Eu não preciso viver por uma causa; viver é suficiente.

Durante o curso de Direito, conheci uma professora cuja motivação educacional se centralizava na necessidade de valorar todas as ações dos indivíduos. Segundo sua tabela de valores, cada pessoa era medida pelo seu nível de comprometimento com o mundo através da utilidade de suas ações, logo, se você estivesse abaixo, por exemplo, na classe C, seria considerado um inútil.

A pergunta que nasce é bem simples: POR QUÊ?

Eu também me fiz a mesma pergunta e fui além, questionei-a sobre a necessidade de acharmos valor, importância, sentido em tudo o que fazemos. Ela rebateu alegando que “a vida precisa fazer sentido já que passamos por aqui rapidamente”, e foi além “o indivíduo precisa de sonhos para ter um porquê em sua vida, sem isso, seríamos animais”. É um pensamento radical e um tanto ríspido, além de ser desprovido completamente de romantismo. Sobre estarmos apenas de passagem, concordo, e exatamente por nossa estadia ser tão breve, não compreendo essa obrigação de sermos úteis, como máquinas programadas para determinadas funções. Se pensarmos partindo do pressuposto que nossa utilidade nos diferencia dos animais, a considero equivocada. Pensem comigo, as formigas, por exemplo, executam todos os dias a mesma tarefa, logo, se estamos sempre buscando uma justificativa útil para nossas ações não chegamos ao ponto de sermos considerados diferentes dos animais. Bem acredito que somos diferentes por termos essa capacidade de escolhermos ações que nem sempre possuem uma justificativa prévia, um sentido interligado ao mundo.

“Um dia gasto com futilidades é um dia perdido”, será que é exatamente isso? Não posso parar esse maquinário de sentido para dedicar-me a uma maratona de dorama, séries ou filmes ruins? Se parar um dia para ter folga porque quero ficar na cama pensando sobre a quantidade de batons que tenho, a cor das paredes, ou ler livros sem cunho intelectual, me torno, então, uma inútil perante a sociedade?

Eu não preciso viver por uma causa; viver já é o suficiente, pelo menos pra mim. Por que precisamos atrelar arbitrariamente uma razão a tudo? Por que devemos buscar a felicidade compartilhada pela sociedade? Se sou, então, feliz com minhas discrepâncias aos olhos dos demais sou inútil?

Estudar para passar em uma prova, não para apenas ter o conhecimento. Assistir o jornal para estar antenado com tudo que acontece no país e no mundo. Buscar o corpo ideal para ser saudável. Assim, criamos essas tais tabelas, estudos, que visam medir e julgar tudo ao redor de acordo com sua utilidade. Mas, quem cria esses padrões e índices? Quem pode dizer o que é ou não útil em minha vida? Se escrevo um romance, por que preciso publicá-lo? Por que optar por deixá-lo esquecido em uma das gavetas causa alguma estranheza aos demais, ou questionam minha qualidade como escritora? Por que tudo precisa passar por esse “pente fino” da valoração?

Será que estamos tão angustiados e medrosos com a possibilidade de apenas estarmos vivos sem propósito? E se após construirmos tanto, no fim não sermos nada além de pequenos seres em um planeta minúsculo em um dos mais infinitos universos que, possivelmente, um dia desaparecerá (mais uma vez, segundo algumas teorias) da mesma forma inexplicável que surgiu, sem precedentes, sem justificativa, sem uma resposta de sua existência ou de quem o criou ou criou-se sozinho…?

E quantos de nós se arrependeu por perder meses, anos, em um relacionamento fracassado, sem somatórios, sem compartilhamentos? Será que não percebeu que os anos gastos com quem não nos fazia feliz poderia ter sido:

A – Uma lição?

B – Uma demonstração de sua fraqueza, pois optou inconscientemente pela infelicidade porque tinha medo da solidão?

Bem provável que alguns continuem a cometer erros sucessivos, principalmente no amor, por medo e descuido de encontrar em si o universo que procuravam. Porque a mídia, a sociedade inteira, determina que precisamos nascer, crescer, encontrar alguém, reproduzir e morrer, nesse período consumimos, buscamos uma ideia de felicidade que nos foi emprestada, submetida através de propagandas, filmes, livros… Ou será, na hipótese mais vil, apenas estamos perdidos demais e incapazes de assumir que podemos sim, sermos apenas passageiros sem direito a definir o destino final; ocupantes de uma galáxia entre tantas outras, tão pequenos e inferiores diante a imensidão que achamos na “utilidade” uma forma de agregar importância à nossa viagem?

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Se pararmos para pensar em tudo o que deixamos de fazer apenas porque não se enquadrava nessas escalas de sentido, da funcionalidade de tudo o que escolhemos, seremos capazes de perceber que a felicidade tem formas distintas, afinal, somos todos diferentes. Não ter uma razão para existir não furta a glória de sua existência. Por que ocupamos o planeta Terra? Por que estamos aqui? Nem a religião, nem a Ciência, conseguiu ser clara, coesa, objetiva e imparcial quanto a resposta. Logo, somos inúteis diante o sentido que pretendemos associar a tudo.

A visão utilitarista deseja compactar toda a vida em uma equação, onde ser útil é algo louvável, é ter sentido e justificativa para sua existência. Caso não estejamos enquadrados, nossa existência é supérflua.

Não estou aqui escrevendo que precisamos retirar o sentido de tudo o que fazemos, mas nem sempre buscar um valor adequado ao que pretendemos ou queremos. Às vezes, o que me faz bem pode não ter sentido nem pra mim, tampouco para o mundo. Se estou beirando o erro, caminhando para o limbo daqueles que se tornaram inúteis para a sociedade, não sei. Entretanto, pretendo continuar aplicando costumeiramente a ausência de razão em uma parte significativa de minhas escolhas, porque não quero olhar pra trás, ao passar aquele filme com minhas memórias, constatar que gastei meu breve/longo somatório de anos sem dedicar minha vida a ser apenas vivida, sem estratégias mirabolantes, buscas incansáveis pela felicidade vendida em suaves prestações, ou alcançar as metas estabelecidas por terceiros.

Eu quero desligar o botão de “um propósito” para a vida, apagar o painel de “objetivos a serem alcançados”, porque, só algumas vezes ou mais que isso, viver assim, buscando justificativa para tudo, é cansativo. É andar, andar, buscar, buscar, e nunca se sentir satisfeito. Essas novas gerações alcançam seus objetivos em tempo recorde, o que explicaria a tempestade de seres desnorteados procurando um sentido para sua existência, a necessidade cada vez maior de autoajuda, de especialistas formados em “dá pitaco na vida alheia”, entre outros. Estamos nos resumindo em desbravadores de montanhas cada vez mais altas, sempre impondo novos desafios e necessidades. Lacan já dizia que “as fantasias precisam ser irreais, os objetivos eternamente ausentes”, porque jamais estaremos satisfeitos com a utilidade atribuída a vida, aos sentimentos, sensações, as relações…

E agora lanço a questão para vocês:

“Por que a vida precisa ter um sentido?”

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Faah Bastos
trintona, escritora nas horas tortas, estudante de Psicologia, professora e louca por bichos!🌟
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