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Sobre todas as coisas que deixamos em branco: a traição.

17 de dezembro de 2013

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(Retirado do romance “Sobre todas as coisas que deixamos em branco”)

(…)

E diante de todas as minhas declarações e monólogos poéticos que abarrotam a alma de homens como eu costumava ser, descobri, através da própria confissão de Sofia, que ganhara um par de chifres. Paralisado, ainda segurando o pedido de casamento que havia sido preparado por longas semanas, me peguei comovido pela própria desgraça, e a outra parte pelas palavras arrazoadas do meu discurso sobre amor, fidelidade e prolongamento. “Eu dormi com outro homem”, sem nenhum preparo prévio, a confissão jorrara por aqueles lábios tantas vezes beijados pelos meus. Seu corpo estendido sobre a cama, com uma única proteção para a sua vergonha mais deliciosa, deixando ­– para enlouquecimento gradativo dos meus instintos – todo o resto do corpo, como suas coxas lisas, macias e pálidas como a luz da lua sob a areia da praia; seus seios tão onipotentes perante o ato simbólico da respiração, provocando arrepios pelo meu corpo e o deslizar lento da ponta da língua entre os lábios, imaginando-a correndo livre pelos montes enrijecidos, mordiscando-os com certo carinho que me excitaria de todas as formas possíveis, tornando-me mais certo da vontade perturbadora de possuir aquele corpo juntamente com a sua alma.

Por alguns minutos, vi-me atrelado as possibilidades de reconquistar minha honra destruída por uma manta de cornudo, vociferei palavrões e ameaças de morte para todos os lados do quarto. Um coágulo de perguntas se formava aos poucos, enquanto uma embolia me dominava. A mesma cômoda que, agora, guardava as cartas de Sofia, naquele momento fora lançada para o lado, levando ao chão os porta-retratos que com muito carinho ela colecionava – alguns com molduras feitas à mão, compradas em nossa mais recente viagem à Lisboa. Ainda conseguia lembrar do sorriso descarado rasgado no rosto ruborizado de Sofia ao saltar em meu ombro esquerdo, implorando com uma voz sussurrada, carregada de dengo, que precisava de mais porta-retratos porque nosso amor necessitava de belas molduras. E naquela noite, espalhados pelo chão (um deles vítima do meu sapato), representavam a imagem real do fim trágico do belo amor que eu acreditava viver.

Um vento inesperado cortou as cortinas e rodopiou pelo recinto, e minhas mãos trêmulas se perdiam nas madeixas escuras e tristes dos meu cabelos, e Sofia, determinada a unir os cacos de vidros dos porta-retratos quebrados, tentando arrumá-los de volta sobre a cômoda reposta em seu devido lugar, como se aquela tarefa apagasse a fúria que se alimentava de todo o amor despedaçado, como se ela tivesse algum poder de apagar o peso e o gosto amargo da sua confissão. Me lancei contra ela, munido do que eu achava ter direito. Eu precisava saber o nome dele. Crescia dentro de mim a lógica estúpida presente nos homens cegos pela vergonha, que ao saber o nome do desgraçado responsável por violar a minha mulher, diminuiria a minha dor ou tristeza. Ela agitava as mãos, e naquele ato atrapalhado e inesperado – constatei somente agora ao relembrar as desgraças –, que Sofia não estava preocupada em afastar a minha raiva, e sim em proteger os retratos, e quando finalmente percebera que um ficaria faltando em sua coleção, mordeu o lábio inferior reprimindo uma dor aguda e um choro repentino, pois ali estava o nosso espaço em branco, uma lacuna em nosso amor, uma cratera que jamais seria fechada. Não apenas eu tinha quebrado o nosso retrato como também transformado os anos de dedicação em migalhas, deixando claro que não haveria desculpa capaz de fazer acreditar que ainda seríamos novamente felizes. Sacudi aquele corpo fraco, continuei a exigir o nome do ordinário, e num sopro frio e quase inaudível, o nome “Fernando” ganhou vida.

Eu queria matá-lo. Sentia em meus dedos, os vestígios de demônios desconhecidos que por muito tempo se mantiveram sonolentos, ou completamente adormecidos ao longo de dez anos de um relacionamento. Fora inevitável não lembrar de todas os momentos em que precisei controlar as feras sombrias e deixar que ela tivesse a razão e conduzisse o nosso amor da forma que lhe agradava, e mesmo assim, mesmo sendo servo de seus caprichos, ela optara por me trair, excluir qualquer respeito ao meu sentimento, aos anos de dedicação, e abrir as pernas para que outro pudesse lamber aquela vaca estúpida e maldita. A morte seria pouco para reconquistar a minha honra, ele precisaria ser humilhado, disciplinado pela corrente da opressão e do regime seguido por homens cuja vida se tornou uma repetição da normalidade, distante das histórias românticas sempre lidas em um livro.

