Tudo o que me golpeia, me lapida — sou grata por minhas dores. 

Foto autoral. Câmera iPhone 8 Plus. Editada no VSCO.

Eu levei muito tempo para aceitar minhas estranhezas sem medo. Fiquei cansada de sempre me sentir insegura sobre quem sou. Aprendi que não sirvo para seguir nenhuma receita. Afinal, a jornada de cada um é única, assim como suas raízes e motivações. 

Foram longos períodos de intenso silêncio — emudeci cada vestígio da minha real personalidade para agradar o outro, porque, afinal, diziam que quem eu era ofendia padrões (hoje eu considero um elogio!). Admito que na maior parte do tempo me sinto um caos, completamente desordenada; tenho a sensação de nunca ir para lugar algum — e talvez seja o meu diferencial. 

É exaustivo tentar se ajustar para caber na limitação do outro. Sinto como se estivesse podando minhas melhores partes. Às vezes, a sensação é de ser um bonsai sem controle das tesouras girando ao redor de minhas pontas. É sufocante… Toda vez que você tenta lutar, se machuca. É quase uma questão de pesar as dores: (i) se me calo, cortam quem sou, limitam minha voz, meus passos, me perco na estrada dos outros; (ii) se luto, a lâmina corta a pele, eu sangro, mas ainda sou eu. 

Já não posso mais fazer parte de nenhum grupo, por isso, me isolo. Sou melhor operando sozinha a minha máquina de fazer sonhos e quebrar limitações. Já não tenho partes soltas — desprendidas por alguma queda inesperada ou arrancadas de mim sem nenhum aviso prévio. Isso de caber no outro, nas expectativas do outro só me sufoca, aperta, sobra, derrama. Não gosto. Dispenso. Passo. Já não quero me expandir ou diminuir. Eu aceito a minha medida sem medi-la, sem impor faixas territoriais, sem traçar rotas ou criar mapas. 

Chega de alimentar o medo de um dia acordar e me deparar com a fatalidade de ter exaurido meu tempo maquiando tudo o que me torna única e incrível! Por quê? Para quê? Por quem? Eu só viverei uma única vez, não desperdiçarei minha passagem por aqui reformulando minhas partes com altas doses de mediocridade apenas para agradar alguém.

Hoje, ao encarar essas tantas que sou diante o espelho, percebo que me tornei do tamanho necessário para vencer e construir mundos — eu sou dona de vários. Dispenso quem tenta me ensinar a desenhar estrelas. Eu quero traçar minhas próprias linhas. 

Nenhum manual sentimental ensinou o mundo a ler minhas marcas. Eu mesma aprendi com muitas quedas e desastres — ao longo da jornada, quebrei muito partes significativas em prol da sanidade. Mesmo as mais visíveis dão trabalho para os olhos despreparados. Eu não preciso esquecê-las para continuar respirando. Reconheço minhas feridas e o calor que ainda emana de cada uma delas. Mas eu não sou as marcas que aqui deixaram, os riscos que fizeram, os buracos que cavaram, os móveis que levaram. Eu fui lapidada pela dor, não consumida por ela. 

Já não invadem mais o meu corpo; não me sinto mais insuficiente; não tenho vergonha do tamanho do meu corpo — grande ou pequeno para caber no mundo. Eu me transformei. Me reconstruí com muito esforço, e agora querem me forçar a caber num espaço que não é meu? Não, obrigada. 

Eu aceito minhas partes incompletas, cansadas, invadidas, compartilhadas, despedaçadas, em branco, e as que ainda não nasceram ou permanecem desconhecidas. Tudo o que sou é resultado de quedas, feridas, vitórias e lágrimas. Afinal, tudo o que me golpeia, me lapida — sou grata por minhas dores. 

Eu tenho e sou HISTÓRIA. Não espere de mim desculpas por não saciar as suas expectativas. Eu já não sirvo mais para caber nos seus espaços. 

 

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Faah Bastos
trintona, escritora nas horas tortas, estudante de Psicologia, professora e louca por bichos!🌟
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