Quando finalmente amei.

mnbh

Enquanto eu lia o romance Amor, de Isabel Allende (e adianto que TALVEZ eu venha a escrever algo sobre o mesmo futuramente), me peguei revirando as malas abarrotadas de lembranças na busca do momento exato em que me apaixonei, deixando para trás alguns vestígios cruéis da inocência, para dar espaço aos sinais vívidos e tão abertamente esperados da mocidade que brotava entre rochas. No entanto, mesmo após uma longa madrugada regada por muito café e a voz resoluta de Edith Piaf, deparei-me com a conclusão que o amor bateu uma única vez em minha porta, provido de malas, trapos e retratos antigos para ornamentar os cômodos do meu lar. Revirei-me incrédula com tamanha constatação, e me lancei – sem receio de encontrar uma verdade assustadora – à jornada quase que inexplicável a fim de formar uma lista contendo os nomes de todos os rapazes que despertaram em mim algo que poderia ser considerado como amor – até mesmo os mais distantes, aqueles que tiveram uma curta estadia em minha vida, contribuíram para enumerar os nomes. Como era de se esperar, dei início com o nome do meu primeiro namorado, e fora imediato a descoberta que jamais cheguei a amá-lo, não como eu acredito que venha a ser o amor, e mesmo jovem, poderia tê-lo sentido como sinto hoje. No entanto, como toda boa história, o amor, ou melhor, o namoro era proibido, meu pai acreditava na ausência de maturidade em mim para lidar com uma responsabilidade tão imensa como cuidar de meu coração e das investidas abarrotadas de testosterona do jovem rapaz. Hoje, percebo que não era de assustar que ao sermos descobertos e com a proibição evidente, eu tenha escolhido desistir do, naquele momento, meu grande amor – em vias práticas seria o primeiro amor, ou até o grande primeiro amor. No tanto, percebo que não poderia amá-lo como, inocentemente, acreditava ser real, na primeira barreira, recuei porque pesei o que mais tinha de valor para mim, e ele, mesmo sendo um rapaz que cuidava de mim, realizava todos os meus caprichos, não havia conquistado um valor tão superior a minha liberdade e a confiança que jamais gostaria de voltar a perder dos meus pais.

Claro, claro, eu entendo que muitos estão me criticando enquanto devoram as linhas, alegando que não disponho de motivos reais para alegar que não era amor, porém, devo alertar os meus queridos leitores da existência de um abissal problema em toda a história do amor proibido, eu não era com ele a mesma pessoa que habitava dentro de mim. Deixe-me explicar: quando estava em sua presença, presa em seus braços morenos, ardendo de desejo, e perdida na imensidão daquela boca que arrancara de mim o primeiro beijo, eu deixava quem realmente era/sou escondida atrás de todas as camadas de ruborização e curiosidade pela descoberta dos primeiros toques da carne – digamos. E talvez, por não conseguir ser eu mesma, não senti a ausência imensa do calor dele, porque eu procurava muito mais. Arder-me inteira o sol já fazia, amor deveria ser bem mais que o aumento desordenado da temperatura corpórea, pois caso o resumo se centralizasse nesse ponto, a febre teria sido minha amante muito antes de me sentir moça. Confesso, no tempo em que ocorreu, sofri, sofri porque sentia algo por ele; sofri porque achava que era meu direito vivenciar as maravilhas do namoro; sofri porque também queria andar de mãos dadas e ser beijada na porta da escola. Mas sobrevivi. Sobrevivi porque com o passar dos dias, constatei que as minhas pernas, antes falecidas pela separação, eram capazes de continuar a dar passos, meu coração que batia fraco, voltara a bater no mesmo ritmo de antes, e o mundo ao meu redor não deixou de ter as cores que já conhecia. Eu estava viva, talvez não tão plena, mas ainda estava viva, e podia voltar a soltar quem eu realmente era/sou sem pensar se estava incomodando alguém, ou afastando um namorado por ser estranha.

Se me permitem, vou deixar uma dica muito importante e essencial para quem tem dado seus primeiros passos no amor – ou para aqueles que se perderam no meio do caminho e acham que a volta é inexistente –, vocês precisam ser quem realmente são. Eu sei, soa tão clichê e óbvio que devem rir de minhas palavras, mas pensem comigo, vocês liberam todas as doses de quem são para quem amam? Deixam ser vistos com olhos verdadeiros, enumerando as suas virtudes e defeitos? São sinceros, antes de tudo, com o seu coração? Escrevo porque sei que as minhas piores quedas deveram-se ao meu medo de assumir quem sou por completa. Eu queria fazer a outra pessoa feliz, e acabava por mudar, me tornava quem eles queriam, e deixava de ser quem eu era. Um erro, eu sei. Um erro imenso que me custou marcas bem profundas, o que explicaria eu jamais ter encontrado o amor mais de uma vez.

