#textos

Você aceita as perdas e eu fico com as desgraças.

28 de fevereiro de 2014
tumblr_lavx6a8vLe1qa8vdso1_500Trecho do romance “Você aceita as perdas e eu acumulo as desgraças”. 

Como não consigo controlar a minha emoção e, por fim, me pego gritando com você, perdida entre as palavras que quero dizer, os motivos que preciso listar, porque olhar para você e saber que estou te perdendo é terrível, logo, não há como concentrar o turbilhão de emoções em um lugar deserto dentro de mim – emudecê-los e ponto final –, optei por escrever.

Lembra-se quando eu disse que precisava urgentemente de uma caneta? E um sorriso sorrateiro se fez presente em minha boca cada vez que pedia isso? Pois bem, eu a queria porque precisava escrever uma carta de amor para você. A oportunidade perfeita para dizer como me sinto, que ainda o amo, escrever sobre todos os pontos que me fazem querer permanecer ao seu lado, mesmo com tantas dificuldades. Você nunca comprou a tal caneta, e a carta de amor morreu antes mesmo de nascer. Você poderá alegar que me faltou vontade e persistência, visto que se queria tanto escrevê-la, a ausência de uma caneta não me impediria. Correto, concordo. Há lógica se você pensar assim, não posso criticá-lo, no entanto, me recuso a escrever sobre nós com um lápis, tão fácil de ser apagado e esquecido. Eu queria perpetuar meus sentimentos, marcar a folha em branco e jamais ser apagada. A fragilidade de um lápis a marcar o branco, me incomoda. Eu aspirava segurança, certeza que após o passar dos anos, você poderia regressar às minhas cartas de amor e relembrar os sentimentos. Afinal, essa é a razão das cartas: o remédio, o alívio para os momentos difíceis, mas você nunca retornou. Você jamais resgata meus sentimentos, apenas deixa-os largados em um canto, acumulando poeira, somando semanas, meses e anos. Você me esquece com uma facilidade que me incomoda, me desestabiliza. Eu sou como uma dessas cartas que você jamais leu ou não se preocupa em guardar. Acha que o fato de existir em algum lugar da nossa casa, se prende na certeza que o amor continuará lá – imutável e permanente – até o dia em que a lembrança da minha existência o encontre e você volte para mim. Mas você nunca volta, não é mesmo? Prossegue em seus dias, nem mesmo segura minha mão como antes. Eu sinto os seus dedos esticados, sem aquele receio trêmulo de me perder, e eu, como uma tola que ainda acredita no amor, me pego apertando sua mão com toda  minha força e medo, pedindo que você retribua. E por um curto espaço de tempo – segundos ou minutos – você volta a ser meu, mas um momento depois, eu volto a te perder.

Estamos nos deteriorando.

tumblr_mlxsc5xfvp1rs1gaeo1_500

Nosso amor está sofrendo as ações dos agentes naturais da convivência. E me recuso a acreditar que não estamos mais apaixonados, porque eu estou. Eu grito, choro, fico nervosa, quebro os pratos, porque ainda arde paixão dentro de mim. Eu não quero ter você, eu quero ser sua. Não me satisfaço com o poder de ter alguém, eu quero ser amada, desejada, procurada e encontrada todos os dias. Eu não suporto perder quem amo, e você sabe, já perdi demais nessa vida. Perder você significa que perdi para os meus medos.

Enquanto escrevo, você está do outro lado da casa, perdido em seu silêncio, sem uma resposta ou ação, ou qualquer gesto que indique que você ainda me ama. Você aceita as perdas e eu fico com as desgraças – somando-as dia após dia, perdida na cama sem companhia, olhando para a televisão ligada, implorando que você venha, e você não vem. Eu deixo de existir para você. E sinto, muitas vezes, que a casa se torna um mausoléu: vazia de nós dois, cheia de individualismos, dois solteiros andando de um lado a outro, em alguns momentos nos esbarramos: você me toca, meu mundo explode, mas num segundo depois (tardio ou não) você desaparece, me solta entre as quatro paredes brancas e segue o seu rumo.

Estou esgotada.

Faz algumas semanas que sentamos para conversar. Eu contei os meus segredos, as dores mais absurdas que levei anos para administrar e superar. Peguei-me pensando que assim você me resgataria, entenderia minhas frustrações, os silêncios repentinos, e nada. Você me respondeu com uma gota de lágrima, como se eu merecesse apenas uma gota, enquanto dedico uma cachoeira inteira a você. É, meu amor, não estamos equilibrados. Contudo, contrariando as apostas óbvias dos não apaixonados, ou descrentes do prolongamento do amor, eu acreditei; me peguei rezando para que você me respondesse, melhorasse, me encontrasse. E, mais uma vez, eu fracassei. Fracassei porque deixei as minhas armas de proteção guardadas; confiei naquela sua lágrima solitária; me peguei pensando “hoje, ele me pegará em seus braços, apertará meu corpo contra o dele e dirá que não pode viver sem mim, e num sopro fraco da sua voz, me pedirá desculpas pela forma como me tratou naquela madrugada”. Você jamais fez isso e eu cansei de esperar.

Mentira… Estou mentindo novamente para mim, eu ainda espero, caso não esperasse esta carta nunca teria ganhado vida, correto? Eu ainda acredito que dentro de você exista uma gota (como a sua lágrima) de amor por mim. Transforme-a em uma tempestade, me banhe por inteira. Eu aceito as suas tempestades. Eu juro, eu aceito. Mas por favor, não me deixe morrer na solidão do deserto. Não permita que o nosso amor se despedace como todas as demais histórias de amor que tanto critiquei. Somos maiores do que a própria vida, não é arrogância acreditar nisso. Dividir o mesmo teto não nos transforma em um casal, mas sim as mãos entrelaçadas, os carinhos inesperados, seus dedos tocando o meu corpo, mesmo que sem desejo, apenas por tocá-los, porque se desespera ao ficar sem mim. Eu deixei qualquer vestígio de orgulho distante, passei por cima de todos os meus ideais e aqui estou, sendo apenas sua, vivendo para alcançar meu único e verdadeiro sonho: você e a nossa história de amor. Eu não quero uma vida de individualismos e sonhos solitários, eu quero você.

Você se isola em um mundo que não existe e emudece todas as minhas palavras, principalmente a paixão. Eu tento… Por Deus! Eu tento todos os dias ter você. Eu tento resgatar a parte feliz dos contos românticos, mas sozinha não consigo. Eu sinto medo que você apenas tenha desistido de me amar, e por me deixar assim tão sozinha, é a sua forma de dizer “vá embora”. E se eu for? E se eu for, o que será do nosso amor?

Gostou? Compartilhe!

You Might Also Like

No Comments

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.