Procrastinando com a normalidade

tumblr_mr3pqymGta1qbd7r2o2_r5_400

Ah, meus caros…

Ando vivendo de falências, como se as poucas vivacidades colecionadas ao longo de 27 anos se transformassem em mera poeira sobre as fotografias desfocadas. É triste, eu sei, mas restou-me apenas o lamento das lágrimas não choradas e o medo de perder a lógica. Passo o dia a observar uma rachadura no teto, recém pintado, da minha casa. Procuro incansavelmente ver beleza naquele traço desconexo, e nada vejo. Perdi, confesso, a poesia. Consequentemente, hei de ter perdido muito mais.

O som da cidade, a cantoria de pássaros invisíveis, o barulho desnorteante da serra a cortar uma barra de ferro, os carros de propaganda, o tilintar nervoso do telefone, a campainha que não me esquece e a poeira… Ah, essa poeira desgraçada que domina meus móveis. Tudo isso me desespera, cria um bolo angustiante na esfera da minha garganta e me cala. Sim, meus queridos, estou calada. Caí na vida sem sentido, repetindo valores, palavras feitas e nada novo me atinge. Eu lancei a poesia em algum barco de papel e deixei no mar da Pituba. Que lástima… que lástima… Sou igual à todos. Escapou entre os dedos a minha misericórdia, o último grito de poder. Há milhões melhores por aí, e eu aqui enfeitando árvore de natal, olhando a profundidade da rachadura que teima em aumentar. Sou uma dona de casa – tarefas domésticas, roupa à espera. Minha poesia não encontra espaços entre uma normalidade e outra. É o fim. A tragédia se alastrou, consumiu os meus livros, assassinou cada um dos meus personagens complexos; sobrou apenas o vazio, as cadeiras espalhadas pela sala branca que ninguém visita, as ligações não recebidas, as vozes citando palavras que não compreendo. Restou-me a desgraça de ser normal e me odeio por aceitar a parte simples da vida. Eu fui consumida, meus amigos. Consumida pelo cotidiano, pelos transeuntes com seus rostos pintados, olhares acusadores e as mentes carregadas de nada.

Ó desgraça de vida!

Eu me tornei mais uma a ocupar as filas dos mercados, a ver o jornal enquanto almoço… Eu me perdi, e ao saborear a normalidade, me quero de volta a loucura, a Hora Morta. Eu quero trair as minhas necessidades ao escrever sobre o mundo, mas me recusar a ser parte dele.

Coloquem em meu caixão uma fita preta, não em luto por mim, mas pelas poesias que deixei de escrever. Meus romances…! Deus! Meus romances! Por favor, desliguem o mundo, calem os barulhos… Eu quero escrever!

Gostou? Compartilhe!
Faah Bastos
trintona, escritora nas horas tortas, estudante de Psicologia, professora e louca por bichos!🌟
Post criado 163

2 comentários em “Procrastinando com a normalidade

  1. Vim aqui esperando o layout preto, e me surpreendo com essa claridade. Conclusão? Gostei. E muito.
    Eu ando desmotivada com a vida. Bastante. Sinto que preciso mudar em muitos aspectos, mas tenho preguiça de lidar comigo mesma.
    Sim, o problema está em mim.
    Estamos aqui no mesmo barco.
    Abraços.

  2. “Procrastinando com a normalidade”. Admito que de vez em quando eu me sinto assim (ou melhor, sempre me sinto assim e de vez em quando, dou uma pausa)
    Li outro texto seu no facebook e me deparei com uma frase perfeita que me descreveu, algo mais ou menos assim: “não queremos tranquilidade, queremos caos.” É sempre assim. Eu levo uma vida tranquila, tranquila fora e dentro de mim, navegando em mares calmos, sem ondas, do jeito que eu quis. E de repente eu acho estranho. Falta um drama! Não exatamente um drama pra se viver, mas falta uma tempestade, um caos que me faça me sair do ócio, me faça acordar. Eu estava assistindo um episódio do meu seriado preferido e li: “as coisas precisam ser complicadas para serem reais?” Talvez, sabe? Tudo calmo e fácil parece tão… surreal. Muitas vezes preferimos a loucura, a complexidade, todo o esforço que nos faça pensar: Isso foi real. Não sei, ás vezes me sinto assim. Rotinas e normalidades, apesar de nos provar que vivemos uma vida tranquila (graças a Deus!) podem acabar nos engolindo, sabe. Talvez preciso de um meio termo. Eu quero caos e calmaria. Eu sou, caos e calmaria.
    Beijos, minha querida.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.

De volta ao topo