tropeçamos nas auras rasas de tantas outras pessoas para, finalmente, mergulharmos nesse abissal oceano de constâncias que temos. Eu precisei viver um tempo isolada do mundo, empilhando cartas que nunca enviei, bocas sem sabor, toques ásperos e sem nome antes de cair na imensidão de tua alma, navegar em tua íris.

Eu desconfio que você compõe meus sonhos, pois faz moradia em todos eles, sempre como a força que me resgata ou se afoga comigo, sempre na mesma proporção de alegria ou desastre. Nós sabemos que são meras questões de semântica, para nosso amor tudo se mistura, se funde e nada é jogado fora, até as quedas. Temos manias incontroláveis de permanecer ao lado do outro. Até confundo meu cheiro com o teu. Acho que somos um só habitando o mesmo mundo, dividido em dois corpos. Você se encontra em mim assim como resido em você.

Agora não estou mais sozinha. Não tenho mais medo do mundo. E quando sua boca encosta em minha pele é a vida em sua forma mais pura e simples – é você reconquistando fronteiras em mim. A cada instante me vejo renascendo, tua alma realinhando os cosmos e acendendo as estrelas – é a vida se renovando nas estradas de nosso amor. É chegada a hora de prolongarmos a nossa jornada de flores, meu doce e perfeito amor.

#poesia, #slide, #work

Ruminar

29 de junho de 2018

As primeiras horas do dia rompem as nuances sombrias de tua barba –
Sinais de descontrole, paixão e fúria.
Caminhos seguros.
Meus dedos resvalam as ondas corpóreas de nós dois.
Transição.
Corpo.
Sexo.
Os lábios maltratados do sono se estendem na comissura de tua boca –
Tropeço;
Bebo;
Embriago-me.
Laços de anos equilibram a memória.
Perco-me nos declives de teu pescoço e venço o mundo.
O ruminar de sons, eclipse, loucuras.
Pálpebras que se cerram.
Escuridão.
Tortura.
A entrega serpenteia os olhos.
Dois corpos.
Tua barba em meu colo, ventre…
Sorrisos.
Emudecemos.
O instante se dobra e não há mais murmúrios.
Silêncio.

#work

Sobre Amores & Partidas.

4 de março de 2017

Hoje ao voltar para casa percebi a solidão pintando as paredes com a nossa memória. “Quanta crueldade”, pensei. No entanto, fui incapaz de impedi-la. Apenas ocupei seu antigo lugar na poltrona – que recusou levar junto com minhas esperanças quando resolveu partir. Afundada naquele móvel repleto de marcas sobre sua existência e estadia em minha vida, chorei. Chorei não por saudade, culpa ou arrependimento; chorei sem determinar a natureza de minhas lágrimas; chorei porque gritar causaria um transtorno desnecessário aos nossos vizinhos. E ao chorar esvaziei-me quase por inteira. É um esforço estúpido andar pelas ruas carregando tanto sobre você, acumulando memórias, resgatando beijos passados (…); é desperdiçar minha força quando sou a única a lutar uma batalha já perdida.
Algo secou em meu rosto, talvez a ausência de sua voz rouca ecoando pelos cantos da casa, seu cheiro de homem ocupando os espaços aéreos, sua presença quente em nossa cama…
E a cada pincelada o futuro explodia.
Algo morrera no canto da sala. Nem as portas e janelas escancaradas seriam suficientes para expulsar o cheiro de nosso passado. Esta era a certeza que restara: aquele espaço estaria para sempre marcado por sua presença – você entrou em minha vida, em meu lar, em meu corpo, mudou as fotografias de lugar, registrou suas memórias e acrescentou histórias em minhas páginas. Mudou meu ambiente; mudou meu coração. E ao partir levou consigo as mesmas certezas que rodopiavam o ar quando nos beijávamos. Meu espaço mudou você e consequentemente havia transformado o lugar. Não me resta mais um refúgio. Estou desprotegida contra as ações do tempo, da espera, do incerto, dos holocaustos sentimentais, dos acidentes românticos. É capaz de tropeçar em alguma paixão efêmera enquanto espero o sinal abrir e seguir. E se eu tropeçar? E se eu cair? Para onde retornarei se em minha casa tudo me lembra você?
Dei-me por mim que não há mais você, não restou um nós. Só há cinzas, móveis e memórias.

#onephotobyweek, #slide, #textos

Sobre as coisas simples da vida.

4 de março de 2017

Fim de tarde de uma quinta abençoada.  #sky #sky☁ #sky_perfection #vsco #lgg4

“Talvez todos nós estejamos perdidos girando em nosso próprio eixo, ou pior, em alguma órbita invisível

– despreparados e solitários contornando a imensidão da vida, em uma busca frenética e selvagem para conseguir segurar na calda de algum cometa.
E, ao olharmos para a vida, temos a consciência de nossa insignificância. Somos (inacreditavelmente) pequenos.

Não obstante, desejamos mergulhar em sua imensidão e, quem sabe, sermos capazes de nadar.
Assim, seguimos perdidos, fragilizados e nos afogando em ondas turbulentas em alguma galáxia dentre tantos possíveis outros universos.
Um dia encontraremos o caminho de casa.”

#textos

Pequenas lições acadêmicas.

4 de março de 2017

Deixe-me compartilhar com os senhores algumas lições bacanas sobre a vida adulta no meio acadêmico:

(i) A profissão que os senhores escolheram/escolherão seguir não define/definirá seu caráter.
(ii) Fazer uma graduação não irá transformar ninguém em uma pessoa melhor. A bondade, sinceridade, empatia, reciprocidade, humildade são princípios básicos aprendidos ao longo da vida. Alguns são vitoriosos em tal jornada; outros, no entanto, fracassam tão jovens.
(iii) Ao falar em graduação, tenham em mente que nenhum curso é melhor que outro. Todos os indivíduos são necessários para sustentação/evolução da sociedade.

Por que cito tais lições? Porque é absurdamente comum, no primeiro semestre, as mentes mais fracas, fragilizadas, serem consumidas pela fantasia de “somos superiores aos demais”. Os senhores serão ludibriados por falácias sobre superioridade profissional e o quanto devem mudar SUAS PERSONALIDADES E ESQUECER AS PARTICULARIDADES (os detalhes que tornam cada um dos senhores únicos) para se encaixarem em um padrão de meros repetidores de conhecimento acadêmico.
As mudanças evolutivas de uma sociedade estão intrinsecamente arraigadas ao processo de conquistar o mundo sem tirar os pés do chão. Olhar demasiadamente para cima, acreditar que o conhecimento adquirido ao longo de um curso os tornará indivíduos melhores que outros, é olvidar cinicamente das ideias básicas do “conhecimento prudente para uma vida decente” – aquele que teve a oportunidade, seja por mérito acadêmico ou financeiro, não deveria usar o SABER (a ciência) como instrumento de opressão, tampouco para repetir discursos que pregam a supremacia dos privilegiados.
Para alcançar o ápice do saber é preciso, antes de tudo, SER.