Somos construtores de pontes.

 

Foto autoral. Câmera iPhone 8 Plus.

Eu sempre acreditei que a vida era breve. Eu via o tempo empurrando os ponteiros do relógio enquanto eu continuava parada — era sinal que a vida seguia mesmo quando eu não fazia parte dela. Faça este exercício: sente-se isolado de tudo, exceto do relógio; veja o tempo passar e note sua imobilidade diante desse fascinante fenômeno. Notará, é claro, que a vida seguiu sem você — os carros nas avenidas continuaram a buzinar, os transeuntes atravessaram as ruas, se chocaram com tantos outros desconhecidos; os ruídos da vida venceram as barreiras da distância e alcançaram você. Assim como eu, você também sentiu o peso de nossa insignificância. Por um breve momento, percebemos que a vida é um mecanismo magnífico maior que nossa consciência. Existe em tudo, mas não a partir de nós; Está no mundo, mas não depende dele. 

Ao mesmo tempo, nos deparamos com a assustadora revelação que não podemos esticar a vida, embora nosso tempo seja suficientemente longo e alguns tenham transformado isso em projeto de vida. (Engraçado, não é? Gastar a vida tentando esticá-la.) Temos, então, no centro da palma das mãos, a chave. O que faremos com essa vida que nos foi dada? Qual destino pretendemos traçar? Qual história desejamos escrever? Quais aventuras procuramos somar?

Mas…

O que estamos fazendo agora para moldar um sentido para nossa vida? Com que estamos gastando nosso tempo? Será que, constrangidos pela fatalidade de nossa inércia, não estamos evitando arriscar por medo de quebrar a vida?

Alejandro Zambra, em uma de suas obras mais famosas, nos vende a ideia de que talvez o princípio e o fim não sejam as partes mais relevantes de nossa história; mas sim, o meio — a parte que conecta esses dois grandes acontecimentos. Então, somos pontes.

Sinto a necessidade de perguntar:

Como é a travessia de sua ponte? 

Há obstáculos escondidos entre as madeiras?

Você se atravessa e se redescobre a cada fase?

Ao chegar no meio de sua ponte, para qual lado você olha: o início ou o fim?

Na sua ponte cabe mais alguém: você e o mundo?

Quantas vezes você correu quando deveria ter caminhado?

Ao longo de sua ponte, você tem desacelerado para reconhecer os detalhes de sua jornada?

Você já parou no meio do caminho e chorou?

Quantas vezes foi preciso destruir a sua ponte só para reforçar as bases?

É provável que Sêneca estivesse certo, desconfio que não tenhamos uma vida breve. Essa efemeridade que sentimos diante a vida, como se estivéssemos brincando próximos ao precipício de uma queda iminente, nasce ao desmerecermos sua grandiosidade. Queimamos a vida com frivolidades: guerras, a busca cega pela razão, amores vazios, beijos gelados, opiniões não requisitadas, mediocridade,  ídolos, padrões… 

Então por que continuamos parados esperando algo da vida? 

Somos, por sorte, construtores de pontes. 

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Faah Bastos
Resido na casa de Escorpião, 29 fucking anos. Eu não tenho um blog. Eu escrevo em um cafofo virtual. Selfie é uma forma de contar as rugas – eu amo! Escrevo aqui porque ficar calada nunca foi meu forte.
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