Em resumo, deixei o pobre do meu primeiro namorado com o coração em frangalhos, e ganhei dele um rancor tão profundo que após quase 15 anos, ele não me perdoou. Se me vê passando na rua, opta por atravessá-la, desvia o olhar, e deixa claro que ainda há uma densa camada de dor naquele coração.

Depois do primeiro namorado, vivi uma série (por pouco interminável) de decepções românticas. Conheci todos os tipos de cafajestes possíveis. Dos atirados e explícitos, até os piores, os mais calmos que se diziam amigos, mas no fim queriam conquistar somente o corpo. A maioria se perdeu em minha memória, pelo menos não me recordo com clareza do nome, tampouco do rosto, tenho somente flashes e surtos de reminiscências – utilizadas apenas para firmar o quanto eu fui correta em ganhar distância de cada um deles. Provei distintas bocas de donos ainda mais distintos, tudo em busca de um beijo que fizesse, não apenas meu coração bater por me ver nos braços de um homem, ter a certeza que estava estregando os meus lábios a um bom jardineiro. Ah, se tudo na vida real, essa do dia a dia, fosse como nos livros, teria encontrado o amor no primeiro precipício. Mas o amor não precisa, necessariamente, ser uma queda, principalmente dessas visando impossibilitar que volte a se reerguer. O amor há de ser, assim penso, uma escada, e a cada degrau vencido, dia após dia conquistado, chegamos mais e mais perto da plenitude. E claro, não é possível pensar em amor sem as suas demonstrações e provas físicas, e nesse ponto encontramos o beijo ­– doce alimento dos amantes, cúmplices, daqueles que anseiam pela eternidade. O beijo – quando se ama – tem um sabor de segurança, prolongamento da história, e não se acaba (sempre) em mãos que vacilam, muito pelo contrário! Ele se solidifica em seus lábios, petrificando o sentimento, impossibilitando que outras bocas voltem a passear nos lábios que conheceram o amor – assim penso.

Os anos se passaram, as perdas vieram – como quase todos sabem, perdi meu pai –, crescer se tornou uma necessidade em prol da sobrevivência em um mundo que jamais me fora apresentado nas páginas românticas de Érico Veríssimo, de Assis ou Drummond (Hum, agora me questiono, se tivesse lido Jorge Amado, poderia ter encontrado vestígios de um mundo cruel e desigual. Talvez dessa forma, a vida não se mostrasse tão indiferente a minha existência – mas isso é assunto para outro post!); e os ditos amores se acumularam em minha lista, preenchendo-a rapidamente, nem sempre com nomes, e sim com características para amarrar a ponta da memória em cada uma delas. Não me recordo de sentir-me amada, e eis um motivo bem evidente da minha pobreza de boas recordações. Enfileirei rapazes em minha história, porque buscava desesperadamente alguém que me protegesse, ao tomar-me nos braços me levaria para um mundo distante, conheceria o sabor adocicado da plenitude romântica, e finalmente, me entregaria ao florescer da minha feminilidade entre mãos de amor. No entanto, a verdade é que me tornei mulher pela urgência e burrice, farta das loucuras e acusações, acreditei – estupidamente, diga-se de passagem – que era possível deixar todos os encalços da vida quando finalmente fosse mulher. Eu de longe nem imaginava que ser mulher estava além da ideia arraigada ao corpo, e fui conduzida, não com força, porém sem muito entusiasmo, ao sexo. O amor passou bem longe, como se habitasse terras longínquas, e meus pés calejados de tanto batalhar diariamente, se recusavam a trilhar rotas que beirassem o sentimento que por tantos séculos povoou – até hoje – os mais belos poemas. A experiência fora tão indiferente que me questionei se o sexo era apenas “aquilo”, reduzido a ser somente, E SÓ, um calar de palavras e o encontro mordaz dos corpos. Não posso dizer que fora de todo ruim, na verdade, tenho a lembrança que foi rápido e insignificante. Perdi o interesse, e como consequência, nas ocasiões posteriores que voltou a ocorrer – ainda com o mesmo homem – deixei as minhas vontades escondidas, e desenhava em meus lábios um cruel sorriso de falsa satisfação. Eu fingia, e ele, cruelmente, acreditava. Não demorou muito para enquadrar a minha última decepção, tive o relacionamento terminado através de um comunicador instantâneo. Vejam só, tal atitude vinda de um homem que se dizia responsável e maduro para assumir as suas falhas fora, no mínimo, infeliz e vergonhosa. Despedaçada porque furtaram a minha última esperança de encontrar o amor, emergir de um relacionamento desequilibrado, no qual eu sempre estivera presente, disposta, porém evidentemente desacompanhada por quem alegava muito me querer bem.

