Amputados

Ele repousa em meus seios usando os meus caminhos como repouso para seu corpo extenuado, afastando um tanto da correria lá fora, o mundo que dissolve as minhas palavras tristes e românticas. Ele nunca entende o motivo das minhas lágrimas seguidas dos sonetos arranhados que rabisco nas madrugadas que sigo sem ele. Se meu jovem rapaz barbudo compreendesse o seu nato talento para destroçar meus carnavais jamais bateria a porta da minha casa, do lar moldado para caber o meu coração e a sua ausência.

E sobre mim, completamente nua, desprotegida do seu charme, ele sussurra as mentiras mais óbvias diante os vítreos olhos dessa andorinha despedaçada, ainda apaixonada; e todo o tempo se torna nulo, paralisado no não prosseguir das horas, obrigando o relógio a aceitar a sua condição de coadjuvante naquela história de amor que escolhi para ser unicamente nossa. Ele narra a sua rotina e o meu ego grita, blasfemando toda a minha neutralidade, a ausência de força suficiente para mandá-lo ir.

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Essa densa mácula de escuridão desfragmenta-se em tons suaves na essência dos seus olhos, esconde-se nos abismos preciosos das suas reminiscências, na busca sufocante de respirar uma gota de ser a cada instante. É a queda! A queda que furta as entranhas dos seus sinônimos incontáveis para descrever o amor, na mandala repetitiva das palavras, no ápice constante das suas mentiras. Amputaram, pois sim, a sua própria misericórdia, largando a arcabouço restante de quem foi um dia sobre a manta estendida de suas dores. Pintaram o céu com as gotas azuis de seu sangue. A veia aberta não transmite mais sabores… Quem sabe a escassez das vozes reduziram o ser na solidão do presente, cobrindo as estradas com as ressecadas folhas que brotaram de seus olhos famintos. É a queima incontrolável de sentimento que evapora as suas verdades.

Eu o acuso de descaso, ele de psicose. Gladiando necessidades, usando o coração como escudo, em queda-livre para as trevas dos seus lábios que ousam me despedaçar quando anseio pelo bater de asas invisíveis. E o mundo ainda continua distante de nós.

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Faah Bastos
Resido na casa de Escorpião, 29 fucking anos. Eu não tenho um blog. Eu escrevo em um cafofo virtual. Selfie é uma forma de contar as rugas – eu amo! Escrevo aqui porque ficar calada nunca foi meu forte.
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2 comentários em “Amputados

  1. Seus textos tem uma discrição única. É tudo tão ímpar, que eu reconheceria a quilômetros de distância. Suas palavras suaves e complexas, capazes de me fazer suspirar e até me arrepiar. Obrigada por elas, obrigada por essa imensidão.

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