Eu e você, vítimas do acaso malfeito da felicidade.

Eu vejo a mudança do tempo em você através das retinas oculares dos seus olhos. É como presenciar a passagem das nuvens em um espelho, correndo soltas pelo céu, sem grilhões ou paredes que impossibilitem o seu navegar.

Eu encaro a mudança eloquente dos seus olhos castanhos, cor tão comum, para um azul celeste que me deprime. Somos vítimas dessas diferenciações do que vimos e o que realmente acreditamos ver.

O tempo desce as escadas celestiais e desagua soturno na forma como encaro o mundo. E você esquecida na esquina qualquer dos poemas que inventam diariamente para elucidar um sentimento que ainda escondo. É como procurar o não escondido e derrapar, sem promessas, nas histórias de amor que jamais nos encontram. É padecer sem escrúpulos na beira de um terraço, encarando o vasto largo da calçada, o vaivém dos carros – automóveis cinzentos de nós, levando para longe as esperanças e outros corações ocupados com o trânsito, o engarrafamento das ideias. Somos todos transeuntes sem estrada do nosso próprio medo.

E o ar, meu amor? E o amor sofre uma ação inesperada dos meus sentimentos e torna-se denso, pesado ao ponto de nossas mãos não mais suportar o peso da decadência. Cederemos? É triste ver o verão se ocultar na solidão do inverno, quem sabe é por isso ainda escrevemos e lançamos as folhas rabiscadas de suposições, planos futuros, como ter uma casa no topo de uma colina e vivermos de amor, assim bem definidos, e morrermos jovens ou velhos, não importa, mas morrermos juntos? Tempo não existe quando estamos tagarelando sobre o amor. E lá vão as nossas páginas carregadas de tudo o que um dia se construiu quando deparei-me com as pequenices de sua alma em frente a minha. E lançamos, lançamos as páginas, soltamos ao vento, deixando que o invisível nos levasse para montes distante da turbulência do cinza que habita em nós.

Nos lançamos, amor, do terraço.

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Faah Bastos
trintona, escritora nas horas tortas, estudante de Psicologia, professora e louca por bichos!🌟
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6 comentários em “Eu e você, vítimas do acaso malfeito da felicidade.

    1. Preciso começar com um “muito obrigada”, logo em seguida sorrir aqui comigo e depois agradecer mais uma vez.
      Agora sim posso dizer que é uma imensa felicidade saber que viaja comigo, entre as palavras, saltando de um significado a outro.
      Obrigada!

  1. Nossa, que a poética se entrelaça na sua prosa. Eu fiquei sem ar agora, que texto maravilhoso. Estou como diria Luddy, viciada nos seus textos, sensacional. Lindo demais!! Que trilha sonora sensacional, todos os comentários são poucos para tamanho bom gosto. Sucesso linda!! Sua alma transborda nas suas composições!! Sinta-se abraçada, um 2013 de tudo de melhor!!

    1. Ah… Sinto-me toda pomposa, de verdade! Receber um elogio assim é raro em nosso tempo. E saber que a falta de ar lhe atingiu, me perdoe, mas é revigorante! Eu agradeço imensamente as palavras, os elogios, e as felicitações para o ano que anda beirando a minha janela.
      Obrigada!!!

  2. “Somos todos transeuntes sem estrada do nosso próprio medo.”
    É incrível a sensação de me perder em teus textos, como eu já falei, eu me afogo nesse teu oceano poético de palavras. Ler textos assim, me traz uma sensação única de paz… “Eu vejo a mudança do tempo em você, através das retinas oculares dos seus olhos.” Tu consegues descrever sentimentos de uma maneira profundamente bela. Beijos, super Faah.

    1. Adorei saber que se afoga em meus escritos, parece que de certa forma é uma morte tranquila, não física, entende? Uma morte meramente poética das sensações. É delicioso.
      Obrigada pelo comentário, como sempre arrancando delírios de mim.

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