As Cinzas dos teus Olhos

Trecho do meu novo romance “As Cinzas dos teus Olhos”

(…)

Ficamos em silêncio, cada um caminhando pelo seu próprio mundo afastado de todas as convenções que norteavam aquele jantar; perdidos em tantos pensamentos, escolhendo qual o mais cabível a ser levado a sério, o que deveriam fazer diante dos problemas que nos aguardavam na esquina mais próxima da mente, entre tantos possíveis mundos que ainda desconhecíamos. O relógio da sala tiquetaqueou me alertando que ainda estava sentada, mexendo na comida com a ponta do garfo, absorvida por todos os pensamentos que ansiavam liberdade das malas ainda fechadas no andar superior. Havia se passado um pouco mais das sete, quando o som tristonho de uma melodia arrancada de um piano, adentrou a sala de jantar; mesmo fracas, era possível ouvir as notas musicais sendo expelidas com uma tristeza marcante. As notas se lançavam na noite, rodopiando na brisa noturna e correndo para dentro da nossa casa. Levantei meu olhar do prato, e virei meu rosto em direção da música, apertei o garfo com uma ansiedade inquietante e mergulhei nas notas musicais. Aquela música era para mim, como uma comemoração macabra pela minha chegada, louvando as lágrimas que novamente seriam lançadas para um lenço qualquer enquanto remexesse nas fotografias que trouxe escondida entre minhas roupas.

– De onde vem essa música? – sussurrei ainda com o olhar lançado para porta de casa.

– Da casa vizinha. – respondeu Jeremias. – Espero que isso não incomode vocês. Ele sempre toca nessa hora da noite e pela manhã. – explicou.

– De forma alguma. – adiantou-se papai. – Se fosse uma daquelas músicas barulhentas, com certeza teríamos problemas, mas essa? Duvido muito que incomode alguém aqui.

A melodia do piano continuou a encher a noite. Aos poucos ficando mais fraca. Decerto o responsável por aquela música, mal tocava nas teclas, talvez estivesse desistindo de dar continuidade. Eu esperava que não. Larguei o garfo sobre o prato e levantei subitamente da cadeira, saí da sala sem olhar para trás, não dando importância aos reclames dos meus pais, provavelmente com seus olhos arregalados pela minha falta de boas maneiras, se entreolhando assustados, como se não fosse óbvio que eu estava sendo enfeitiçada pelo canto de uma sereia, assim como nos livros, caminhando sem medo algum para um destino misterioso e desconhecido. Subi as escadas com uma única certeza: aquela música me enfeitiçava. Empurrei a porta do quarto e me lancei de bruços no peitoril da janela, enfiei minha cabeça para fora, e precisei de alguns segundos para me acostumar com a temperatura da noite, a brisa que mexia minhas madeixas capilares. Apertei os cílios e meditei a sinfonia que ficara um pouco mais forte. De súbito, porém, parece que o pianista se entusiasmou, porque a música tomou um novo rumo, se animando completamente, fazendo-me lembrar uma tempestade, uma calmaria despedaçada por um terremoto, um tornado de sentimentos estranhos; as notas se ouviam mais nítidas e fortes como se seja lá quem estivesse tocando naquela noite, queria gritar através da música, lançar seus gritos para a noite de uma forma que ela entendesse, como se sua voz não fosse o bastante para o mundo. Entretanto, a impressão de tristeza ainda continuava habitando as notas arrancadas do piano. Peguei-me imaginando quem poderia estar tocando aquela beleza macabra, talvez a mãe do rapaz, uma senhora divinamente clássica, com seu vestido com rendas nos detalhes, seus cabelos presos por um enfeite delicado, assim como a sua pele translúcida; o retrato de uma jovem apaixonada, cheia de requinte com um ar francês. Mas logo o vento agitou as folhas dos jacarandás, produzindo um despertar natural dos meus devaneios.

piano

Abri os olhos para seguir o som da música que ainda continuava se misturando com os ruídos da noite. Um pouco abaixo da linha térrea da nossa propriedade, havia uma casa com o telhado vermelho, mergulhada no centro de um jardim com macieiras e outras árvores que não conseguia identificar. Uma luz amarela saltava de uma das janelas da casa, no andar inferior, se espalhando pela grama. Precisei apertar um pouco meus olhos para conseguir enxergar alguma coisa com mais clareza, e pude apenas ver um vulto a tocar distraidamente o piano marrom, e uma cortina de renda a mexer como uma bailarina dançando, envolvida pelo vento da noite que a puxava para fora da janela. Soltei um suspiro estranho, vencida pela certeza que era impossível saber quem tocava, levantei meu olhar e afundei-o na cidade há um ou dois quilômetros de nós, com suas luzes singelas, como vagalumes paralisados em meio a noite, entre colinas e vinhedos esquecidos, a grande maioria se dedicava havia algumas décadas ao cultivo de flores e uvas. Imaginei algumas pessoas caminhando pelas ruas estreitas, cumprimentando aqueles que descansavam o jantar, sentados em suas cadeiras de madeira construídas por algum artesão local, discutindo sobre a vida, as novelas, as músicas, a política, enquanto algumas crianças brincavam despreocupadas no meio da rua, um pouco úmida pela chuva que assombrou a cidade por todo o dia.