Eu não era mais o Baltazar Galeano, homem forte na casa dos seus trinta e alguns anos, e sim, o traído, o desmembrado, o infeliz que tinha desperdiçado sua mocidade para amar a doce e incontestável Sofia – lançada de volta a cama por um solavanco de raiva partindo de minhas mãos. Meu erro. Meu erro e tenho consciência disso. Se eu tivesse, ao menos, lembrado dos detalhes expostos por Proust em “À Sombra das Raparigas em Flor”, jamais teria desgastado dez anos na exaurida tarefa de fazer feliz uma mulher cuja vontade de me trair se fez, finalmente, presente. Eu estivera apaixonado por uma Sofia que não reconhecia mais, e a minha percepção tardia da traição só viera à tona devido a confissão cretina daquela mulher, não estava associado ao meu déficit de atenção aos detalhes, e sim porque alimentava a imagem purificada de uma Sofia presente apenas em meus pensamentos, pois se eu a amava, dedicava flores ao nosso cotidiano, era de sua obrigação honrar meu nome, e consequentemente preservar a minha testa sem chifres. Mas o contrário existira em mim, eu a julguei com base no momento, na loucura de uma pista de dança quando ela se irrompeu em meio a multidão sacudindo os braços finos e bronzeados. Como ela exalava calor naquela noite. Eu, um idiota no último ano da faculdade, criei a pintura perfeita de uma Sofia madura, diferente das poucas mulheres que haviam passado em minha vida, eu a julguei de acordo com o clima, o grupo de amigas que a seguiam como devotas. Eu cometera o erro da atribuição errôneo que eu dera a Sofia, consequentemente, ao nosso amor. Eu pintara, sem nenhuma preocupação, um quadro isolado, com tintas dispersas dos sortilégios presentes na realidade romântica.

Eu queria amaldiçoá-la, e o fiz. Reprimi qualquer desejo insano de esbofetear aquela face delicada, manchar o vermelho vibrante em sua boca, e marcar seu corpo pecaminoso. Eu não podia. Eu não podia arregaçar as mangas, colocá-la em meu colo e bater com ódio em seu traseiro torneado. Tinha que me conter. No entanto, eu exigia uma explicação, um motivo, um acontecimento que passara despercebido a mim, capaz de justificar a pulada de cerca – o fogo na vagina daquela mulher.

Não demorou muito para que eu estivesse dominado pela dor do desgosto, e ao abrir novamente os lábios, libertei o choro infantil e despedaçado, chorando cada centímetro do meu coração feito em minúsculas partículas. “Foi apenas uma casualidade, está tudo acabado agora, podemos seguir em frente. Um caso, Baltazar, um caso e isso não mudará o que sentimos um pelo outro”. Vasculhava maneiras de extirpá-la do meu lado, arrancá-la com uma foice do coração e matá-la gradativamente ao longo do tempo. No entanto, era preciso antes de tudo, matar a mim mesmo, como um suicídio calculado, e assim, mais penoso do que uma oscilação inesperada das estações do ano, mais forte do que simplesmente deixar de amá-la, eu teria que morrer.

**

(Para aqueles que ainda não sabem, “O Doce Veneno da Ambrósia” passou por algumas mudanças. Eu, na minha posição de inquieta, tive um sobressalto a pensar em um novo título para a obra. Hoje, posso afirmar que as minhas loucuras e sobressaltos transformaram um romance que eu já gostava em algo totalmente novo, passei a ter um caso de amor imenso por eles.)

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4 Comments

  • Reply Vitória 17 de dezembro de 2013 at 20:29

    Baltazar, Baltazar… “(…) mais forte que simplesmente deixar de amá-la, eu tinha que morrer.”
    Intenso demais. Demais. A gente sente a dor dele. Intenso demais…

    • Faah Bastos
      Reply Faah Bastos 12 de janeiro de 2014 at 11:17

      Esse nosso Baltazar causando tormentas nos leitores e vivendo loucuras.

  • Reply Fernanda Rodrigues 2 de janeiro de 2014 at 18:05

    Faahzuda, que delícia de texto. Me senti como se eu fosse um dos móveis, com a respiração presa, vendo toda a cena acontecendo diante dos meus olhos – sem poder fazer nada para controlar e contornar a situação.
    Deu-me dó, deu-me pena. Quem já sofreu por amor sabe o quanto isso é difícil. Por outro lado, ninguém morre de amor. Então, isso de certa maneira me consola.
    Quero muito me deliciar com um livro seu. Espero que este momento chegue em breve!

    Um beijo e um produtivo e feliz 2014,

    http://algumasobservacoes.blogspot.com.br/
    http://escritoshumanos.blogspot.com.br/
    http://nossocdl.blogspot.com/

    • Faah Bastos
      Reply Faah Bastos 12 de janeiro de 2014 at 11:16

      Fê, desculpe-me pela demora, mas estive longe da internet por um tempinho razoável, tinha projetos para concluir. Então, obrigada por gostar do texto que postei, é um trecho de um dos capítulos do meu romance “Sobre todas as coisas que deixamos em branco”. Fiquei muito feliz por te ver por aqui. Obrigada mesmo. Beijos.

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