Triviais mentiras

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Eu me encolho na trivialidade das consequências, vou cobrindo os móveis antigos com a minha pele, ocupando espaços antes vazios nas prateleiras de recordações (agora sou uma e você nem sabe disso). Lá fora a cidade permanece em silêncio, reprimindo seus sons diários, permitindo somente furtivos barulhos de gatos sobre as telhas, gotas de uma chuva fraca se escorregando pelas folhas desbotadas das poucas árvores que ainda avisto da janela de minha casa. Há focos de luzes e o nada entre as calçadas. Continuo reprimida em minha cápsula transparente que mantive escondida desde menina, quando ainda ouvia as mesmas cantigas como se fossem inéditas. Hoje, canto mentiras que desbotam a minha boca toda vez que as digo, como se perdesse a cor da vida a cada palpitar irreal das minhas histórias mal contadas. É loucura, mas me serve como escudo; uma proteção que afasta o mundo dos meus segredos colecionados, guardados ao lado de inúmeros potes transbordando rachaduras.

Minha pele não cobre mais as oscilações do meu próprio eu, por isso escondo as poltronas marcadas por aqueles que me deixaram – uma forma patética de permanecer fantasmas em mim. Tenho compartilhado medos com a insanidade, ela caminha de um lado a outro quando há apenas aquele pedaço de cidade enquadrado em minha janela, inalcançável porém parte do meu reino. Eu me acostumei a trivialidade… As luzes não piscam, o silêncio prossegue, e me imagino longe daqui, solta lá, correndo entre as ruas à procura de mim, um “mim” que desagua sem um nós.

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Faah Bastos
Resido na casa de Escorpião, 29 fucking anos. Eu não tenho um blog. Eu escrevo em um cafofo virtual. Selfie é uma forma de contar as rugas – eu amo! Escrevo aqui porque ficar calada nunca foi meu forte.
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