#literatura, #work

UM PASSEIO POR SOL EM MINHA NOITE

13 de setembro de 2012

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Todo mundo já deve conhecer o enredo do meu romance “Sol em minha Noite”, mas nem todos sabem como esse romance surgiu e como foi escrevê-lo, por isso resolvi dedicar um espaço aqui para falar mais sobre o processo de criação, os sentimentos que correram em mim enquanto escrevia, alguns trechos que adoro do livro, e, claro, falar um pouco mais sobre as principais personagens.

Quando eu decidi escrever “Sol em minha Noite” como um romance jovem adulto, tive minhas dúvidas, porquesol-em-minha-noite_001 não queria que acabasse com uma narração simples, com descrições evasivas, por isso mesclei poesia com prosa para ser capaz de aprofundar na mente e coração das personagens. Resolvi escrever em primeira pessoa, porque eu conheço a dor que Helena inicia o romance; eu sei como é perder um pai e ter que enfrentar o novo dia. O ponto de partida de “Sol em minha Noite” é a depressão de Helena, arrastada ao longo do livro. Vou confessar que em determinados momentos vocês poderão se sentir cansados e pensarão: “Poxa, ela ainda está sofrendo com essa perda?”, “Por que volta e mexe ela pensa no pai?” Bem, essa é a realidade. Quem sofre uma perda dessa não consegue, com facilidade, afastá-la ou amenizá-la, e tenham em mente que Helena precisará descobrir isso, porém tudo ao seu tempo. Ela se sente magoada quando as demais pessoas ao seu redor não compreendem a sua demora para vencer a morte do pai, controlar suas emoções e tentar voltar a viver. Por isso que posso afirmar, “Sol em minha Noite” é de longe um romance carregado de açúcar, pelo contrário, é denso, intenso e (algumas partes) sombrio.

PROCESSO:

Eu o escrevi no final de dezembro do ano passado, no total foram 28 dias intensos. Sim, eu escrevi o romance em 28 dias, e o curto espaço de tempo não é sinal que o romance não presta, pelo contrário. Esse romance em particular, precisava ganhar vida, sair de mim. Enquanto eu escrevia, fazia uma libertação dos fantasmas que me assombravam, assim como Helena. Eu estava com todos aqueles sentimentos arraigados em minha alma, e confesso, foi bem difícil colocá-los para fora, mas consegui. Por isso que muitas pessoas se assustam quando comento que o livro fora escrito em um curto espaço de tempo, mas saibam que Helena sou eu, só com algumas mudanças, mas ainda sou eu. Eu tive uma Emy (melhor amiga da Helena) para tentar me afastar da dor, tive sérios problemas com minha mãe, e alguns diálogos nem foram adaptados. Sem contar, claro, encontrei o amor e suas ramificações.

fah12livroForam 28 dias nos quais eu chegava a trabalhar 18 horas seguidas! E prova disso tem meu marido e uma das minhas melhores amigas, a Nayara. Rafael (meu marido) foi o responsável por todo aquele apoio em cuidar de mim durante esses dias, lembrando que eu deveria comer, relaxar um pouco, enfrentando as dores absurdas do meu pulso, mas sempre juntos. Já a Nayara, ah… Ela foi a primeira leitora desse romance! Ela vibrou, se emocionou, se descabelou durante o romance. O último capítulo só pôde ser escrito quando ela estava online, caso contrário, eu perderia a cabeça. kkk Lembro que ao escrever o capítulo em que Helena vai ao cemitério (relaxem, não é spoiler), precisei respirar fundo, porque enquanto escrevia, chorava. Eu chorei tanto, despedaçou-me tanto, que fiquei dois dias sem conseguir tocar no livro, incapaz de seguir sem antes administrar os sentimentos que despertei com as palavras. Foi emocionante, sem sombra de dúvida. Esse é meu capítulo preferido, assim como o primeiro, e claro, quando Helena e Rafael se beijam pela primeira vez. Sem a Nayara, talvez, eu não tivesse continuado.

Bem, assim que terminei de escrevê-lo, a Modo Editora Tradicional, adorou o romance, e isso tinha sido após uma semana que havia concluído o processo de criação. Eu e a minha editora temos um caso de amor e ódio, como toda boa paixão ardente.

(Mais ou menos essa dança que fiz quando recebi a notícia que seria publicado!)

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Tropeçamos de ambos os lados, reinventamos, reerguemos e estamos aqui, firmes, e claro, aprendendo um pouco a cada dia. A Modo é uma editora 100% nacional, e merece muito o nosso respeito. A qualidade dos livros é inacreditável! Só quem tem um livro da Modo na estante sabe do que estou falando. Eu agradeço muito, muito e muito a Adriana Vargas pelas dicas, pelo apoio, por tudo, afinal, sem ela talvez eu ainda estivesse convencendo que tenho talento. Eu costumo dizer que ela tem olhos de águia, e com o tempo ampliará mais ainda!

