Romance em fragmentos

Um dia – um dia como outro qualquer, sem presságios ou signos excepcionais – falaram que só escrevo cartas de amor. Tomei como elogio, mesmo acreditando, diante os olhos baços do acusador, que deveria ter entendido como uma crítica. Eu sou melhor com as palavras escritas, uma ao lado da outra, sem atropelar sentimentos ou ideias, tudo muito bem organizado, como uma prateleira de livros. Eu queria que a minha mente estivesse na mesma sintonia que os meus lábios, isso facilitaria o trabalho árduo dos meus dedos. Mas como nem tudo são flores, eu escrevo. Minhas cartas de amor são carregadas de saudades, outras de partidas, umas preenchidas com a tinha preta da despedida, porém, jamais deixam de ser cartas de amor. Protejo-as com os mais variados envelopes e texturas. Gosto de cores escuras, você sempre soube disso, e motivada por minha preferência, vou empilhando envelopes e mais envelopes de matiz sombria. De certa forma, sinto conforto nessa particular escuridão.

Sou uma escritora de cartas de amor, afirmo, porém não as envio. Tenho ciúmes. Imaginar minhas palavras tortas, caligrafia tendenciosa a cair para a direita, espalhada pelo mundo, me causa uma sensação de estar em hélio, perder o equilíbrio na corda-bamba. Eu gosto de chão, de piso batido, do barro sujando meu tênis. Confesso que escrever é um ato de alívio, e se for para contrário ser, opto pelo nada, o silêncio dos pensamentos, a morte cinematográfica das expectativas. Escrever invisível, às vezes, me conforta.

De tempo em tempo, quando a primavera se distancia ou quando o verão aquece a terra do meu jardim, deixando tudo seco, um mormaço exagerado; quando o vento faz a curva antes de encontrar a minha casa, e o sol deixa as flores extenuadas, eu espalho pelo chão da minha sala, todos os envelopes, as folhas enroladas, presas por pequenas fitas de cetim. Gosto de senti-las por perto, o toque dos papéis envelhecidos ao encontro da minha pele. São cadáveres de filhos rodeando uma mãe orgulhosa. É sombrio pensar nas palavras como defuntos, mas já que não vingaram, que morram assim ao meu lado, no cair da tarde, suavizando o tempo lá fora, o calor sobre o telhado.

Um dia – um dia comum para muitos, carnavais para mim – falaram que eu apenas escrevia cartas de amor.

Não são cartas, são romances em fragmentos.

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Faah Bastos
Resido na casa de Escorpião, 29 fucking anos. Eu não tenho um blog. Eu escrevo em um cafofo virtual. Selfie é uma forma de contar as rugas – eu amo! Escrevo aqui porque ficar calada nunca foi meu forte.
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15 comentários em “Romance em fragmentos

  1. Adorei, nem sei falar qual parte gostei mais, você conseguiu descobrir uma coisa que sempre faço; fico escrevendo cartas e cartas, porém não as envio, acho que é ciumes como você disse, ou talvez eu seja egoísta, não sei.Mas isso não importa, seu texto arrasou!

  2. Concordo completamente com o fato de que escrever é um ato de alívio. Escrever, pelo menos pra mim, é desabafar em silêncio. Isso até me lembrou um trecho de música: “Dançamos no silêncio, choramos no carnaval”. Me sinto assim quando escrevo. E também sinto ciúmes (e como!) quando escrevo. Sei lá… mas são minhas palavras, meus sentimentos, minhas dores, minha luz e até minha escuridão.
    Muito, muito lindo, Faah. Obrigada pelas palavras.

  3. Nossa quando li o texto me lembrei do livro “A ultima carta de amor” da autora Jojo Moyes.
    Eu gostava muito de escrever mais fui parando com o tempo não escrevia sobre meus sentimentos mais coisas bobas que eu pensava, apesar de não escrever mais adoro receber cartas acho super bonitinho, uma pena que não enviem mais cartas como antigamente…
    Adorei o texto, achei bem legal como se “ela” quisesse guardar as cartas dela pra um dia sei la daqui a uns anos ela poder ler e relembrar de todo esse amor que ela descrevia nas cartas, ou um dia assim como nos livros alguém pode achar as cartas e querer saber quem foi a garota que escrevia tudo aquilo…
    Amei o texto mais é melhor parar de escrever por aqui porque minha imaginação vai longe!!!

    *_*

    xoxo

    1. Hum, eu também tenho esse livro, mas não o terminei… Achei que faltava mais descrição, mas isso não vem ao caso.
      Deveria continuar escrevendo, lendo bastante… Sempre!
      Não pare sua imaginação, deixe-a ir bem longe mesmo.
      Obrigada pelo comentário.

  4. Eu costumo escrever, é sim alívio, um descanso, ás vezes o dia lá fora trás um ar tão nostálgico em alguns momentos, que eu me prendo a um papel e uma caneta, meu pensamento corre, como você disse : ” Escrever invisível”, eu vou o mais rápido tentar escrever, mas meu pensamento está lá na frente, e meus dedos indo a 1 km por hora. Pois é, eu comecei a ler e pensei : ” Isso é pra mim” . Já me disseram que eu só escrevo “palavras apaixonadas”, e eu guardo tudo o que escrevo, tem folhas espalhadas pelo meu quarto, a noite o único barulho aqui sou eu virando as folhas do meu caderno onde eu me refugio do tempo. Também pude “me olhar” na parte em que diz : ” sinto conforto nessa particular escuridão”. Agora esse texto vai direto para o meu caderno que chamo de ” Sonhos Inacabados ” na parte dedicada a grandes escritores e seu textos que couberam a mim.
    Parabéns!

    1. Obrigada, muitíssimo obrigada.
      Escrever é bem gostoso mesmo, principalmente quando isso navega de forma natural pelos dedos.
      Deve ser um som muito delicioso esse de virar as páginas. Fiquei aqui imaginando… Muito bom.
      Obrigada pelo comentário, adorei.
      Abraços.

      1. É maravilhoso, e cada vez que viro uma página quero sempre mais. É engraçado até como eu adoro escrever, mas ás vezes não gosto de ler um livro. Mas aqui no seu site me sinto em casa! é maravilhoso!
        Um abraço apertado *-*

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