E quando, meus caros leitores, me perdi completamente e estava disposta a jamais ser resgatada, desbravada ou que proclamassem sentimentos em mim, fui por Rafael encontrada, e nunca mais visitei a solidão. Mas antes, contudo, que torçam o nariz, revirem os olhos e aleguem que apenas estou a vangloriar o meu presente, deixem-me escrever um pouco mais, e justificar as verdades que me lançaram, sem pena, para o amor. A primeira vez que senti um beijo que me segurava na terra e ao mesmo tempo me fazia caminhar por mundos paralelos, foi com Rafael. E quando o meu corpo ardia, minha cabeça girava entre versos e sonetos, ele continuava ali, parado em minha frente com olhos de quem declamava poesia em silêncio, com receio de despertar as minhas desconfianças, ou que eu acionasse as memórias sofridas que haviam construído ao meu redor, uma membrana impermeável de receio. No entanto, com tal zelo e dedicação, ele enfrentou os dragões que protegiam meu coração, desfez com cuidado, as magias que me distanciavam das verdades, e ao tomar-me para ele libertou quem realmente sou, e pela primeira vez, me amei e fui, torrencialmente, amada. Hoje, escrevo alertando ao mundo os tropeços românticos que podem pegar qualquer um de surpresa, e confessando sem medo de ser criticada, que somente encontrei o amor quando me permiti ser aceita por quem sou, sem medo ou quedas que sacudam meu universo, e promessas quebradas. O amor me encontrou e é por mim, potencialmente, amado.

P.S. – O sexo deixou de ser insignificante. Tomei gosto (ui!) e me entrego a cada lufar dos dedos do meu amado, dos lábios sinceros que correm livre pelo território epitelial do meu corpo. E descobri que o sexo é uma demonstração física dos batimentos acelerados que envolvem o meu coração a cada instante que o nome daquele que mudou a minha vida, se faz presente em mim.     

Gostou? Compartilhe!
Faah Bastos
Resido na casa de Escorpião, 29 fucking anos. Eu não tenho um blog. Eu escrevo em um cafofo virtual. Selfie é uma forma de contar as rugas – eu amo! Escrevo aqui porque ficar calada nunca foi meu forte.
Post criado 231

6 comentários em “Quando finalmente amei.

  1. Os entremeios até a sua plenitude amorosa e sexual foram visivelmente necessários. Todos os processos construíram em você a maturidade emocional suficiente para perceber quando seus exércitos recuariam.
    Uma boa leitura sobre sua experência. Belos argumentos.

    1. É um prazer ter a sua presença por aqui, Brunno. Fico agradecida por dedicar um pouco do seu tempo para a leitura dos meus frangalhos românticos. De certas quedas há de encontrar inspiração, não é mesmo? O que explicaria a minha insistência em continuar escrevendo.
      Abraços.

  2. Acredito que poderemos até viver sem amor, entretanto, viveremos mas deixaremos de existir. Tua sinceridade é linda, profunda. E teu amor imenso. Parabéns Faah.

  3. Oi Faah!

    Algo me dizia que você iria gostar deste livro. Ele me fez pensar bastante também. Quando li, pensei no papel da mulher da sociedade, do papel da mulher na família e das minhas reações a todas as ínfimas tentativas de amar.

    Hoje, quando olho para trás, percebo que amei duas vezes, de forma completamente diferentes. Considero estes dois amores dois grandes marcos na minha vida, porque eles me transformaram em quem sou hoje. Os (poucos) outros, foram paixonites febris de uma adolescente sonhadora.

    Acho lindo como você sente o Rafael – e como dá para perceber que ele te sente também. Digo sente, porque as palavras são vasos que se enchem, ou não, de significados com os nossos sentimentos. Seu vocabulário rico esbanjam o sentimento que é maior que o seu peito e o dele: o amor que vocês sentem um pelo outro é a mais profunda e rica poesia.

    Lembro-me do seu primeiro (?) namorado e da menina que você era naquela época (uns 10 anos atrás?). Agora, é lindo perceber a mulher que você se tornou! Definitivamente, a felicidade me invade por ver que você achou o seu par! ^^

    Já conversamos muito sobre isso, mas acho que o assunto é tão infinito quanto o próprio amor! 😀

    Um beijo,

    http://algumasobservacoes.blogspot.com.br/
    http://escritoshumanos.blogspot.com.br/

    1. Oi, Fê!

      Confesso que esperava outra coisa do livro, eu bem achava mesmo que era um romance e não uma reunião de algumas cenas de outros livros da Allende, no entanto, não sofri nenhuma decepção. Gostei, achei interessante o prólogo, toda a conversa que houve entre a autora e seus leitores, achei muito válido. E foi exatamente tal conversa que despertou a vontade de escrever sobre o que senti, analisei a cada palavra da Allende.
      Digo que foi uma experiência fantástica, porque me fez catar algumas lembranças, abrir baús de reminiscências e reviver doses absurdas de sentimentalismo. Eu adorei.
      Agradeço, claro, todo o carinho e a atenção, sem contar as palavras doces que teceu em relação ao meu amor. Fico muito grata.
      Beijos, minha doce e eterna menina.

Deixe uma resposta

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.

De volta ao topo