PERSONAGENS:

 

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Cosplay Oficial

Ao lerem “Sol em minha Noite” tenham em mente que vocês não encontrarão caricaturas perfeitas. Saibam que Rafael não é um príncipe encantado da Disney, tampouco um Edward Cullen vivo. Rafael erra, fracassa, e em alguns momentos é grosso e impaciente, porque somos assim, estamos longe da perfeição juvenil dos romances.  Rafael é um rapaz com rachaduras, sentimentos que quase sempre, entram em conflitos. Notem os olhares, a preocupação, e certa falas que ele solta, que determinam essas características dele. Ele observa Helena, estuda. Não é o típico rapaz preocupado em ter, mas em ser o melhor para ela e nos momentos exatos. Vocês entenderão isso ao término do livro, no último capítulo com uma atitude digna de um rapaz realmente apaixonado.

Eu estava apaixonada por Rafael, não conseguia centralizar minha mente em nada sem que a imagem dos seus olhos me invadisse, desconcertando o meu mundo, todavia, eu tinha escondido dos meus amigos o que estava acontecendo comigo, os medos, os conflitos, as dores. Eu tinha passado tanto tempo tentando ser alguém que eu não era…

(Sol em minha Noite, pág. 178)

Rosnei algum xingamento que prefiro fingir que esqueci, e sentei revoltada, cruzando os braços. Eu odiava ser testada e muito mais quando me forçavam a ter uma atitude que não coincidia com a minha personali- dade. Rafael ficava lá, sentado na outra cadeira alimentando aquele sorriso perverso, se divertindo as minhas custas, enquanto eu tinha que recompor minhas emoções e não lançar o prato naquele rosto lindo.

– Eu não sabia que conseguia ser tão cínico – rosnei.

Ele deu mais uma risada gostosa, enchendo meus ouvidos com a melodia suave da sua risada, esticou-se um pouco na cadeira e voltou a me olhar.

– Eu não sou cínico. Você é absurdamente nervosa, Helena. – Ele debruçou sobre a mesa, se aproximando de mim, deixando-me louca com aquele perfume. – E você fica linda quando perde o controle.

(Sol em minha Noite, pág. 87)

Helena não é uma retardada, desprovida de qualquer beleza radiante. Ela se preocupa em cuidar de si mesma, e quando o faz, torna-se bonita para as demais pessoas; é notada! Eu queria que percebessem isso. Aprendam com Helena a se respeitarem, a cuidar do seu corpo, da mente e do coração, porque é exatamente isso que ela faz. Vocês irão notar esses sinais que, aos poucos, ela passa a se respeitar como pessoa e mulher. Ao mesmo tempo, notará que Helena está longe de ser uma heroína, pelo contrário, a grande sacada é que nossa jovem de 17 anos é uma anti-heróina. Confusa com seus sentimentos, aprendendo a lidar com a dor, o futuro e as impossibilidades. Muitas coisas serão aprendidas gradualmente com Helena, e talvez a segunda mais importante (porque não posso contar a principal) é que ela precisa se perdoar.

As lágrimas, enfim, vieram, como cascatas de uma cachoeira violenta, os soluços se fortaleceram, e gemidos altos, como se um animal estivesse sendo abatido, foram expulsos pela minha boca. Eu tinha entendido o quão ridícula eu fui. Como poderia me sentir melhor do que os demais a ponto de criticar suas escolhas, se eu havia desistido de viver? Como estaria honrando a memória do meu pai daquela forma?

(…)

Eu estava ressuscitando da minha morte poética, da minha partida em alguma caravela sem rumo, regressando de mares negros, querendo abrigo, querendo lar. Eu precisava levantar e não apenas fazer o caminho de volta a minha casa, mas ao coração da minha família, era minha obrigação tentar unir cada uma de nós, mostrando que o amor do meu pai residia em nós, na nossa família, que não deixaria de existir por causa da ausência dele em corpo, afinal, ele seria eterno em nossos dias, em nossas vidas, em nossos corações.

(Sol em minha Noite, pág. 179)

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Cosplay Oficial

Ainda temos que falar de Daniel, o melhor amigo de Helena, e que, desde o segundo capítulo, deixa bem claro que é apaixonado por ela. Fiquem com as anteninhas ligadas nas palavras dele, nos gestos… Daniel é intenso e frágil, mas não consegue admitir isso. Ele quer algo, porém precisa encontrar as forças exatas para conquistar tal objetivo. Assim como qualquer sentimento quase-não correspondido, Daniel sofre, e o pior, até certo ponto calado. Posso dizer que nosso meigo rapaz é uma bomba relógio. Sabe quando escondemos por tanto tempo a verdade? Ou quando esperamos com excesso de paciência para que tudo ao nosso redor entre em equilíbrio? Pois bem, talvez esses tenham sido os erros de Daniel, e ele deverá desvendá-los.

