#slide, #work

Para amar você não era preciso estar junto.

19 de maio de 2016

Trecho extraído do meu novo romance. 

(Este trecho não é nenhuma indireta ou relato pessoal do meu casamento – que anda muito bem, obrigada. É apenas um trecho extraído do meu novo romance. Para quem me conhece sabe o quanto adoro compartilhar pedacinhos apetitosos das minhas obras. É uma forma de manter o pessoal curioso e atualizado.)

Enquanto reorganizo meus pensamentos diante desta folha desbotada (a única que sobrou solta e perdida entre as caixas da mudança), a sonata Moonligh, de Bethoveen, rodopia pela sala, como uma criança envelhecida. Eu posso imaginá-la querendo bailar mas sem forças para o giro, o equilíbrio nas pontas dos dedos cansados. Quanta contradição – eu sei. Você dirá que estou atrasada demais para uma carta, fará questão de enumerar nos dedos as vezes em que fracassei na pontualidade sentimental. Mas, meu caro, era você quem sempre esteve atrasado em nossa própria história e fora incapaz de perceber que sua cegueira ia além dos sentimentos, das emoções, das memórias. Esta carta não é um adeus romântico como a priori pensei; trata-se de um relato mais aguçado das lições necessárias que aprendi, resumi e estou repassando para você como prova da minha gratidão por tudo o que vivemos um dia.

Devo desculpas de imediato, pois a natureza de minhas palavras podem ser amáveis, romanticamente belas, todavia, receberá o contrário, talvez até como ofensa. Só espero que não me culpe por sua falta de criatividade emocional, há aspectos que não conseguimos infligir ao outro sem que alguém saia machucado – e eu já carrego a minha cota de culpa.

Eu precisei traçar uma linha temporal do nosso amor, não queria cometer o erro de julgar suas tentativas de “dá um jeito em tudo” de forma errada, e para tal, relembrar se fez mais do que necessário. Ao longo de nossa jornada, você passou a acreditar que TER ALGUÉM era o suficiente para declarar como amor, mas nós sabemos – pelo menos quero acreditar que você seja capaz de entender – que TER uma pessoa não é um ato de amor, apenas mera escravidão. Não estamos lidando com problemas de semântica, meu bem. É a mais pura verdade. Amar alguém não lhe dá o direito de exercer sobre a pessoa amada nenhum tipo de contrato que impeça o outro de andar com seus próprios pés, sentir os batimentos de um coração plenamente LIVRE. E ao falar em algo pleno, deve entender que a plenitude não é imposta, tampouco pode ser conquistada pelo mesmo caminho daquele que nos antecedeu. A felicidade plena é buscável, e para obter sucesso é preciso diferenciar amor de posse.

Eu escolhi deixar você. Eu escolhi deixar você, não a mim, não o amor que sentia por você. Quando percebi que para amar você não era preciso estar junto, simplesmente me libertei – ao passo que também se sentiu livre por não ter mais a obrigação de me amar como resposta. Afinal, amar não é uma resposta, é a essência de tudo; não é o resultado, a solução; é o início, a fonte, o começo.

Ao bater a porta de casa e deixar todas as memórias naquele pequeno apartamento que dividimos ao longo dos anos, enfeitamos as paredes com relatos fotográficos de nossa felicidade efêmera, eu soltei você de mim, mas não me livrei de você. Pela primeira vez em anos, senti-me sozinha e não conseguia nutrir nenhum medo pela solidão. Estar só me fez um tanto mais livre e forte. Eu precisei abandonar aquele capítulo da vida para entender que o amor é equilíbrio, não recompensa. Para amar você, eu não precisava viver rodeada de brigas, consumindo frases como “o amor é um campo de batalha”, “é preciso lutar pelo verdadeiro amor”. Se é amor por que brigar? Se é amor, por Deus, por que devo lutar? Já é amor, consegue me entender? Se é amor, é, ponto final. Não há razões para insistir em ficar quando FICAR deveria ser a base de tudo. Lembro-me quando berrou para mim que nada dava certo porque eu era “louca demais”, “você está fugindo”, “pare de lutar contra nosso amor, ele é assim”, “você quer que eu te ame da sua forma”. Eu não estava punindo você quando deixei de acreditar em suas palavras. Para ser franca, quando passei a questionar suas alegações entendi que aceitar suas ofensas era a forma que encontrei para punir a mim mesma por amar alguém como você. Ou seja, ir embora foi a consequência de sua incapacidade de honrar meu amor por você.

