Por que meu útero é bombardeado com cargas de moralidade?

nouterus

Algumas semanas atrás fui abordada por uma pergunta da minha irmã mais velha, querendo saber quando eu iria ser mãe, porque estava passando da hora. Daqui dois anos estarei na casa dos trinta, e segundo os padrões estipulados invisivelmente em minha família, trinta anos é o limite final para se ter filhos. Mesmo explicando que ter filhos é sim um plano para o futuro, não estava interessada em ter por agora. Pensar em ser mãe está muito além de simplesmente abrir as pernas e ser fecundada. É uma questão de se preparar para a drástica mudança na rotina, tanto como casal, como mulher – e eu não estou pronta para ser responsável pela vida de outro ser humano. Estou casada há seis anos e já tivemos, claro, a conversa de ter filhos, mas nunca pensamos em correr o risco de “vamos ter e depois veremos o resultado”, afinal, estamos conscientes do resultado e nada nos agrada.

Posso ser vista como antifeminina, afinal, estou burlando todo o meu processo biológico. “É algo natural, Faah”. Sim, eu sei. Estudei biologia assim como você, no entanto, não preciso ter filhos para legitimar minha condição de mulher. É perceptível que não ter filhos ou não querer pensar em tê-los por enquanto é uma ofensa aos padrões da sociedade, é como negar seu propósito biológico, minha única funcionalidade aqui na Terra (e claro, estou sendo sarcástica).

Não vejo, por exemplo, ninguém atacando meu marido com os mesmos questionamentos. Lembro-me que ele fora a pessoa menos emotiva na situação, e disse que não planejávamos filhos porque ainda tínhamos algumas aventuras importantes para viver, outros mundos que desejamos conhecer e experiências a serem compartilhadas. Ter filhos iria impor um sutil limite de até aonde poderíamos ir. Mas claro, para os homens ser pai é uma opção, não uma carga biológica, afinal, como sabemos, os homens vieram ao mundo para transformar sua realidade e evoluir, já nós mulheres devemos apenas parir.

Vejam bem, não estou pregando que a maternidade não tenha suas maravilhas. Eu sei muito bem disso. Estou apenas defendendo o meu direito de esperar, assim como esperei o tempo que achei correto para perder a virgindade ou casar. Há centenas de outras mulheres espalhadas pelo mundo que abdicaram essa ideia de ser mãe e se concentraram em outros pontos de suas capacidades, e no entanto, não são menos mulheres do que qualquer outra. Entretanto, estipulou-se essa nova classe, as submulheres ­– aquelas que se “privam” de sua biologia para “parir” outras coisas.

Não obstante ser vista como uma sub-humana, ainda tenho minha opinião excluída ao tratar da educação de meus próprios alunos com a alegação “se você fosse mãe entenderia”. Em momento algum quero desmerecer a importância de ser mãe e como toda essa mudança acarreta em um determinado amadurecimento, todavia, não ser mãe também não me impede de ter uma lógica educacional capaz sim de auxiliar as mães em sua jornada, como por exemplo ensinando aos seus filhos que a política de machismo deve ser quebrada, como também a ideia de opressão sexual e limitação com base no gênero.

As razões que permeiam a falta de ter filhos ou tê-los estão além dos poucos fatores citados posteriormente; concentra-se unicamente na escolha individual.

Se por opção de não ser mãe por agora me torna uma submulher, o que exatamente é uma mulher que descobre não poder ter filhos? Uma exilada porque foi amaldiçoada com a incapacidade de cumprir a sua sentença na Terra? Uma coitada que veio ao mundo incompleta? O que a sociedade machista pretende fazer? Expulsá-la do convívio social, diminuir sua importância como mulher? Também podemos rasgar suas roupas, cuspir em sua face e lançá-la ao exílio – as possibilidades são inúmeras.

Por que o útero é bombardeado com cargas de moralidade? Em qual ponto meu útero se torna interesse social que definirá minha parcela de importância na sociedade? Burlar imposições biológicas não reduz a minha esfera feminina.

Vivemos nessa cultura de tornar plebiscito questionamentos pessoais, escolhas individuais. Meu corpo não é uma propriedade pública que será organizada de acordo com o bem comum democrático. Sou o que sou porque vivo fundamentada em minhas vontades, não o que esperam de mim. Não sou obrigada a pleitear meu direito a escolha (ter filhos, não ter, aborto, pêlos, maquiagem, peso…), a tenho porque sou um indivíduo como qualquer outro com direitos inerentes à minha existência ou condição social, cultural, econômica ou religiosa.

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Faah Bastos
Resido na casa de Escorpião, 29 fucking anos. Eu não tenho um blog. Eu escrevo em um cafofo virtual. Selfie é uma forma de contar as rugas – eu amo! Escrevo aqui porque ficar calada nunca foi meu forte.
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