A música cessou. Voltei para dentro do meu quarto, mas incapaz de fechar a janela, mesmo sentindo um pouco de frio por causa da temperatura daquela noite. Em alguma parte de mim, habitava a esperança de ouvir aquelas notas musicais criando pernas e correndo pelo gramado da minha casa, subindo pela parede até alcançar a janela do meu quarto. Eu queria com todas as minhas forças ser embalada por aquela ou qualquer outra melodia, mas capaz de levitar meu corpo, expulsar os pensamentos, permitindo que apenas a música ficasse em mim. Escorreguei para a cama, enfiei-me entre os lençóis e continuei a olhar para o céu negro, desprovido de lua, emoldurado pela minha janela, meditando os minutos, sem conseguir fechar os olhos para o sono, até que a música voltou a me chamar – dessa vez mais doce, calma, sem o tom de mágoa entre suas notas. Era perceptível notar que quem estava deslizando seus dedos tão hábeis naquele instrumento perfeito, sentia oscilações sentimentais, assim como eu. No instante que erguia sua dor ao mais alto do patamar, lançava-a para uma cama de plumas, sobrevoando o céu de jasmins, como se dentro de um único coração residia o amor e a dor, inimigos íntimos e insanos, porém necessários. Naquela noite adormeci ao som das nuances musicais da alma misteriosa que transformava os meus sentimentos em música. Era como navegar nas notas musicais dos meus medos, anseios e esperanças; um mar imenso com caravelas desconhecidas que partiam com baús abarrotados com pedaços de mim.

.

Gostou? Compartilhe!
Faah Bastos
Resido na casa de Escorpião, 29 fucking anos. Eu não tenho um blog. Eu escrevo em um cafofo virtual. Selfie é uma forma de contar as rugas – eu amo! Escrevo aqui porque ficar calada nunca foi meu forte.
Post criado 231

8 comentários em “As Cinzas dos teus Olhos

    1. Sempre usando da gentileza comigo…
      Obrigada pelas palavras, Sofia. E acredite, pode ser muito mais do que metade de alguém. Você é talentosa!
      Beijo imenso, minha lusitana.

  1. Nossa, Faah, assim não vale! Como você posta somente esse pequeno (e lindo!) trecho de seu novo romance? Posso pedir mais? Posso dizer que estou curiosa para saber mais? Não duvido nada será um grande romance. Gostei muito. Mesmo. Gostei até do título. Tudo lindo!

    1. Ah, que maravilha!
      Ótimo que gostou do trecho. É uma das primeiras páginas do segundo capítulo do novo romance. Eu acho que irei surpreender com a construção das personagens.
      Espero que continue gostando. Em breve vou disponibilizar a capa, será como um presente de natal.
      Obrigada pelo comentário.

      Abraços.

  2. EU SABIIIIIIIIAAAA QUE ERA UM NOVO ROMANCE!! Que perfeito! *-*
    Esse trecho tá incrível, sério… É lindo como você descreve cada momento, cada ação, cada pensamento. É o que eu disse váaarias vezes, de uma maneira única e íntima que só tu consegue.
    Vou esperar ansiosamente por esse novo romance. *-* E NOVOS TRECHOS, uii.

    1. Denis vai começar a criar a capa de “As Cinzas dos teus Olhos” em breve. Provavelmente, no natal estará pronto e darei como presente de final de ano para os meus leitores.
      Eu estou tãaaaaaaaaaaaaaaaao feliz por saber que gostou desse trecho. De verdade! Acaba motivando e isso é maravilhoso.
      Mais para a frente apresentarei as personagens, espero que todo mundo também curta.

      Beijos!!!

  3. A-DO-REI O TRECHO, tipo, eu AMO solos de piano, e tenho uma tara terrível por pianistas, aí me deparo com um personagem que toca piano e já me apaixono <3. Mais um romance da Faah me conquistando no primeiro trecho gente *-*, é tão bom ver que você está lançando mais e mais livros, a prova da sua prosperidade (: . Tenho orgulho de dizer que sou fã e que acompanho toda a trajetória, e que venha mais! Você merece tudo e mais um pouco, te adoro! E já quero As Cinzas dos teus Olhos. Ansioso pelas novidades. Beijão!

    1. Em dezembro será lançado a capa. Estou bem empolgada com esse novo trabalho. Irá puxar muito mais de mim, por se tratar de uma experiência nova e absurdamente sensorial (mais a frente todos entenderão o motivo do uso dessa palavra).
      Fico feliz que tenha gostado. E mais ainda por saber que alguém que tanto gosto se intitula meu fã. Você é uma bênção.

Deixe uma resposta

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.

De volta ao topo