Ah! não tenham raiva dele, tá? Daniel só quer lutar pelo que acredita.

– Pensei que não lhe veria hoje – disse baixo.
Eu sorri constrangida com a seriedade em sua voz.
– Você sempre me verá, sabe disso.
– De certa forma, eu sei.
– Por que de certa forma? – perguntei enquanto mexia no cadarço do meu tênis.

– Guardo você em mim, Lena.

(Sol em minha Noite, pág. 32)

CURIOSIDADES:

Agora que abri o leque sobre as personagens, um pouco do processo de criação, vamos falar sobre as partes que mais quero atenção de vocês. Como eu disse anteriormente, o livro é narrado em primeira pessoa, na voz de Helena. Alguns acharam que isso poderia prejudicar a visão das demais personagens, mas acredito que no fim, Helena soube muito bem analisar cada um deles. E está aí um ótimo diferencial da minha Helena para narradoras de outros romances: Helena é realmente intensa, o que favorece a necessidade em desvendar o máximo de cada pessoa ao seu redor. Ela olha os mais minuciosos detalhes, os traços, gestos de cada um, e isso a faz navegar nas possibilidades acerca quem a rodeia. Vocês terão uma visão bem romântica do mundo. E isso serve como gancho para outro ponto que quero atenção de todos: a narrativa. Eu nunca gostei de narrativas descritivas demais com base no concreto. Não, não! Descrições mecânicas como se arrancadas de um livro científico ou wikipédia, não dá, não é? Tenho repúdio! Por isso resolvi mesclar poesia e prosa. Eu achei que se Helena olhasse o mundo de uma forma poética, até mesmo sombria em alguns pontos, despertaria mais emoção, e acho que consegui. É inevitável não perceber isso no “passar” das páginas.

O cheiro de morte emanava da copa das árvores que se uniam cada vez mais, como se tentassem esconder o sol dos meus olhos. Eu tinha medo de encontrar a luz, com receio de tornar-me cinzas, largadas sobre o musgo de alguma rocha próxima ao riacho, permitindo que o vento levasse o que restara de mim para longe. Sentia-me mergulhada em uma vida sem saídas ou opções, perdida em um labirinto obscuro. Eu não suportava a per- da do meu pai, muito menos a minha mudança, sendo apenas noite, sem dia, sem um luar que provocasse inspiração para poetas. Eu estava sozinha, enfrentando o correr das horas que se assimila ao bater das asas de uma andorinha que vagava por entre mil possíveis céus imaginários segregados a um coração aflito, que apenas pulsava por obrigação corpórea de um sistema que ainda lutava para viver.

(Sol em minha Noite, pág. 13)

Por fim, deixarei a minha última observação. Qualquer garota pode ser uma Helena. Arrisco-me a dizer que há um pouco de Helena em todas nós. É exatamente por isso que vocês terão uma ampla descrição física dos demais personagens, mas quando se trata de Helena a visão será superficial de como ela é fisicamente, porque eu desejo que vocês se coloquem no lugar dela, sintam as emoções vibrando em suas peles. Irão mergulhar profundamente nos sentimentos, pensamentos, na alma da protagonista, porque são essas as partes mais importantes de quem realmente somos.

Espero que tenham gostado desse passeio por “Sol em minha Noite”, e aguardem a continuação com “Névoa”. Fiquem com um trechinho:

– São noites que habitam seus olhos, Helena – disse com a mesma ternura que usava quando precisava esbanjar cura em minhas feridas. – Eu estou acostumado com essa breve escuridão que te acompanha diariamente. Você é assim, e isso não me assusta. – Rafael lançou um leque de dedos em minha face fria, resgatando com leve desespero as trilhas da minha pele, escondendo-as na base das suas mãos. – Eu sei lidar com sua noite, meu amor, mas essa névoa cobrindo os seus olhos, impedindo que me encontre… Ah, minha Helena, com ela, me perdoe, não sei lidar.

– Você está me perdendo – conclui vacilando, logo em seguida mordendo a comissura dos meus lábios, impedindo que os soluços rompessem minha boca.

– Não, meu anjo. – Seus olhos ardiam uma verdade que não conseguira me alcançar. – Você se perde todas as vezes que duvida do amor, e com isso me varre para longe de você.

(Névoa, pág. 137)

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