Apenas consequência, e terá que lidar com isso.

Quando finalmente perceber cada soma de palavra aqui rabiscada, entenderá que o amor é capaz de renovar a si mesmo – sem ajuda, sem tentativas, sem tropeços, sem forçarmos, sem estarmos juntos. Só peço que tenha cuidado, não compreenda algo por mera obrigação, por me querer de volta em sua vida, e sim, porque ter consciência do real sentido irá transformar você em alguém mais leve, feliz e menos dependente.

Uma das grandes lições que aprendi com as quedas amorosas do nosso relacionamento foi parar de ter medo de perder você, passar a acreditar que o amor real é capaz de manter alguém ao meu lado por livre vontade. Não haverá briga, luta, batalha, cansaço. Será o que deve ser, apenas.

O amor nos liberta. Se for para viver amor preso, não é amor, é apenas sobrevivência.

Quando confessei, um pouco antes de partir, que minhas mágoas tinham criado um espaço imenso e branco dentro do meu peito acarretando a destruição da paixão que sentia por você, tudo se tornou uma imensa ofensa. Em sua cabeça limitada, ser franca era cinismo demais, como se a verdade saída de minha boca fosse motivada pelo desejo de vingança – machucar você como havia me machucado ao longo do relacionamento. Que pena, meu caro… Que pena! É lastimável perceber que ao pensar tal ato de mim era assumir (mesmo sem palavras) que o único capaz era você – provou em diversas situações. No passado, acreditei que suas palavras sujas tinham algum fundamento racional, eu, tola demais, doida demais, surtada demais, não entendia seu pensamento “progressista” – ideias de um homem muito além de mim –, quando eram só frases de um homem infeliz por não saber como reconquistar uma mulher como eu. Você dizia para mim o que achava de si. Recordo-me agora de um episódio em particular: você me acusou de não saber amar, que minha única qualidade era sufocar a sua vida. Levei um tempo, confesso, para entender que a ofensa é um reflexo do fracasso.

Agora tudo é passado, e, a música está acabando.

Não éramos diferentes porque éramos perfeitos. Jamais fomos qualquer coisa além de figuras românticas que viviam amores distintos. Não compactuávamos do mesmo amor, da mesma essência. Fingíamos bem, não é mesmo?

Deixo aqui meu alerta: é preciso respeitar o tempo e espaço do outro; o amor não justifica os meios; não se valida a dor com uma dose de amor-esmola.

Esta carta não é a minha última tentativa de ganhar de você um sincero pedido de desculpas, é apenas uma soma de lições, de reflexões sobre O amor – não UM. E eu não quero mais as suas desculpas, porque cada pedido seu de perdão é um ato de egoísmo, não é a mim que deseja pedir desculpas, mas ao seu próprio eu. Cada vez que machucou meu coração também feria o seu, só que era burro demais para perceber. No fim, eu segui a vida, mudei a rota, pulei do navio. Eu cansei de esperar o trem da consciência parar; resolvi seguir meu rumo com meus próprios pés. Eu encontrei a felicidade quando deixei de achar que só seria feliz ao seu lado. A felicidade não está escondida dentro do outro, mas em mim – plenamente em mim.

Você precisa pedir perdão para seu coração. E quando conseguir se desculpar verdadeiramente, entenderá que jamais precisei de suas desculpas para ser feliz.

Eu amei você intensamente. Eu já estive em seu lugar. Eu aprendi com as quedas.

Mas é hora de fechar toda a história e soltar as páginas no mundo. Eu espero que você consiga se tornar um alguém melhor, um homem real, um amor mais livre, pois quem você é no hoje, no agora, não me apetece mais. Cortei suas asas e estou voando sozinha para bem, bem longe de sua mediocridade.

Por respeito, deixo aqui esta carta.

Sem amor por você, mas repleta de amor por mim,

Aquela que virou andorinha-amor-adeus.

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