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Ter depressão é um misto de ‘altos voos e quedas livres’. 

22 de setembro de 2018

Eu não venci a depressão. Aprendi a conviver com outra estranha em mim, como se eu passasse a caminhar carregando um outro ser alojado em algum lugar em meu estômago. A jornada é uma luta diária. 

A depressão está aqui dentro de mim, mas não sou ela. É uma coisa a parte passando uma temporada em meu interior, um inquilino que não consigo expulsar. Eu posso não vê-la, mas sinto-a me observar de longe, vasculhar minhas memórias, remexer em meus baús de fragilidades. Não há como se esconder. Ela está em todos os lugares, até nos detalhes – naquele sorriso sem brilho, no olhar distante, no silêncio prolongado, na angústia, no tremor das mãos, no revirar do estômago. Se me perguntarem quando ela chegou, não saberei responder. Quando percebi, o monstro silencioso já estava em mim. É traiçoeira. Seus grandes olhos tudo capta. Ela me conhece, infelizmente, porque me costura, me remenda todos os dias – sua linha é a amargura. Ela ri do meu desespero. E é na solidão, na ausência de ruídos, que mais nos tornamos conscientes de sua existência, porque a depressão se torna imensa. 

É no silêncio que a ela – a depressão – sussurra. 

Eu tento rir o mais alto que posso, aumento o volume da música, grito até não ter mais voz, abro todas as janelas de casa – qualquer caos sonoro é melhor que sua calmaria de palavras. No dias em que estou mais vulnerável, saio da cama com receio de falhar. Eu conheço a sensação de flutuar sobre os dias ou cair de montanhas. Ter depressão é um misto de ‘altos voos e quedas livres’.

Foto autoral retirada com iPhone 8 Plus e processada no VSCO.

Mascaro o máximo que posso. Limpo a casa, passo maquiagem sobre as marcas da depressão, programo sorrisos e respostas – tudo minimamente calculado. Por sorte, fazemos parte de uma sociedade líquida. Não temos tempo para olhar nos olhos do outro, investigar as emoções, usar uma pá para alcançar o âmago da vida. Estamos com pressa. Sobrevivemos os dias. Então, eu apenas passo e ninguém nota. 

São constantes dias de luta, e confesso que nem sempre eu venço.

Há noites em que a insônia me faz companhia. A depressão precisa me manter acordada revivendo dores, sentimentos de culpa, até cansar meu corpo ao máximo. A ansiedade é uma convidada, e juntas, elas rodopiam os cômodos da casa e me seguem para todos os lugares. Não há água suficiente capaz de retirar o ontem dos meus cabelos. Não consigo desatar esse nó. 

Nem sempre consigo gritar. O fato é que a depressão se incumbiu de vedar cada ponte que eu usava para me conectar com o mundo exterior. Ela me quer presa dentro de mim, sem uso, sob uma camada densa de poeira. Eu envelheço como um móvel quebrado que insistimos em manter em casa não por ser necessário, mas pelo mísero laço familiar que nos une. Eu entendi: é no isolamento que ela se faz mais forte; na ausência do amor, somos derrotados. 

Por um tempo, estive perambulando pela vida como uma sonâmbula. Meus olhos não percebiam as nuances no rosto, no corpo, nos tons de voz, na diminuição do repertório de palavras. É triste, eu sei. Fui adormecida pela dor para não enxergar todos os sinais que estava perdendo a autonomia da minha própria vida. Quando despertei, já era tarde. Eu havia sido invadida.  

“E por que não pediu ajuda?”, questionam. Nem sempre conseguimos romper a densidade violenta da depressão com gritos de socorro.

Eu já nem sei mais quantas vezes rasguei meu peito e cavei até as vísceras para me resgatar. Tudo dentro de mim é um labirinto sem fim. Eu jamais encontrei a saída. 

Vocês já sentiram a força de uma onda quebrando contra o seu corpo? Sabe essa sensação de leveza e vulnerabilidade, que em algum momento seu corpo pode ser arrebatado pela turbulência das águas? Isso é o resultado do esvaziamento. Eu tento preencher os espaços vazios; engolir o infinito para ver se a dor desaparece. 

Eu achava que não sentir nada era melhor que ser atingida por todos os lados. Eu estava errada. Permanecer anestesiada é como chegar atrasada nas grandes festividades de sua própria vida. É ficar do lado de fora e apenas ouvir a mistura de sons, ver os cômodos iluminados e centenas de estranhos ocupando sua casa. Estar do lado de fora, me fez questionar se sou suficiente, se mereço ser amada. E levei um tempo – um tempo sombrio – para compreender que se tratava de um dos tantos efeitos da depressão: manter uma distância segura do amor e, principalmente, de si mesma, era a maneira mais rápida de deteriorar sua alma.  

Mesmo sendo esperta, eu não a venci. Convivemos. Há dias em que desmorono. No entanto, ao me agarrar em qualquer pedaço de estrutura, percebo que não sou esse inseto. 

Eu não sei como ainda estou de pé. Ora olho tudo de cima, ora apenas vejo o mundo sobre minha cabeça. O fato é: mesmo chegando atrasada na estação da vida, não é o fim. Nunca foi. Enquanto o trem não volta para a minha estação, escolhi sentar no chão, abrir todas as malas e remexer nas dores. Encará-las têm causado certo alívio e abalo, tudo na mesma proporção.

Essa espera me transformou em alguém mais paciente. Afinal, o tempo é essa substância incontrolável – e não se tem muito a fazer sobre isso. Alguns levam uma vida inteira para se desfazer de tanta tralha emocional desnecessária. Como desconheço o final, aproveito o agora. Esse é o começo da minha felicidade.  É na tragédia que, também, temos a oportunidade de descobrir nossa força.

Quando sinto que estou prestes a ruir, respiro. Sim. Apenas respiro. O que mais posso fazer além de permitir a vida entrar e preencher meus pulmões e depois me esvaziar até retomar o ciclo? É vida entrando e dor saindo, simples assim. 

Eu não estou sozinha. Sempre terei minha alma como companhia. Carrego dentro de mim tantas outras que sou. Sou imensa. Estou cheia. Não sou minhas dores. Posso está quebrada, mas nos remendos me refaço, mudo, me enlaço. Através das minhas rachaduras a vida continua a brilhar. 

Eu V-I-V-O!

 

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